Fortaleza Prometida do Sol

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FORTALEZA PROMETIDA DO SOL

Contos e crônicas de uma cidade em busca de si
(Ricardo Kelmer. Contos e crônicas. Miragem Editorial, 2026)

Para celebrar seus três séculos de vida, Fortaleza se veste de memórias e ficções e nos leva num íntimo passeio por seus recantos, personagens e acontecimentos. Nas crônicas e contos deste livro, a noiva do Sol prometida se exibe, ora risonha e convencida, ora misteriosa e sedutora, mas nas entrelinhas se envergonha, incerta de si.

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APRESENTAÇÃO

A boemia dos bares, a transformação do Morro do Mirante, o triste fim do hotel São Pedro e os shows da Intocáveis Putz Band. A heroica resistência do Riacho Papicu e a inauguração da escada rolante da Lobrás, a primeira da cidade. O poeta vagabundo Mário Gomes, a vaidosa catadora de recicláveis e a espalhafatosa Raimundinha.

A exposição do artista japonês que nunca existiu e o charme purpurinesco do bloco Belas da Tarde. A peleja do pastor com a dona do bar, a animadora de enterro, o garanhão da lagoa da Parangaba e o noivado que começou num cabaré do Farol. Uma paixão que sobrevive na saga de uma família e o detetive que investiga estranhos crimes na Praia de Iracema.

Fortaleza… Cidade que seduz em sorrisos de luz neon, mas de manhã nos cobra o pedágio da realidade. Vaidosa do que sonha ser, ela se desconhece nos espelhos e se desmerece no tanto amor que lhe dão.


OPÇÕES DE COMPRA E LEITURA

Livro impresso – Edição da Miragem Editorial, 152 pag, 11,5 x 18cm, orelhas. Direto com o autor (R$ 60, frete incluído)
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TEXTOS DO LIVRO

Crônicas

A celebração da putchéuris
O último blues de Lily
Inculta e bela, dengosa e cruel
Dois morros
Ser mulher não é pra qualquer um
A marmota do ano
O homem que preferia Satanás
Mário Gomes, o poeta viralata
Badauê 30 anos ‒ Estamos vivos
O riacho sobrevivente
Aplausos para o palhaço
Mate-me que eu já te matei
Pelos bares da vida

Contos

Crimes de paixão
A cidade das almas boas
Cem vezes mais
O terror da lagoa
Animadora de enterro
A paixão segundo Luzia
O caixão
A glamourosa da Lobrás
Fortaleza espelhada
Viajando na cidade
Nas curvas do teu litoral

FALARAM DO LIVRO POR AÍ

Ler Fortaleza Prometida do Sol, de Ricardo Kelmer, é experimentar uma saudade curiosa: a de uma cidade que não vivi, mas que, de algum modo, sempre habitou em mim.

Ao percorrer suas crônicas e contos, fecho os olhos e sou conduzida a uma Fortaleza do final dos anos 80 — um tempo que me toca como memória emprestada.

Há algo de Meia-Noite em Paris nessa experiência, como se eu também fosse arrastada, à maneira de Gil Pender, para um passado idealizado, vibrante e boêmio. Kelmer constrói uma cidade pulsante, feita de encontros, excessos e invenções. Nas páginas, vejo-me participando das rodas de blues do Badauê, enquanto ele, ao lado de Nelsinho e Paulo Márcio, transforma a caixa d’água do mezanino em piscina improvisada — um gesto que mistura irreverência, precariedade e poesia urbana. Entre goles de vinho e mergulhos improváveis, a Fortaleza que emerge é crua, viva e profundamente humana.

O humor percorre a obra com inteligência e despretensão. Quando o próprio autor afirma — com a honestidade desconcertante que marca sua escrita — não saber cantar nem tocar, mas, ainda assim, formar a banda “Os Intocáveis Putz Band”, ele nos convida a partilhar de um sonho que não depende de talento, mas de desejo. E como não querer fazer parte disso? Eu também teria lugar ali, com o mesmo “dom” de não saber cantar ou tocar e o mesmo sonho improvável de ganhar um milhão de dólares e me tornar mundialmente conhecida. Havia, afinal, como dar errado?

Mais do que um registro de época, o livro é uma cartografia afetiva da cidade. Nele, ecoam vozes, sons e presenças — como as de Karine Alexandrino e Lily Acalay, figuras emblemáticas de uma Fortaleza noturna, artística e indomável.

As cenas se multiplicam como flashes de uma memória que não é minha, mas que sinto como se fosse: Kelmer vestido de mulher, de meia arrastão e sainha, na irreverente Festa das Bonecas da Volta, na Beira-Mar dos anos 1980; os shows de Aloísio Sansão e Matutaia vistos do balcão do Órbita, entre goles de vodka; e o riso solto diante de Paulo Diógenes, com sua inesquecível Raimundinha, sempre pronta a atravessar a plateia e transformar qualquer presença em cena.

Nos contos, como em “O terror da lagoa”, o riso se mistura à compaixão. A história de Lia e as traições de Jaime, reveladas por caminhos tortuosos e quase farsescos, nos fazem rir — mas também reconhecer as dores íntimas que atravessam essas narrativas. São memórias que, mesmo não sendo minhas, me alcançam com uma familiaridade quase íntima.

Fortaleza Prometida do Sol é, assim, um convite à deriva: entre o vivido e o imaginado, entre a cidade real e aquela que se constrói na lembrança e no desejo. Ricardo Kelmer nos entrega uma Fortaleza que resiste no tempo — não como nostalgia estéril, mas como chama acesa na memória coletiva.

Marta Pinheiro, abr2026

 

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