O Irresistível Charme da Insanidade – cap 2

O amor insano. O amor desafiador do tempo. O amor que descortina as mais absurdas possibilidades do ser.
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O IRRESISTÍVEL CHARME DA INSANIDADE

CAPÍTULO 2
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DO RESTAURANTE, enquanto tomava café, Luca observava o camping ao lado. A barraca azul estava lá, no mesmo lugar, a alguns metros da sua. Mas Isadora não estava. Moça interessante…, ele pensou. Interessante mas infelizmente maluca. Aquelas ideias de levar a vida sem planos… Então ela estava ali porque sonhara com um cara que não conhecia e que devia encontrá-lo numa praia do Nordeste? E o cara era ele? E aquela história de saltar no abismo? Não. Era muita doidice.

Após o café Luca pegou a trilha, rumando para leste, em direção ao mar. Quando chegou à encosta, o sol já ia alto no céu, a bola de fogo sobre o horizonte impondo-se lentamente dia adentro. Enquanto admirava a paisagem, ele não pôde evitar de se comparar a ela: a Natureza não fazia força alguma para ser o que era, ao passo que sua vida era o oposto…

De repente os gritos de uns garotos o despertaram de seus devaneios. Eles se divertiam no mar, surfando nas ondas com os próprios corpos. Luca ficou olhando para eles, admirado de suas habilidades, os corpos feito pranchas, deslizando firmes na água. Levantou e desceu a encosta, disposto a também se divertir com o mar. Quando chegou, percebeu que as ondas eram maiores que imaginava, mas entrou mesmo assim, escolhendo ficar um pouco distante dos garotos para não atrapalhar.

Na primeira onda que se ergueu à sua frente, faltou-lhe coragem e ele mergulhou para escapar, quase sendo arrastado pelo repuxo. Desistiu também na segunda, com medo. Na terceira, a mesma coisa. Começou a se achar ridículo.

Quando a onda seguinte surgiu, jurou para si mesmo que não desistiria e aguardou sua chegada. Ela veio e, quando chegou, ele deixou-se erguer. A onda ganhou mais força e de repente quebrou. No instante seguinte ele viu-se solto no ar e a imensa massa de água caindo por cima dele. Luca perdeu totalmente o controle do próprio corpo e, submerso, passou a girar e girar, feito um boneco desengonçado. Em certo momento bateu a cabeça na areia e ficou tão zonzo que sequer sabia para que lado estava o céu.

De repente, quando já estava esgotado e respirando água, tudo ficou silencioso e sem dor. Parecia não estar mais na água. Parecia estar fora do tempo. Então ela surgiu bem à sua frente… uma mulher de vestido branco… Era bonita, e olhava silenciosa e compreensiva para ele. Soube instantaneamente que a conhecia de muito tempo atrás, tanto tempo que seria inútil tentar lembrar. Ela lhe estendeu a mão e ele compreendeu que se a aceitasse, todo sofrimento se dissiparia como um sonho ruim do qual se desperta. Tudo que precisava era segurar sua mão, só isso…

Então sentiu agarrarem seus cabelos. Percebeu que o puxavam à superfície. Por um segundo pensou em protestar, em pedir para ficar ali embaixo, mas não teve forças. Foi levado pelos garotos para a areia, onde vomitou e aos poucos melhorou. Eles explicaram que ele não deveria mergulhar sozinho, que aquelas ondas eram muito perigosas. Luca agradeceu e ficou ali, sentado na areia, enquanto os garotos voltaram para o mar e continuaram desafiando com naturalidade as enormes ondas. Como conseguiam controlá-las?

Quando chegou ao camping foi que realmente se deu conta de que quase morrera, que merda. Estava vivo por um triz. Entrou na barraca e sentou-se, assustado, ainda envolvido pelas sensações. Lembrou da alucinação, a mulher de branco – por que ela lhe era tão familiar? E lembrou também que, por um rápido instante, teve em suas mãos a decisão do que aconteceria, que poderia tentar o derradeiro esforço para se salvar ou poderia aceitar a morte.

Não teve tempo de decidir. Mas… e se realmente tivesse tido chance de optar? Prosseguiria lutando, se debatendo e sofrendo até o último instante, ou se deixaria levar, tranquilamente, para longe do sofrimento, junto à mulher de branco?

Levantou, buscando afastar o incômodo que sentia. Não gostava daquelas coisas, a morte, o além… Melhor não contar para ninguém e esquecer o assunto. Então armou a espreguiçadeira e pegou o violão. Um pouco de música para afugentar o além.

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UMA LUA MINGUANTE subia no céu de Tibau do Sul junto com as primeiras estrelas. Em frente à barraca azul uma pequena fogueira crepitava, mantendo afastado o frio da noite. Sobre uma toalha, Isadora arrumava um prato com queijo.

– Faz séculos que não faço um piquenique – disse Luca, chegando com o vinho.

– Aproveita que está em pé e guarda este livro, por favor.

– I Ching, o livro das mutações… – ele disse, pegando o livro das mãos dela e pondo dentro da barraca. – Já ouvi falar.

– É o oráculo do Taoísmo – ela respondeu. – Funciona como um instrumento pra você se investigar psicologicamente, pra captar os movimentos internos e harmonizar com os do mundo.

– Muito místico pro meu gosto.

– Você se concentra numa questão, mexe as varetas ou as moedas, anota os resultados e no fim lê a mensagem. Mas o objetivo de todo taoísta é um dia não precisar mais de oráculo pra conseguir captar os movimentos.

– E pra quem não acredita, como eu, funciona?

– Sempre funciona. Mas talvez você não capte a essência da mensagem.

Luca abriu o vinho e serviu.

– Vamos brindar a quê? – ele perguntou.

– Aos movimentos que nos trouxeram até essa fogueira.

– Boa.

Tocaram os copos e beberam. E ele reparou como ela estava bonita sob a luz bruxuleante da fogueira.

– E a história que você disse que ia me contar?

Ela olhou séria para ele. Em seus olhos Luca pôde ver o reflexo inquieto do fogo, a dança colorida das labaredas… Nesse momento teve uma sensação estranha, um princípio de vertigem. Sentiu-se puxado para dentro de um outro estado de ser, mais leve, mais distante…

– Dois anos atrás comecei a ter um sonho recorrente – ela começou. – Era sempre o mesmo lugar, na Espanha, um povoado pequeno… Parecia fim da Idade Média, século dezesseis, por aí. No sonho tinha uma criança brincando, mas eu nunca via os olhos dela. Esse sonho se repetiu durante meses. Fiz hipnose com uma terapeuta e as imagens vieram mais fortes. Aí eu pude ver os olhos da menina. E me vi neles. E percebi que aquela criança era eu.

– Ora veja – comentou Luca, tentando não transparecer sua incredulidade em relação aqueles assuntos.

– Vi vários fatos da vida dessa menina passarem diante de mim, como num filme. Não só vi, eu vivi. Ou melhor, revivi, sentindo as sensações da menina. Não lembrei tudo, mas lembrei muita coisa dessa vida.

– Como era a menina?

– Ela se chamava Catarina. Era uma adolescente pobre quando se casou com um alemão e foi morar com ele na Alemanha. Ele era um homem rico e ela aprendeu a ser uma dama. Ela tinha tudo pra levar uma vida tranquila e confortável, mas um dia conheceu um missionário português e se apaixonou perdidamente… Enrique, o nome dele. Era jesuíta e conhecia pessoas importantes, viajava por muitos países, sabia outras línguas. E era meio bruxo.

– Como assim?

– Pertencia a uma ordem secreta, essas coisas. Usava os sonhos pra saber o que rolava na Corte, as tramas políticas da Igreja… Ele visitava Catarina nos sonhos e juntos viviam experiências em outros planos da realidade, uma coisa bem louca. Um dia ela fugiu com Enrique. Mas algo deu errado na fuga e ele desapareceu.

– Morreu?

– Não sei. Porque na verdade Catarina nunca soube. Mas é uma curiosidade que eu tenho. É provável que tenha sido preso ou algo assim. Catarina procurou por ele durante anos, de cidade em cidade, mas não encontrou. Nem nos sonhos ele apareceu mais.

– Deve ter arrumado outra.

– Não. Ele a amava demais.

– Esse negócio de amar demais nunca termina bem. Mas e depois?

– Ela… Bem, ela enlouqueceu.

– Enlouqueceu? De verdade?

Isadora demorou a responder. Luca percebeu que ela estava emocionada.

– Sim, ficou louca, de verdade. A falta de Enrique a consumiu até o fim da vida. E ela morreu assim, procurando por ele.

Durante algum tempo ninguém falou nada, e o silêncio que se formou era como uma sombra entre eles. Luca teve vontade de perguntar que interesse ela tinha em lhe contar aquela história, mas sentia que não devia fazê-lo, que era melhor ficar quieto. Em vez disso, perguntou:

– Você lembrou mesmo de tudo isso?

– É mais que lembrar, Luca. Eu vivi de novo.

– E você acredita mesmo que foi essa Catarina?

– Eu não acredito. Eu fui.

Isadora olhou para a fogueira. Apanhou algumas pedrinhas e atirou às chamas.

– E você, Luca? Essa história não lhe diz nada?

– Não acredito em reencarnação.

– E o bruxo português?

– O que é que tem ele?

Ela continuou jogando pedrinhas na fogueira. Luca abriu a boca para repetir a pergunta, mas outra ideia lhe veio.

– Peraí. Você não está achando que eu sou esse Enrique, né?

Ela não respondeu.

– Naquele seu sonho, eu disse isso, que fui Enrique?

– Não. Mas eu reconheci Enrique em você. – Ela virou o rosto, olhando calmamente em seus olhos.

Luca riu, constrangido.

– Foi depois desse sonho que decidi largar tudo. E vim atrás de você.

Ele simplesmente não sabia o que dizer.

– Só que tem algo errado… – ela falou, esforçando-se para sorrir. – Era pra você lembrar também.

Ele respirou fundo, tentando organizar as ideias. Então aquela mulher largara tudo para encontrar alguém de outro tempo, de outra vida, que ela agora procurava nessa vida, viajando pelas praias do Nordeste? E ela achava que ele era o tal alguém? Finalmente estava explicado o comportamento estranho dela, as insinuações… Mas aquilo era uma loucura, uma completa loucura. E era como uma névoa a envolvê-lo…

– Isadora, tenho uma sugestão – ele disse de repente. Precisava se afastar daquele assunto – Vamos ouvir música? Eu trouxe o violão.

Ela fez que sim com a cabeça. Ele levantou, avisou que primeiro iria ao banheiro e saiu, dirigindo-se ao restaurante. Quando retornou, Isadora não estava mais lá. Ele olhou para a barraca azul fechada e suspirou, desanimado.

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LUCA ABRIU UM OLHO, depois outro e finalmente os dois juntos. Ainda estava escuro e fazia um pouco de frio. Ajeitou-se sob o lençol, lembrando a noite anterior, as doidices de Isadora, sua tal vida na Espanha, Catarina, o bruxo português… A insanidade tinha olhos cor de mel.

Súbito, escutou seu nome. A voz de Isadora. Levantou-se e, enrolado no lençol, abriu a barraca. Agora já era dia e chovia fininho.

– Serviço de despertador pro senhor Luca de Luz Neon. Meio-dia.

Isadora sorria à sua frente. Estava ainda mais bela…

– Meio-dia? Caramba, dormi demais.

– Vem.

– Pra onde?

– Passear.

– Com essa chuva aí?

– Claro. Há quanto tempo você não brinca na chuva?

Ele esfregou os olhos, pensando na capacidade que ela tinha de dizer certas coisas como se fossem as mais simples e lógicas do mundo.

Minutos depois seguiam caminhando lado a lado pela estradinha de areia. A chuva caía leve, formando poças e espalhando pelo ar um frescor relaxante. Em pouco tempo estavam ensopados.

– Se eu chegar gripado na gráfica vai ser uma merda.

– Esqueça só por um momento que pode adoecer.

– E eu não comi nada ainda. Acho melhor…

Mas ela já saía correndo à sua frente. Luca apressou o passo, desajeitado, a água escorrendo pelo rosto. Isadora já havia sumido na curva. Ele começou a correr e um chinelo atolou na poça de lama.

– Isadora, me espera!

Então, de repente, ele lembrou que um dia… muito tempo atrás… uma noite… E parou de correr, tomado pela inquietante sensação de já ter vivido aquele momento antes, em algum tempo longínquo, quando? Um déjà-vu. Isadora sumindo na chuva, sumindo… os pingos nos olhos, um trovão ecoando… ele ali parado, ofegante, ela sumindo, ele gritando seu nome… Onde vivera aquela mesma cena, e quando, em que impossível tempo?

Continuou ali, parado sob a chuva, absorvido pela misteriosa sensação. Mas foi por pouco tempo, pois logo dominou-o um angustiante pressentimento de que se não corresse, aquela mulher sumiria de sua vida mais uma vez.

Mais uma vez?

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AINDA CAÍA UM RESTO DE CHUVA quando a noite desceu em Tibau do Sul. No restaurante da pousada, Luca e Isadora tomavam um caldo de peixe, ele saboreando cada pedaço daquele delicioso momento: o gosto do caldo, a chuva, a musiquinha na rádio… Luca sentia a cabeça flutuar leve e os pensamentos vagarem sem critérios. Pela primeira vez naquela viagem sentia-se verdadeiramente descontraído. Os problemas que o esperavam em Fortaleza agora pertenciam a uma distante realidade, e a realidade em que ele estava naquele momento era feita de coisas tão simples…

Ele olhou para Isadora à sua frente, entretida em seu prato, e admirou-se de como ela combinava com o momento, a chuva que caía lá fora, a simplicidade do lugar… Isadora parecia viver num outro patamar de apreensão das coisas, que ele não alcançava. Ela percebia a essência das coisas com naturalidade, enquanto ele precisava de muitíssimo esforço para… ser simples.

Que horas? Talvez algo entre seis e sete, ele calculou mentalmente. Ou oito e nove. Poderia perguntar, mas não, não queria saber do tempo, o tempo já não importava, estar com Isadora era como estar fora dele.

Ela o havia arrancado de seu sono e o levara para conhecer as delícias de uma tarde chuvosa, um velho prazer esquecido de infância. Correram pela estrada, tomaram cachaça e olharam a chuva debaixo de tetos de palha. Riram de velhas piadas e comeram milho assado. E agora estavam ali, tomando caldo de peixe. Um dia perfeito. Como todos os dias deveriam ser.

– Desculpa por ontem, Luca. Não queria que ficasse constrangido com aquela história que contei.

– Você realmente sonhou comigo? – ele perguntou, dividido entre a curiosidade e o receio de retomar aqueles assuntos.

– Podemos falar de outra coisa?

– Claro.

Ele sentiu-se aliviado. Melhor mesmo não falar daquilo. Havia algo ali que o incomodava bastante, algo que ele não sabia precisar.

– Então me fala sobre o Taoísmo, fiquei curioso. É uma religião antiga, né?

– Tem uns cinco mil anos. Há o lado religioso, mas prefiro o filosófico.

– E como é?

– Não vou te contar.

– Por quê?

– Você vai rir.

– Prometo que não rio.

– Ah, pensando bem, é pra rir mesmo.

– Não vou rir, eu juro.

– Filosoficamente falando, o Taoísmo é um modo intuitivo de entender a realidade. Um modo que o jeito ocidental, com toda sua lógica científica, não consegue entender. Dá um nó no pensamento.

– Como seria um modo intuitivo de entender a realidade?

– Captar os movimentos naturais da vida pra agir em harmonia com eles. É isso que o Taoísmo ensina.

– Então um taoísta é alguém ligado à Natureza?

– É alguém que está conectado com o Tao, ou seja, consigo mesmo e com a Natureza, com as verdades simples e naturais. O Tao é a unicidade de tudo que existe, aquilo que liga todas as coisas e liga também o eu ao todo. Se você se harmoniza com o Tao, fica mais simples viver. Mesmo vivendo no ritmo louco da cidade grande, é possível se manter ligado com a mente da Natureza.

– Mente da Natureza? Você andou fumando?

– Não – ela respondeu, rindo. – Deixa ver se consigo explicar. A Natureza é a vida, e a vida tem seus movimentos, suas estações. É essa conexão com o natural que guia o taoísta por entre todo o caos. Sabe quando a gente se apega demais a uma coisa? Isso é antinatural. Porque aquela coisa se transforma o tempo todo e a gente continua apegado a algo que não existe mais. O que não muda, apodrece. Esse dinamismo também é o Tao.

– O Tao seria um deus?

– O Tao não é uma entidade personalizada como os deuses das religiões. É algo impessoal, que não tem vontade nem tem moral. O Tao já é a própria ação da vida, o fluxo natural da realidade.

– Não sei se entendi.

– É porque não dá pra explicar o Tao. Só dá pra intuir.

– Aliás, sinceramente, nem sei o que tem pra entender nisso aí.

– Quem pergunta sobre o Tao não o imagina. E quem responde não o conhece.

– Estar em harmonia com as coisas… Isso me cheira a uma certa passividade, não?

– Pelo contrário. Captar o fluxo do Tao é um difícil trabalho interno, uma alquimia interior. Mas depois que consegue, você se ajusta às forças naturais da vida e se torna um com tudo que existe.

– E se eu quiser ir contra o Tao?

– Vai viver cansado.

Viver cansado… Luca escutou o eco daquelas incômodas palavras.

– Quem é uno com o Tao não precisa fazer nada. E, no entanto… nada deixa por fazer.

– Mas isso é contraditório.

– Eu não disse? Dá um nó no pensamento.

– Tao tem tradução?

– O ideograma chinês que corresponde ao Tao é feito de pé mais cabeça. O caminho, o sentido.

– Pra mim está mais pra “sem pé nem cabeça”… – ele falou e riu. – Ops, desculpa.

– Não faz mal, pode rir – ela disse, rindo também. – Se não houvesse gargalhadas, não seria o Tao.

Ele terminou de tomar o caldo e ficou olhando para ela, se deliciando com o que via: os olhos cor de mel, o cabelo molhado, a boca bem torneada, os seios se insinuando por baixo da camiseta… e maluca, deliciosamente maluca.

De repente ela ergueu o rosto e seu olhar interceptou o dele. Ele sentiu-se flagrado em seu desejo sexual.

– Pensando em quê, Luca de Luz Neon?

– Ahn… nada.

– Eu sei. Quer que eu diga?

Ele fez que sim com a cabeça. Ela tomou a última colher do caldo, limpou a boca e falou, naturalmente:

– Nos meus peitos.

Ele não acreditou no que escutou.

– E, se quer saber, eu estava a-do-ran-do…

Primeiro foi o olhar de idiota dele. Depois foram as mãos, apertando-se sobre a mesa. Depois as bocas, o beijo ávido, o inadiável encontro das línguas. Depois a conta paga com urgência, obrigado, pode ficar com o troco, o último gole apressado de cerveja, o caminho de volta para a barraca, correndo, debaixo de chuva…

Chegaram ofegantes e enlameados. Entraram na barraca dele e ajoelharam-se um de frente para o outro. Ela suspendeu a camiseta, lhe exibindo os seios, e sussurrou:

– Vem.

Ele se lançou sobre os seios daquela mulher com todas as mãos e bocas e línguas que possuía, como se fossem mangas maduras e suculentas e ele um miserável esfomeado. Ela agarrou sua cabeça e o puxou para si, enquanto arrancavam o que tivessem de roupa e rolavam, quase derrubando a barraca. Depois ela pôs-se por cima, prendeu seus braços e o cavalgou, subindo e descendo, subindo e descendo…

Luca fechou os olhos, em êxtase. Sentia-se envolvido pelas sensações de uma forma como nunca antes havia sentido. O olhar meio hipnótico de Isadora, a maciez da pele, o cheiro gostoso, o som musical de seus gemidos, o sabor irresistível de seu beijo… Tudo nela era bom demais, como podia ser tão bom? E tudo o envolvia de tal modo que pela primeira vez ele fazia sexo sem pensar exatamente no que fazia. Em vez de racionalizar, simplesmente fechou os olhos e deixou-se levar pelas sensações… a sensação de compartilhar seu corpo… a sensação de que algo o engolia… em sucções contínuas… ritmadas… o engolia…

De repente, a explosão. Num segundo seus pedaços foram lançados para todos os lados numa velocidade impensável, milhões de fragmentos expelidos para o Cosmos sem fim. Então, enfraquecido pelo esforço, sentiu que deixava de existir, lentamente, diminuindo, apagando, morrendo… Para sempre.

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PRIMEIRO UM OLHO. Depois o outro. Luca mexeu-se sob o lençol, lembrando de Isadora, o passeio na chuva, a transa na barraca… A transa mais louca e mais maravilhosa de toda sua vida.

Então olhou para o lado e não viu Isadora. Teve um mau pressentimento. Levantou rapidamente e saiu. E lá fora, sob a luz clara do dia, não viu a barraca azul, nem sinal dela. Ficou parado, sem saber o que concluir. Novamente sentiu a vertigem, uma sensação estranha de estar escorregando para dentro de um sonho… Por um instante foi tomado por um medo terrível de que Isadora jamais houvesse existido.

Pôs o óculos escuro, correu até o restaurante e lá perguntou pela moça da barraca azul. Ela já havia ido embora, respondeu um dos filhos de dona Zezé. Ele sentou-se, triste por não estar com Isadora, mas aliviado por constatar que ela realmente existia, que tudo acontecera de verdade. Pediu um café forte e foi sentar-se à entrada do restaurante. Enquanto tomava o café, olhou para o camping, para a barraca azul que não mais estava lá, e de repente a ausência de Isadora era um imenso e eterno vazio em sua alma. Que estranha sensação… Como era possível que algo que três dias antes sequer existia pudesse agora encher o seu ser de um vazio sem fim?

Quando chegou de volta à barraca foi que percebeu o papel dobrado sobre o lençol:

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Te encontrei. Agora não há mais retorno. Salte no abismo.
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Uma hora depois, após desarmar a barraca e pagar sua conta, ele caminhava pela estradinha de areia em direção à rua onde pegaria o ônibus que o levaria para Natal, onde tomaria outro ônibus para Fortaleza. Nesse instante, uma pequena cobra marrom surgiu à frente, cruzando lentamente a estradinha. Ele estancou e recuou um passo. Não gostava de cobras, elas lhe faziam lembrar a morte, a morte que quase o levara no mar de Tibau do Sul. A cobra também parou e por alguns segundos ficou ali, olhando para ele. E depois seguiu seu caminho, sumindo mato adentro. Luca se certificou que não havia perigo e prosseguiu, imaginando o pesadelo que seria despertar à noite com uma cobra dentro da barraca.

– Mas bem pior seria despertar dentro da cobra… – brincou.

No ônibus, ele leu o bilhete pela décima vez. Saltar no abismo. Que abismo?

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(continua)

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.com

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CAPÍTULOS
Prólogo
cap 1 cap 2 cap 3 – cap 4

cap 5 – cap 6 – cap 7 – cap 8
cap 9 – cap 10 – cap 11 – cap 12

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