É proibido fazer blues na praia

17set2012

Arriscar outros movimentos, sem ficar determinando de antemão que é impossível, não pode não senhor

É PROIBIDO FAZER BLUES NA PRAIA

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Eis que chego de viagem e encontro o artigo de Manoel Ricardo de Lima onde ele faz uma crítica de meu livro, O Irresistível Charme da Insanidade, recém-lançado em Fortaleza. Que bom que existem pessoas como ele. Assim podemos ter uma ideia de como seria o mundo se todos vivessem atrelados a uma visão formal, mecanicista e cartesiana da realidade. E da literatura.

Quer dizer que Manoel não entende como é possível se inspirar para compor blues numa praia? Quer dizer que só se pode compor blues nos Estados Unidos, de preferência sentado sobre os trilhos de alguma estação ferroviária? Ora, ora… A seguir este tipo de raciocínio de bitola, os americanos, coitados, jamais poderiam jogar futebol. Ou Vitor Biglioni estaria proibido de tocar jazz. Ou os brasileiros de fazer cinema. Francamente, Manoel.

Quer dizer que Manoel não consegue entender como é que o sujeito toca gaita e aparecem trechos da letra da música? Pois vou lhe ensinar como é que faz, meu amigo. É assim: primeiro você se desatrela de uma visão formal da linguagem e… faz. Faz e pronto. Entendeu?

Quer dizer então que Manoel não entende como romance pode ter trilha sonora? Vixe, por quê? Será pelo fato de que é impossível ler e escutar ao mesmo tempo? Impossível para quem? E quem determinou que tem-se de fazer as duas coisas ao mesmo tempo? Pois eu digo que literatura tem a ver com música sim, com imagem, movimento. Literatura é tudo isso e muito mais, e até quando vamos ficar nessa discussão?

No mais, compreendo perfeitamente que meu crítico considere, como é mesmo?, prematuramente óbvio e com determinantes de inutilidade certos temas do livro. Compreendo, sim. Afinal, como exigir de pessoas que se acostumaram nos paletós rígidos da mentalidade cartesiana-ocidental a compreensão de algo tão sutil e impalpável como o Tao? Como exigir que entendam o princípio da transformação, do equilíbrio dinâmico, da unicidade? Certas verdades são mesmo básicas e triviais, são mesmo, e estão bem à frente como o nosso nariz ‒ por isso poucos as percebem.

Tudo que existe pode ser entendido de muitas formas, sim. Estou repetindo a frase que Manoel usou como exemplo de inútil justamente por se tratar de uma obviedade. Mas por trás do óbvio risível, há um outro óbvio, mais sério. E não são todos que veem. A física subatômica nos provou que o simples ato de observar uma partícula já determina a sua natureza. Portanto, a realidade é tão somente fruto de uma percepção, de uma relação entre objeto e observador. Isso também vale para outros aspectos da vida. O modo como se vê, determina o que se vê. Se entendemos a vida como algo rígido, será assim que ela se apresentará, e teremos de ser mais rígidos que ela para resistir. Mas é bom lembrar que numa tempestade as grandes árvores, fortes e duras, são as primeiras a quebrar ‒ os bambus, flexíveis, sobrevivem.

Sei da necessidade de rotular (isso é literatura, Bruna não é poesia, isso não pode), mas penso que já está na hora da humanidade esquecer por um momento velhos modelos de interpretar a realidade e tentar ser mais abrangente. Não somente na compreensão de coisas como arte e linguagem, mas no entendimento da própria vida. Creio que mais importante agora é aprender a nos desvencilhar dos velhos paletós que limitam e arriscar outros movimentos, sem ficar determinando de antemão que é impossível, não pode não senhor, é proibido fazer blues na praia, está aqui no manual.

Quem quiser, que siga o manual. Eu vou por aqui.

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Ricardo Kelmer 1996 – blogdokelmer.com

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Esta crônica integra o livro A Arte Zen de Tanger Caranguejos. Foi escrita em resposta a uma crítica sobre o livro O Irresistível Charme da Insanidade (edição de 1996, editora Universalista), publicada no jornal O Povo, de Fortaleza, em 1996.

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O Irresistível Charme da Insanidade
Ricardo Kelmer – romance

Dois casais, nos séculos 16 e 21, vivem duas ardentes e misteriosas histórias de amor, e suas vidas se cruzam através dos tempos em momentos decisivos. Ou será o mesmo casal?

Luca é um músico obcecado pelo controle da vida, e Isadora uma viajante taoísta em busca de seu mestre e amante do século 16. A uni-los, o amor que desafia a lógica do tempo e descortina as mais loucas possibilidades do ser.

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Luís Olímpio
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