Crônica de um romance não fumante

13abr2011

Se vejo o cigarro entre os dedos, já sei: mesmo que haja interesse mútuo, jamais seríamos felizes juntos

CRÔNICA DE UM ROMANCE NÃO FUMANTE

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Nada contra os vícios, por favor, também cultuo os meus. E não me interessa o que os outros fazem ao próprio corpo e espírito, a gente é livre pra viver e morrer. Mas comigo não dá. Não dá mesmo. Tô falando de mulheres fumantes. Me desculpe se você fuma, mas sabe como é, essa nossa convivência, tantas crônicas, acho que posso ser franco.

Dizem que homem, quando conhece uma mulher, sempre pensa em sexo: transaria ou não com ela? Mas sempre pensa. Bem, admito que tal hábito não me é estranho. Mas vou além. Como sou um cara meio romântico, às vezes penso em romance: será que eu e ela, um dia, nós dois… No entanto, se ela fuma, ah, que pena, desanimo no terceiro segundo do primeiro encontro, antes do quarto. Se vejo o cigarro entre os dedos, já sei: mesmo que haja interesse mútuo, jamais seríamos felizes juntos, a vida não é perfeita, beibe. Dividir algumas noites, talvez, anda mesmo fazendo frio. Mas compartilhar o dia a dia? Impossível. No máximo, um romance de mentirinha. Porque sei que não vai dar certo nunca, melhor não nos iludirmos.

E não me acuse de radical, pois eu já tentei, bem sei do que falo, ela tá de prova. Quando a conheci, ela estava fumando – ainda assim me apaixonei pela moça. Felizmente a paixão é cega, senão ninguém se apaixonaria. Mas depois a visão volta e a gente tem que lidar com a realidade. O que aconteceu? Não demos certo, é óbvio. Como que dá certo se não aguento a fumaça, me sinto sufocado, espirro, arde o olho… Por favor, não preciso de mais um risco de câncer. E ela responde: e eu não preciso de mais um chato. E você tá comigo por quê? Pronto, começou, a velha discussão.

Já reparou? Fumante sempre acha que controla a direção da fumaça: estica o braço, abana o ar, bafora pra cima, vai pra janela… E o fedor horroroso que fica na roupa dela, na pele, no cabelo? E no outro dia até eu tenho que pendurar minhas roupas ao sol. Exagero seu, não tô sentindo nenhum fedor, ela diz, magoada. Claro que não sente, com esse olfato comprometido. Ah é, e essa sua mania ridícula de arrotar, heim? Ridículas são as guimbas que você deixa por aí. Tô jogando no vaso sanitário, seo idiota! Mas não dá descarga, sua burra!

Tá vendo? Não dá, minha linda, melhor não insistir. Por mais que você evite fumar quando comigo ou que fume escondido e depois passe o bom-ar, uma hora bate a secura. Aí eu já sei o roteiro da tragicomédia: saio de perto pra você fumar tranquila, vou dar uma volta, você se chateia e, pronto, estragou a noite. Isso tudo sem falar no maldito hálito. Beijo com gosto de cinzeiro, francamente… Pra encarar, só misturando muito desejo com cinco doses pra anestesiar a língua. Sem falar que você vai acabar se chateando de tanto que vou lhe oferecer ráus extra-forte. Enfim, não dá, não dá.

Há mulheres que se irritam com não fumantes, chegam a insultar nossa masculinidade, que coisa feia. E há amigos que dizem que isso é frescura, pô, mermão, botou no sol e fez sombra, a gente traça. No meio dos extremos só me resta dar de ombros, fazer o quê se com a idade a gente se valoriza mais e fica mais seletivo? Bem, é verdade que, biologicamente falando, não sou nenhum representante exemplar da raça pra botar tanta banca. Sem falar que sou viciado em futebol, desses que colam a tabela de classificação na parede – coisa que muita mulher jamais entenderá. Mas mesmo com todos os meus defeitos, acho que também tenho direito a uma exigenciazinha, né?

Semana passada conheci uma fumante. Ela é tão linda… O olhinho, o jeitinho… Ai, ai. Pena que a vida não é perfeita. Durante um tempão fiquei olhando, admirando… Até que tomei coragem e fui lá. Oi, você já ouviu falar das realidades paralelas? Não? Ah, então deixa eu explicar, posso sentar aqui do teu lado? Obrigado. Garçom, uma vodca, por favor. Tripla. Onde a gente tava mesmo? Isso, os deuses. Poizentão, os deuses que criaram essa realidade também criaram outras. E numa delas você deixou de fumar, sabia? Sim, definitivamente. Sério que você anda pensando em largar? Que bom. Então. A gente invade o prédio dos deuses, acessa o arquivo e faz a substituição da realidade. Eles nem vão perceber, andam muito preocupados com o Oriente Médio. Tem que ser à noite, claro. Hoje é um dia bom. Você tem compromisso?

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Ricardo Kelmer 2004 – blogdokelmer.com

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 COMENTÁRIOS
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01- Oi, Ricardo, gosto muito do jeito como vc escreve! Em especial, este trecho de crônica sua mexe muito diretamente comigo pq sou fumante. Já deixei várias vezes e volto sempre qdo alguma coisa me aperreia. Fazer o quê? Esquecer de beijar e esperar deixar de fumar. Vich, tá parecendo o filme “Confidências Muito Íntimas”! Só que aqui, peguei foi um desavisado escritor para analista. Me perdoe. Abraço. Maria Juraci, Fortaleza-CE – ago2005

02- Concordo em gênero, número e grau: perderia facilmente o grande amor da minha vida no terceiro segundo do encontro, bastaria que ele acendesse o cigarro. Poderia ser o Brad Pitt. E Free Light. Ana Karla Dubiela, Fortaleza-CE – ago2005

03- Olá Ricardo! Já li todos os seu livros, sou sua admiradora. Amo o seu jeito inteligente e leve de escrever. Adorei a crônica de um romance não fumante, só ficou faltando especificar que o gosto do beijo é de cinzeiro é sujo. Quem já beijou sabe disso hahahahahahaha… Atualmente não tenho este problema, tb não agüentaria. Bj p/ vc genial escritor, Jussara Santana, Salvador – BA – ago2005

04- Kelmer, Gostei muito da crônica e, inclusive, me identifiquei. É osso mesmo agüentar, por mais que haja a própria mulher, é claro, + chiclete, pastilhas, whysky, incenso, bom-ar etc e tal… Um dia a fumaça entra, e onde há fumaça…., no caso, apaga o fogo! Abraço. Ronald de Paula , Fortaleza-CE – ago2005

05- Olá Rk, Bom dia. Somos um pouco parecidos em relação aos fumantes, mas se for só fumante de Cannabis não me incomoda… Você já sabe que adoro seus artigos, crônicas, textos, etc e tal, sempre que quiser me escreve tá? Se cuida e que o Universo te proteja! Com carinho e paz. Marúsia, Fortaleza-CE – ago2005

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3 Responses to Crônica de um romance não fumante

  1. Alefe Souza disse:

    Me identifico muito com você em relação a mulheres fumantes,só que eu nem procuro fazer amizades com fumantes devido ao cheiro horroroso e o fato de eu passar mau

    eu tenho 14 anos e quando eu vejo uma menina da minha idade com o jeitinho que eu gosto,mais depois que eu vejo que ela fuma,já vou ficando triste

    na minha sala tem uma menina de 15 anos muito linda,com o jeitinho que eu gosto e aqueles olhinhos lindos,sempre vermelhos,mais lindos

    eu tenho esse negócio de não falar com fumantes,mais com ela eu converso bastante,as vezes eu até sento do lado dela,tenho que agüentar aquele cheiro muito forte,mais sento,ela é daquele tipo que não faz muitas amizades na escola,então eu falo bastante com ela,eu vou falando do porque ela fuma,ela fala que começou por curiosidade,a maioria dos adolescentes sempre começa pra passar a imagem de pessoa independente,pra conquistar a meninas babacas,e depois quando vira adulto ficam reclamando de que não conseguem parar,achando que vai continuar pegando depois dos 18 só porque fuma

    voltando a falar da Alice,eu converso com ela e vou incentivando ela a parar de fumar,pergunto o que que ela acha que vai ser no futuro,ela diz que não sabe,a grande maioria dos adolescentes não sabem,acham que pai e mãe é pra sempre,ela me disse que antes(com uns 14 anos) ela fumava 1 maço por dia,e que tá parando,hoje(ela com 15) é só 4

    com certeza eu não vou conseguir um romance com ela,mas pelo menos to incentivando ela a parar

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  2. Alefe Souza disse:

    Lógico,ela fumava um maço de cigarro por dia com 14 anos

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