O menino e o feminino misterioso

20out2008

Esse instante numinoso em que o feminino sagrado mostrou-se para mim, sob a meia-luz de seu imenso mistério

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O MENINO E O FEMININO MISTERIOSO

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Não sei dizer quando o mistério do Feminino me atingiu pela primeira vez na vida. Talvez na adolescência, quando vi, pela janelinha do banheiro, num misto de fascínio e assombro, as amigas de minha irmã trocando de roupa, e seus movimentos de se olhar no espelho, virando de um lado e virando do outro, me deixaram a certeza que, sim, as mulheres estão sempre a dançar naturalmente uma linda música que não se ouve, é um mistério.

Não, não. Certamente foi bem antes. Talvez quando me apaixonei por minha professora da alfabetização, que saudade da professoriiiinhaaaaa, eu menino véi amarelo do buchão, ficava olhando para ela e me esquecia da aula, admirando seu jeitinho de ajeitar o cabelo enquanto nos ensinava o beabá. Quase reprovado na alfabetização, que belo início para um escritor. Depois vieram outras professoras apaixonantes e eu demoraria muito até entender que as mulheres estão sempre a me ensinar, mas eu só aprendo mesmo se elas na hora não ajeitam o cabelo, senão eu confundo tudo. É um mistério.

Não, não, já sei! Foi bem mais cedo. Na verdade o feminino misterioso me foi revelado ainda no útero de minha mãe. Foi naquele momento mágico em que o óvulo materno recebeu o zoide paterno e então, pufff, neste exatíssimo instante, o que a partir de então seria eu de repente passou a existir, uma infinitesimal fagulha zigótica de autoconsciência que, uma vez existindo, automaticamente percebeu-se imerso num organismo vivo e foi logo se animando: “Hummm, será que a dona desse organismo não tem umas amigas…?”

A suposição é absurda, claro, um zigoto taradão querendo conhecer as amigas da mãe. Vai ser precoce assim lá no líquido amniótico! Mas consideremos que haja sim algum momento na vida em que sejamos tocados pela primeira vez pela noção do feminino misterioso. E que pudéssemos lembrar desse instante, o que sentimos, pensamos, intuímos…

Eu adoraria localizar esse momento de alumbramento em minha vida, feito um arqueólogo da própria psique, e fazer dele a capa de meu livro Vocês Terráqueas. Meus leitores olhariam a capa e veriam a fotografia psíquica desse instante numinoso em que o feminino sagrado mostrou-se para mim, sob a meia-luz de seu imenso mistério. Mas não sei onde ele está, em que ponto exato se deu. Assim sendo, na falta da imagem primeva, a capa de meu livro exibe a imagem de uma mulher, seu rosto banhado pela luz suave da Lua crescente, o beijo lunar acariciando sua pele. Ela e a Lua, o eterno feminino que se revela e se esconde, e reaparece e resplandece, e obscurece novamente, a Sofia que brinca de ensinar a se perder, a Prostituta Sagrada que abençoa, a Santa que faz amor com tudo que há.

As histórias desse livro, no fundo elas não passam disso: tentativas de resgatar a magia desse momento irresgatável. São isso, meros fragmentos desajeitadamente recompostos do instante essencial. Ecos de um encontro sublime que se renova a cada dia, quando a plenitude do feminino misterioso ressurge em minha janela e me deixa assim, sem entender nada da Lua – mas sempre uivando para ela.

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Ricardo Kelmer 2008 – blogdokelmer.com

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> Mais textos sobre o Feminino Sagrado

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vtcapa21x308-01Vocês Terráqueas – Seduções e perdições do Feminino

Com que propriedade um homem pode falar sobre o universo feminino? Neste livro RK ousou fazer isso, reunindo 36 contos e crônicas escritos entre 1989 e 2007, selecionados em suas colunas de sites e jornais, além dos textos inéditos. Com humor e erotismo, eles celebram a Mulher em suas diversas e irresistíveis encarnações. Ciganas, lolitas, santas, prostitutas, espiãs, sacerdotisas pagãs, entidades do além, mulheres selvagens – em todas as personagens, o reflexo do olhar masculino fascinado, amedrontado, seduzido. Em cada história, o brilho numinoso dos arquétipos femininos que fazem da mulher um ícone eterno de beleza, sensualidade, mistério… e inspiração.

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LIVROS SOBRE O FEMININO SAGRADO

Mulheres que correm com os lobos – Mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem (Clarissa Pinkola Estés –  Editora Rocco, 1994)

A prostituta sagrada – A face eterna do feminino (Nancy Qualls-Corbert – Editora Paulus, 1990)

As brumas de Avalon (Marion Zimmer Bradley – Editora Imago, 1979)

O Feminino e o Sagrado – Mulheres na jornada do herói (Beatriz Del Picchia e Cristina Balieiro – Editora Ágora, 2010) – É ainda mais interessante ver o relato das mulheres, pois elas sempre foram, mais que os homens, historicamente reprimidas na busca pela essência mais legítima de suas vidas

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Basta enviar e-mail pra rkelmer@gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer (saiba mais)

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Comentarios01COMENTÁRIOS
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01- Ah! Kelmer!! Vocês terráqueas foi nosso primeiro flerte! Eu eu nem te conhecia obrigada por trazer um texto de lá!! Beijos saudosos. Sandra Regina, São Paulo-SP – mar2016

02- Amei texto Ricardo Kelmer! Oseneide Alves, Fortaleza-CE – mar2016

03- É sempre bom reler. Grande Ricardo!!! Waldemar Falcão, Rio de Janeiro-RJ – mar2016

04- ♥ Ana Claudia Domene Ortiz, Albuquerque-EUA – mar2016

05- Beleza Kelmer. Iris Medeiros, Campina Grande-PB – mar2016

06- ♥ Erika Menezes, Fortaleza-CE – mar2016

07- obrigada! Renata Regina, São Paulo-SP – mar2016

08- Obrigado meu querido!!! Thaís Guida, Rio das Ostras-RJ – mar2016

09- Kelmer você é um lindo! Muito obrigada! Ana Lucia Castelo, Newark-EUA – mar2016

10- “A plenitude do feminino”. Saudades de ti,amigo Ricardo Kelmer!!! Muito obrigada!!! Beijos meus!!! Rochelle Melo, Campina Grande-PB – mar2016

11- Beeeijos “Mizi” RK. Tu é um bicho lindo amado e querido. Tu sabe que eu rio igual mesmo relendo essas histórias. Ivonesete Zete, Fortaleza-CE – mar2016

12- O amigo e escritor que sempre admirei, desde uns anos atrás em um tempo que, juntos, lutávamos para fazer ” as coisas acontecerem”… Minha eterna admiração por você, meu amigo! Vânia Vieira, Fortaleza-CE – mar2016

13- Pra quem quer ler sobre a alma feminina, escrito por uma alma masculina, recomendo qualquer coisa escrita por Ricardo Kelmer. E em particular a crônica abaixo. Jayme Akstein, Sidney-Austrália – mar2016

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6 Responses to O menino e o feminino misterioso

  1. Chris disse:

    Mulher é um bicho complicado mesmo , escritor, vc terá que escrever por 10 gerações e nunca chegará a uma conclusão. Bjos cariocas.

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  2. Laura disse:

    pq somos um mistério, vcs gostam tanto!! impossível um homem entender completamente uma mulher, somos muito diferentes, mais mágicas, mais místicas… mas me impressiona como vc tá chegando perto disso… rs beijos!!

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  3. Rosa disse:

    A propósito do teu post, escritor meu, fiquei cá pensando com o meu teclado:

    Engraçado como o Sol, macho que é, fica lá, sempre com aquela cara redonda SOLene, dando aquele passeio no meio do céu, que é só pra fazer jus a sua grandiosidade.Todo sério que é, não deixa a gente apreciar tanto suas cores, só no finzinho da tarde que parece estar mais garboso (sabido ele, “a Lua deve tá chegando”, ele pensa com seus raios).Já a Lua, toda feminina, caminha com sua faceirice pelo céu e ainda muda de face, como melhor lhe apetece o humor. Não caminha simplesmente: desfila, inspira os poetas, alua os viventes, atrai olhares diretos.

    Acho que é por aí. As mulheres são as luas das manhãs, das tardes, das noites… E felizes os sóis que conseguem acompanhá-las. Ô eclipse bom!

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  4. Se nós mulheres estamos sempre a dançar naturalmente uma linda música que não se ouve, você é o jogral que nos embala sempre com sensibilidade e poesia. 🙂

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