Vingativas

abril 4, 2012

Ricardo Kelmer 2006

Duas mulheres que raptam um ator famoso e, como vingança por ele tê-las desprezado, levam-no a um hotel, amarram-no e…

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Wuhmmm… Wuhmmmppfff… Foi o som abafado de sua própria voz que o despertou… aos poucos… como se voltasse de um lugar longe… muito longe… Ele abriu os olhos. E tudo que viu foi escuridão. Onde estava? Sentia-se zonzo. Tentou se mover mas não pôde, tinha os braços e pernas presos. Então percebeu que estava deitado numa cama, amarrado com cordas. E nu. Estava nu! E uma mordaça na boca. Mas… que diabos de pesadelo era aquele? O que estava acontecendo?

Imediatamente tentou lembrar dos últimos acontecimentos. A festa de lançamento de seu filme Vingativas, as tevês entrevistando-o, as fãs gritando e pedindo autógrafos… Depois a boate, as garotas da cidade brigando por uma foto ao lado do ator principal… Ele até tentou atender a todas mas era impossível. E depois… depois… nada. Não lembrava de mais nada.

Lentamente a escuridão se dissipou. Apesar da confusão mental, percebeu que estava num quarto de hotel. Mas não era o seu quarto. Pela janela aberta podia ver o céu, as luzes da cidade… E ele amarrado na cama, nu. Mas que diabos, quem teria feito… Nesse momento uma forte luz o atingiu em cheio, cegando-o. Demorou alguns segundos até entender que a luz vinha do banheiro. E na porta a silhueta de uma… mulher.

Linda noite para uma vingança, não? – ela falou, e caminhou calmamente em direção à cama. Por um instante ele teve a sensação que já vivera aquele momento, aquela frase… A mulher ajoelhou-se ao seu lado na cama e só então pôde vê-la melhor… Era uma garota morena e tudo que vestia era uma… máscara preta. E segurava uma taça. Na taça um líquido vermelho. Não, não a conhecia. Mas havia algo familiar em tudo aquilo…

Imagem, ação! A voz veio do lado oposto do quarto. Havia outra mulher! E ela aproximou-se devagar. Era uma garota loira, também estava nua e usava máscara preta. E segurava algo… uma pequena câmera. Ela estava filmando! Ele tentou se soltar mais uma vez mas não conseguiu. De repente sentiu um líquido frio sobre seu pênis… A morena pingava vinho sobre ele. Lembrou da boate, teriam posto algo em sua bebida? Mas o pensamento não prosseguiu pois a morena reclinou a cabeça, afastando os cabelos, e passou a lambê-lo. O contato da língua morna contrastou com o frio do vinho e ele fechou os olhos, sentindo o arrepio lhe percorrer o corpo inteiro, sentindo-se ser engolido pela boca ágil e macia. Tentou manter-se atento mas no centro de seu ser pequenas ondas de prazer se formavam e vinham dar na praia dos seus sentidos, inundando o pensamento.

A luz que vinha do banheiro enquadrava certeiramente a cama, iluminando seu corpo nu. Sentia-se exposto como uma tela de cinema. A loira posicionou-se com a câmera de forma a aproveitar o máximo da luz. A morena então virou-se de frente para ele e passou uma perna sobre seu corpo. Ele duvidou que fosse acontecer o que imaginava. Mas foi o que aconteceu. Devagar ela desceu sobre o pênis duro, devagar, enterrando tudo dentro dela. Em rápidos movimentos ela subiu e desceu, desceu e subiu, e o vai e vem de seu corpo acionou novamente as ondas de prazer. E foi assim, no balanço das ondas cada vez mais fortes, que ele viu a garota fechar os olhos, estremecer e cravar as unhas em seu peito. E urrar feito bicho.

Nem bem a morena se recuperou, a outra rapidamente posicionou a câmera sobre a mesa, ajustou o enquadramento e foi para a cama. As duas mascaradas agora brincavam com seu pênis, uma oferecendo à outra, como se fosse um sorvete irresistível, as duas saboreando-o de uma só vez, ele nas duas bocas ao mesmo tempo, entrando e saindo, saindo e entrando… Então ele finalmente lembrou: a cena do seu filme! A mesma cena! Duas mulheres que raptam um ator famoso e, como vingança por ele tê-las desprezado, levam-no a um hotel, amarram-no, aproveitam-se bastante dele e no fim… o castram. Elas o castram! A ficção de Vingativas se tornava real! E foi assim, dividido entre o terror e o êxtase, que ele sentiu as ondas se transformando num tsunami que rapidamente percorreu o interior de seu corpo, afunilou abaixo da cintura, comprimiu-se e, finalmente, lançou-se num forte jato sobre as duas bocas. E ele viu as bocas sorverem todo o líquido que jorrava, com avidez, urgente, como se fosse a última água do deserto. Seus olhos teimavam em se fechar mas ele viu quando a fonte secou e então as bocas se uniram num longo beijo, dividindo o líquido entre elas.

Enquanto ele arfava, sentindo as ondas se acalmarem dentro de si, elas se vestiram em silêncio e saíram. Ele pensou em chamá-las mas não teve forças, ainda estava zonzo. Que loucura, que loucura…, pensou, fechando os olhos e engolindo a saliva seca, o coração ainda batendo forte, tum-tum-tum… Não, os amigos jamais acreditariam naquilo, nem que jurasse de pé junto. Ele vivera a cena de seu próprio filme, a mesmíssima cena, que coisa… Bem, só o final mudara. Felizmente para melhor. Ele sorriu e somente então abriu os olhos. E ficou sério. A morena estava de volta. Em pé, ao lado da cama. Olhando para ele com um sorriso estranho. E algo reluzia em sua mão… Uma faca! Foi tudo bem rápido. Num movimento certeiro ela aproximou-se, encostou a faca e… zapt!, cortou a corda de um dos braços. E foi embora. Para sempre.

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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Este e outros textos você encontra no livro
Vocês Terráqueas – Seduções e perdições do feminino

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LEIA NESTE BLOG

> A torta de chocolate – Sexo e chocolate. Para muita gente as duas coisas têm tudo a ver. Para Celina era bem mais que isso…..

> As fogueiras de Beltane – As fogueiras estão acesas, a filha da Deusa está pronta. O casamento sagrado vai começar

> Quem tem medo do desejo feminino? – Você consegue imaginar Nossa Senhora tendo desejos sexuais? Alguma vez na vida você a imaginou fodendo?

> O íncubo – Demônios que invadem o sono das mulheres para copular com elas

> Lolita, Lolita – Ela é uma garotinha encantadora. E eu poderia ser seu pai. Mas não sou…

> Amor em fuga – Que mundo idiota. Pra poder viver o amor, a gente tem que fugir de casa

> A entrega – Memórias eróticas – A ex-bailarina filosofa sobre amor e sexo anal enquanto narra sua intensa experiência com a prática-tabu

> Por trás do sexo anal – Há algo de divinamente demoníaco no sexo anal que, literalmente, a-lu-ci-na algumas mulheres

> Vingativas – Duas mulheres que raptam um ator famoso e, como vingança por ele tê-las desprezado, levam-no a um hotel, amarram-no e…

> Postagens no tema “erótico”

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SÉRIES ERÓTICAS DESTE BLOG

> As aventuras de Diametral e Ninfa Jessi – A mais bela e safada história de amor jamais contada.

> As taras de Lara – Desde pequena que Lara só pensa naquilo. E ai do homem que não a satisfaz.

> Um ano na seca – O que pode acontecer a um homem após doze meses sem sexo?

> O último homem do mundoO sonho de Agenor é que todas as mulheres do mundo o desejem. Para isso ele está disposto a fazer um pacto com o diabo. Mas há um velho ditado que diz: cuidado com o que deseja pois você pode conseguir…

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 COMENTÁRIOS
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01- Ô mulheres…. Que bichos malvados. Achei uma escrita envolvente, que une o leitor numa relação que não permite se desligar do texto de forma alguma. Parabéns, Kelmer. Só pra variar, né? ;D Herlene Santos, Fortaleza-CE – dez2012

02- Maravilha de conto! Karla Karenina, Fortaleza-CE – dez2012


Cidadivosa

janeiro 25, 2012

Ricardo Kelmer 2012

Uma homenagem a São Paulo. Feliz aniversário, cidadivosa.
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Não me buscou na rodoviária. Não me apresentou à família. Mas me engravidou de sonhos. E promete casar quando eu melhorar de vida.

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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Maior que meu horizonte (Wanessa)

novembro 21, 2010

Por: Wanessa, 2010

E quando eu penso que ele já está de novo envolvido em meus contornos, hipnotizado pelo balanço dos meus quadris e minha maré, ele foge

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Lembro bem daquele jeito de andar que é só dele, se inclinando de um lado para o outro, pendulando sutilmente, ocupando seu espaço no universo. Não mudara quase nada na última vez que o vi: o cabelo (que alívio!) permanecia curto, a mochila nas costas, o domecq no bolso. Inconfundível. Era mesmo ele, com o mesmo sorrisinho safado pra loirinha desmiolada de sol, como ele gosta de me chamar. Quando ele chega, traz mil agrados, livros pra lançar, festas, aquele olhar contemplativo que mexe com a minha vaidade e depois vai embora, empobrecendo minha alma e minha arte.

Não é de hoje essa relação complicada, cheia de chegadas e despedidas. O jovem aprendiz de escritor que vi nascer em minha paisagem cresceu, experimentando o mundo, saboreando cada nova descoberta com seu espírito aventureiro e uma ânsia de viver maior que o meu horizonte. Mais um, eu pensava, que quer voar alto pra longe das minhas ruas, dos meus bares e do meu sol, menino ingrato! Menino sim, que esse cabelo rareando não me engana, ele continua o mesmo garoto desajeitado que vivia num uniforme do Colégio Militar, e as piadas infames, o ar despreocupado e aquela camiseta do Fortaleza continuam lá que eu sei.

Fui testemunha de inúmeras dores de cotovelo causadas por mulheres selvagens indomesticáveis e assisti impassível a porres escabrosos embalados pelas baladas bregas do Roque Santeiro. Por onde andará o terninho branco do Kelmo Lonner? E quem ficava sério assistindo aos manifestos do performer da Intocáveis Putz Band?

Foram tantas noites incríveis, paixões inesquecíveis, poemas em guardanapos amassados… São muitas as lembranças. Meu menino aventureiro sempre em busca de mais uma conquista, me surpreendendo, me divertindo, seja pulando numa multidão de punks pra resgatar uma Playboy, vestido de moça no carnaval ou escrevendo seus livros que também têm minha cara e minha história.

E quando eu penso que ele já está de novo envolvido em meus contornos, hipnotizado pelo balanço dos meus quadris e minha maré, ele foge. E reclama da minha indiferença às suas crias, da minha generosidade com os forasteiros, que exagero! Então me escapa para o Rio, São Paulo, sem ligar muito pro destino final porque o importante é a estrada. Seu blues não quer mais saber do meu forró.

E ele mesmo diz que eu brinco de morder e soprar com meus artistas, com ele não é diferente. Afinal, o que seria de mim sem meu melhor cronista? O que seria de minhas belas pernas sem seu jeito sacana e aquele olhar que consegue ser cético e místico ao mesmo tempo? Hum, falando assim me bateu uma saudade… mas agora só me resta preparar mais uns presentinhos e esperar até que seu irresistível charme aporte por aqui mais uma vez.

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> Texto inspirado na crônica Inculta e Bela, Dengosa e Cruel do livro Blues da Vida Crônica

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LEIA NESTE BLOG

> Cristal – Ele quer falar sobre tudo que viveu ali dentro, todos aqueles anos, os amores e desamores, o quanto sofreu e fez sofrer, perdeu e se encontrou… Mas não precisa, ela já sabe

> Desconstruindo Kelmer (por Wanessa, inspirado no conto Cristal) – Totalmente metida e curiosa, eu me debrucei sobre o conto e fiz minha própria interpretação

> Inculta e bela, dengosa e cruel – Então arrumei de novo a mochila, me despedi com muitos beijos, seu hálito de vodca me soprando toda a sorte do mundo, eu barquinho de papel rio abaixo, louco para ir, doido para ficar

> Essa loirinha desmiolada de sol - Duvido que ela tenha uma marquinha de biquíni assim – a loirinha insiste, com a graciosidade tristonha das cidades que sabem que seus argumentos são ótimos mas que não vão adiantar

> Maior que meu horizonte (por Wanessa, inspirado na crônica Inculta e Bela, Dengosa e Cruel)E quando eu penso que ele já está de novo envolvido em meus contornos, hipnotizado pelo balanço dos meus quadris e minha maré, ele foge

> Confissões de uma leitorinha nua (Por Leitorinha) – Fiquei tão à vontade pra ler a página dele na net que agora o fazia completamente nua

> Canalha Kelmer (Por Rômero Barbosa) – Cara, essa tal de Cibele queria era te dar. Queria ler sacanagens escritas por você pra depois tu comer ela todinha

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Tchau, 2009

dezembro 28, 2009

Ricardo Kelmer 2009

E 2009 chega ao fim. Pra mim foi um ano de recomeço, mais um – putz, quando acabarão? O último recomeço havia sido em 2006, quando, por falta de perspectivas profissionais, fiz a mochila e me mudei do Rio pra São Paulo. Aluguei um quarto próximo a Congonhas e iniciei uma fase de caramujo onde pelos dois anos seguintes eu quase não sairia de casa, imerso em criações. Pari os livros Blues da Vida Crônica e Guia do Escritor Independente. Depois foi a vez do livro Vocês Terráqueas e, em paralelo, comecei a planejar e construir meu novo site, o Blog do Kelmer. E a grana? Vinha dos livros vendidos, de artigos pra revistas, de palestras e das aulas de roteiro de sitcom que eu dava pela internet.

Em ago2008 a situação financeira complicou de vez e não deu mais pra continuar em São Paulo. O jeito foi providenciar uma estratégica retirada pra Fortaleza, minha loirinha desmiolada de sol. Entreguei o quarto, fiz a mochila e lá fui eu de novo, cigano dos recomeços. O plano era lançar lá o Vocês Terráqueas, fazer umas palestas, produzir umas festas e voltar pra Pauliceia o mais rápido possível. Mas demorei pra juntar a grana e acabei ficando nove meses em Fortaleza. Nove meses, um parto.

Voltei pra São Paulo em maio e aluguei um quarto no Sumaré. Comprei um notebook e instalei uma internet 3G, o que me permitiria mais mobilidade pra enfrentar as viagens, as mudanças e, argh, os recomeços. Morando no Sumaré, mais próximo do miolo cultural da cidade, minha vida social ficou mais movimentada e em dois meses eu já conhecia mais gente que nos dois primeiros anos na cidade. Em meu cotidiano agora existiam a feirinha da Benedito Calixto, o espaço do Alberico Rodrigues, o boteco do Jeová, os saraus do Bar de Ontem, os filmes no HSBC Belas Artes, a Livraria Cultura, a Casa das Rosas, o Sesc, a Fenac, os bares da Vila Madalena…

O segundo semestre foi bem movimentado. Fiz o lançamento do Vocês Terráqueas em São Paulo e comecei a me apresentar em alguns saraus. Montei o espetáculo Viniciarte e passamos a apresentá-lo uma vez por mês no espaço do Alberico. Lá também comecei a fazer palestras. E lancei a revista Letra de Bar, sobre livros e boemia. E, pouco antes do ano findar, mais uma mudança: precisei entregar o quarto no Sumaré. Fiz a mochila e me mudei pra uma pensão em Pinheiros, onde moro agora.

Muita gente me ajudou nesse recomeço paulistano. Obrigado, Silvio Dolnikoff, Danielle Fernandes, Celia Terpins, Magna Mastroianni, Lu Pacheco, Moacir Bedê e Gabriel Sousa. Valeu, Alberico e Jeová. Obrigado demais, Bia Rocha, por acreditar em meu trabalho. E obrigado, Wanessa, por você ser real. E muito obrigado a você que me lê e dá sentido ao suor das minhas palavras.

Que 2010 não me venha com mais recomeços, esse negócio cansa as pernas da gente. E minha mochila, coitada, anda precisada de um bom descanso. Em São Paulo.

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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O último blues de Lily

dezembro 15, 2009

Ricardo Kelmer 2003

A Lua nascendo no mar e os blues na voz de uma Lily que se rebola e se rebela e não ouve ninguém chamar

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É minha amiga Cristina Cabral quem me liga para dar a triste notícia. Lily Alcalay se foi. Falecera na noite anterior, 15 de fevereiro de 2003. A irmã morte veio buscá-la, ela que havia meses se hospedara em seu corpo. Desligo o telefone sentindo o peso da realidade que todos desconfiávamos mas não ousávamos admitir. Conto para Karine e choramos em silêncio, sentados sob o sapotizeiro do quintal.

Enquanto me visto para ir ao velório lembro de um fato curioso. Era 1995. Eu morava em São Paulo e soube de uma festa que aconteceria numa serra próxima. Entre as atrações lá estava: Lily Alcalay. Tomei um susto. “Ei, esta menina é lá de Fortaleza!” E mostrei o panfleto da festa aos amigos, empolgado ante a possibilidade de rever minha bluseira predileta. Saudoso das coisas da terrinha, falei de Lily, sua voz maravilhosa, os shows, como ela tão bem encarnava o espírito do blues. Dias depois estávamos na festa. A apresentadora anunciava a atração seguinte e eu na plateia aguardava ansiosamente que fosse Lily a próxima a subir ao palco, ela e sua rebeldia, a energia contagiante. Mas a danada não subiu. Sequer fora à festa. Voltei frustrado. Pô, Lily! A gente sobe a serra, paga ingresso caro e você não aparece?

Anos depois, morando de novo em Fortaleza, descubro que Lily também está de volta. Que boa notícia! Nossa querida venezuelana rasgando os blues pelos palcos da cidade felizarda, fazendo a noite mais saborosa e conquistando mais e mais admiradores. Por vários sábados, na barraca Opção Futuro, saciei meu desejo com Lily e a banda Marajazz, desfrutando daquele cartão postal: a Lua nascendo no mar e os blues na voz de uma Lily que se rebola e se rebela e não ouve ninguém chamar.

Uma noite, show terminado, fui até ela e entreguei um original de meu novo romance. Pedi que lesse e musicasse uma das letras que havia na história. Dias depois ela me disse que adorara o romance, que havia escolhido uma das letras e estava criando a melodia. Agradeci, superfeliz, e falei que a música estaria no CD que acompanharia o livro e que logo eu a chamaria ao estúdio para gravar.

Não deu tempo. Não resistindo mais às dores, Lily se internou para exames, o tumor já se alastrando por seu corpo. Fui visitá-la no hospital, ela se recuperando de uma cirurgia. Estava debilitada, sedada por medicamentos e falava com dificuldade. Mas demonstrava garra e confiança. E, impaciente com tantos soros e sondas, fazia planos de sair logo dali, retornar aos palcos, deixar de fumar, se cuidar mais…

Imóvel sobre a cama, Lily sorriu: “Não esqueci nosso blues…”. Vi quando virou o olhar para o teto e buscou a melodia na memória, fazendo-a escoar baixinho entre seus lábios. Cantou tão baixo que só pude distinguir uns poucos acordes. Deixei o hospital envolto numa tristeza resignada. Algo me dizia que eu jamais escutaria aquele blues. É preciso confiar sempre, eu sabia. Mas naquele momento a esperança era como a voz de Lily, um fiapo de melodia resistindo no meio de tanta dor.

Seu corpo retornou à mãe Terra num domingo de lua cheia, uma lua linda e brilhante feito um neon suspenso a iluminar seu último blues. O caixão desceu enquanto nossas vozes entoaram as belas canções de seu CD. Pô, Lily, você tinha que ir embora no auge? Não precisava seguir tão à risca a cartilha do blues!

Foi-se dona Doida, a artista, amiga, namorada, irmã, filha, mãe e avó. Fortaleza está mais pobre e mais careta. E com um cartão postal a menos.

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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> Baixe as músicas do CD “Lily Alcalay” (2001)

Babe babyBlues for you
Child of the city

Lejos de mi – Mar e Sol

Minha nossa dona Doida (Good Golly Miss Molly)
Orquídea negraQuero
SonhoSummertime

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> A sociedade feladaputa de Geraldo Luz – Crítica social, literatura, filosofia, anarquismo, sacrilégios explícitos e sodomismos irreparáveis

> Breg Brothers com fígado acebolado – Encher a cara, curtir dor de cotovelo e brindar a todas as vezes em que fomos cornos…

> O brega não tem cura – Porque o senhor sabe, né, o brega sempre puxa uma dose, que puxa outra, que puxa a lembrança daquela ingrata, que puxa outra dose…

> Odair José, primeiro e único - Se você, meu amigo, é desses que sentem atração por esse universo brega pré-FM, feito de bares de cortininha, radiola com discos arranhados e meninas vindas do interior… então escute Odair

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> Paz e amor express - Durante cinco dias o Festival Express cruzou a leste-oeste do verão canadense levando em seus vagões os ideais da união pela música, a esperança ainda viva de um mundo de paz e amor

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Eu só queria que você soubesse

novembro 10, 2009

Ricardo Kelmer 1995

LETRAEuSoQueriaQueVoceSoubesse-01a

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Eu só queria que você soubesse
(Ricardo Kelmer e Humberto Pinho)
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Eu só queria que você soubesse
Que as minhas noites são tão vazias
E o meu coração é tão velho sem você
Eu sirvo mais uma dose enfim
Eu olho a cidade
Da janela só a cidade sabe de mim

Eu ouço música na madrugada
Eu tinha tanta música pra fazer
Sirvo uma dose, me visto pra sair
Eu tinha tanto pra dizer
Onde está a seção de acompanhantes?
Quanto vale um corpo sem você?

Eu só queria que você soubesse
Que eu durmo muito tarde
E até a cidade tem sensibilidade
E que comprei aquele vinho da promoção
Eu só queria que você soubesse
Que você não tem coração

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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RAIO X DA PARCERIA

Você me permite umas considerações sobre esta música?

Fiz a letra desse blues numa das madrugadas solitárias de minha primeira fase carioca (1995-1996). Mostrei pro Humberto, que gostou e musicou. Em 2004, antes de eu embarcar pra ir morar novamente no Rio de Janeiro, ele gravou em seu estúdio, apenas voz e violão. É o único registro que temos pois a música não foi gravada por mais ninguém.

Quando escrevi, tive o cuidado de deixar o gênero incerto, ou seja, quem fala pode ser uma mulher ou um homem, apesar do protagonista buscar uma seção de acompanhantes e isso ser uma prática mais masculina. Numa letra, a incerteza proposital do gênero permite que tanto homens como mulheres se identifiquem e possam cantar sem ter que alterar o texto.

Por falar em alterar, houve alterações na letra. Em parcerias, isso é comum, e usarei este caso pra mostrar como elas podem enriquecer o trabalho. Na letra original, o verso é “Que as minhas noites são tão vazias” mas Humberto gravou “Que as minhas noites são tão sozinhas”. Gostei, mas prefiro o original por causa da aliteração (repetição das mesmas letras ou sílabas) provocada pela letra V (vazias, velho, você).

Outra mudança foi no verso “Quanto vale um corpo sem você?”, que na gravação ficou “Quanto vale um corpo sem o seu?” Outra vez prefiro o original mas é interessante perceber como as duas formas possuem curiosas sutilezas de significados. Vejamos:

“Quanto vale um corpo sem você?” – O protagonista ou a protagonista, no auge da solidão, busca a seção de acompanhantes e se pergunta quanto poderia valer um corpo que não fosse o da pessoa amada, “um corpo sem você”.

“Quanto vale um corpo sem o seu?” – Aqui a pergunta muda o foco. Quanto valeria o corpo do próprio protagonista privado do corpo da pessoa amada?

Mas houve uma mudança que aprovei. No original, era assim:

Eu olho a cidade da janela
Só a cidade sabe de mim

O protagonista está na janela olhando a cidade e somente a cidade sabe de sua dor. Na gravação, porém, o ritmo obrigou Humberto a fazer uma leve pausa entre “cidade” e “janela” e essa mudança, mesmo sendo bem sutil, levou o “da janela” mais pra perto do verso seguinte e isso causou, pelo menos pra mim, um efeito visual e de sentido bem mais interessante.

Eu olho a cidade
Da janela só a cidade sabe de mim

O protagonista continua olhando a cidade, isso não mudou. Mas agora o verso “Da janela só a cidade sabe de mim” parece emoldurar a cidade na janela e isso traz o protagonista de volta ao ambiente interno do apartamento. Ou seja, agora a cidade está na janela e observa o protagonista em sua dor e solidão.

A montagem aí de cima, uma mulher deitada na cama, vestida apenas com um salto alto, tocando-se, e a cidade observadora de fundo… Sabe que estou começando a gostar de fazer essas montagens?

A seguir, o clipe. É um dos que usei pra divulgação de meu livro Vocês Terráqueas. Escolhi e trabalhei as imagens pondo como protagonista uma mulher, e pra fazer a edição usei o Windows Movie Maker, tudo bem dentro das minhas limitações, vá desculpando.

> Baixe a música (mp3)

> Mais músicas kelméricas

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Clipe da música

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01-  Adorei ”Eu só queria que você soubesse”. E meus ouvidos até sorriram. Herlene Santos, Fortaleza-CE – abr2013

02- Excelente! Dalu Menezes, Fortaleza-CE – abr2013

03- Muito boa,Ricardo Kelmer Do Fim Dos Tempos!!! Silvana Alves, Fortaleza-CE – abr2013

 


Ser mulher não é pra qualquer um

outubro 31, 2009

Ricardo Kelmer 2005

É dada a saída, lá se vai o trenzinho. Num vagão as Belas, abalando nos modelitos, no outro as Madrinhas, abalando com o isopor e o estojinho de primeiro-socorro

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Era no último dia do ano. Uns caras desciam pra avenida Beira-Mar vestidos de mulher pra jogar bola. Tudo de peruca, vestidinho e cerveja na mão. Ideia genial, de uma só vez homenagear o melhor da vida: mulher, futebol e cerveja. Não necessariamente nessa ordem, é claro.

Avisei os amigos e em 1988 engrossamos o cordão da Volta da Jurema, tudo empolgado querendo ser mulher por um dia. Euzinha botei uma sainha, blusinha de alça com enchimento, meia tarrafa, uma maquiagem assim bem básica e calcei… o conga. Bicha pobre, tadinha. Nem peruca tinha. Mas descolei uma bolsa escândalo pra levar a garrafa de Ypióca. Mulher moderna é assim, pinguça e pragmática.

Meu batismo feminino foi de sangue: subi no carro, ele arrancou e saí bolando pelo asfalto, que nem tatu-bola, eu e a cachaça. Levantei zonza, procurando meu brinco, a saia toda torta, um peito no chão, a própria mulamba. Na mão o gargalo da garrafa, tudo que restou da companheira. E no braço… hummm, um corte horrível, que me custaria doze pontos externos e oito internos. Hoje mostro a cicatriz com orgulho: tá vendo, eu estive lá.

Aí o grupo cresceu e uma multidão ia pra Volta assistir ao desfile das bonecas, uma centena de ensandecidas aprontando na Beira-Mar, desfilando em carroça de jumento, invadindo ônibus, agarrando os bofes, gritinhos, xiliques e coreografias. Um verdadeiro carnaval fora de época.

Anos depois a festa tinha trio elétrico, axé music, muita bicha legítima e político querendo aparecer, ô racinha… Criamos então, em 93, um bloco dissidente: As Belas da Tarde. E elegemos como paraninfa Catherine Deneuve, claro. Ela foi convidada mas seus compromissos não permitiram, tudo bem. Passamos a desfilar no pré-carnaval e a cada ano escolhíamos a Bela Rainha, que botava a faixa e abria o desfile, glória máxima na vida de uma bela. Nosso ritual era sagrado: concentração ao meio-dia, modelitos-arraso, batons, brilhos e, por favor, qualquer coisa pra beber, o que é isso?, licor de ovos, serve. As amigas e namoradas ajudavam na produção, lutando pelo título de Bela Madrinha. Diferente desses blocos onde os caras botam um limão no sutian e se acham mulher, a gente fazia questão de ficar bonita. Pra entrar no bloco tinha que ser convidada, isso mesmo, era coisa séria. Afinal ser mulher não é pra qualquer um.

É dada a saída, lá se vai o trenzinho. Num vagão as belas, abalando nos modelitos, no outro as Madrinhas, abalando com o isopor e o estojinho de primeiro-socorro. Quarenta belas, uma parte já totalmente alucinada e a outra já clinicamente morta. O trenzinho percorre faceiro as avenidas ao som de Frenéticas, Xuxa e Ney Mato-Grosso e quem está na rua corre pra não ser violentado pelo bando de tarada. As tevês cobrem a pouca-vergonha: “Estamos aqui na avenida Abolição e o trânsito está um caos, os policiais são impotentes diante do furor uterino das belas enlouquecidas!” A passagem pela Beira-Mar é apoteótica: as belas invadem os hotéis gritando “Ar-ren-ti-nos! Ar-ren-ti-nos!” Os gerentes ficam em estado de choque. Os seguranças tentam barrar a turba mas, você sabe, é impossível deter um magote de bonecas bárbaras, tudo doida pra sentar no colo de um gringo, tomar o uísque dele e detonar a lagosta.

Uma vez pegaram um banhista e levaram a sunga dele, deixaram o coitado pelado no meio do calçadão. Ninfômanas! Outra vez o bloco invadiu o Náutico, interrompeu o jogo de tênis e levou as bolas. Vândalas! A outra desmiolada, debutando no bloco com seus primaveris 16 anos, bicha linda mas inexperiente na vidaloca, saltou de bico na piscina sem perceber que tinha apenas meio metro de fundo: foi direto pro hospital com a testa aberta, bem feito, quem manda dar desgosto à família! E a outra que caiu do trenzinho? Foi salva da morte pelo pai que levou a filha transviada pra farmácia e enquanto ele comprava soro fisiológico, não é que a condenada se apaixona por um creme de queratina e cai por cima da prateleira, derrubando tudo? Ô mulherzinha, deixa de ser desgovernada! E você não vai crer mas teve um ano que uma bela absolutamente sem juízo pegou no pingolim do soldado, acredita? Pois foi. Enquanto o soldado corria atrás, a bela gritava: Mal-agradecido, não te chupo mais! Que coisa. Botavam o quê na bebida dessas moças?

No fim do percurso a gente contabilizava as sobreviventes. E os namoros que restavam. Algumas belas iam tomar glicose, outras esticavam a noite, insaciáveis. Mas a maioria não sabia mais nem em que ano estava. Uma vez, no dia seguinte, encontraram uma bela semimorta no jardim de uma casa, ô vontade de ser uma orquídea… Outras conseguiam a incrível façanha de arrumar namorada, isso mesmo, namorada, vestido de quenga, a peruca parecendo um guaxinim molhado, o rímel escorrendo, aquele lastimável estado de embriaguez. É, tem gosto pra tudo. Pensando bem, nossas amigas eram mesmo sabidas: se aproveitavam da confusão pra fisgar aquele gatinho que nunca dava bola pra elas.

Em 96 o bloco desfilava pela Praia de Iracema seguindo a bandinha de metais. Ao passar pela igrejinha, na hora da missa, as belas, mui beatas, suspenderam a música, caminhando em silêncio, respeitosas. Uma até baixou o vestido, escondendo a peruca chanel que levava dentro da calcinha. Porém… uma bela isprito-de-porco não resistiu e soltou o refrão: “Na casa do Senhor não existe Satanás!” Pronto, as outras acompanharam, “Xô, Satanás, xô, Satanás”, a bandinha se animou, a festa voltou e os fiéis, apavorados, saíram correndo da igreja pensando que o próprio demo chegava com sua horda de dementes. Um ano depois o Tribunal do Santo Ofício excomungaria todas as belas, bem feito. Com exceção de uma que se arrependeu da vida pecaminosa e virou carmelita.

A essa altura o bloco já estava em franca decadência, as belas todas velhas, barrigudas, cheias de pelanca. A época áurea dos corpinhos malhados havia passado e já tinha bela pai de família levando os filhos pro desfile. Hummm, melhor parar. E assim as Belas da Tarde desceram a cortina, encerrando sua vistosa história de purpurina e alegria. Mas tem muito marmanjo aí que, por via das dúvidas, ainda guarda a meia arrastão no fundo da gaveta – eu, por exemplo. Sei lá, vai que um dia bate assim um revival. Já estamos excomungadas mesmo…

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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Foto 1: Concentração no bar Suspeito, do lendário Carlinhos Papai. Valmir Jr (A Perestroika da Fanta Uva), André Barbacena (A Filha de Glorinha) e RK (Angélica Brita).
Foto 2:
Concentração no bar Suspeito. Valmir Jr (Bela Rainha 1993 com o modelito A Perestroika da Fanta Uva), RK (Angélica dos Cambitos) e Rian Batista (Inês Fiúza Cover).
Foto 3: O famigerado trenzinho, 1990. RK, Fred Schlaepffer (de biquinho), Emílio Schlaepffer (a bicha galinha), Marcio Régis (a bicha bêba), Nelsinho Machado (bicha séria), Vicente Vieira (bichinha de óculos) e Fábio Fabão (bicha toda-toda). A bela de chapéu, afff, até hoje não sei quem é esta criatura risonha. Será o Beká?

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FOTOS
(clique pra ampliar)

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foto 4

O primeiro ano da putaria organizada, ainda Bonecas da Volta. Concentração, esperando o trenzinho chegar. (1989)
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foto 5Concentração. Dr. Galvão à esquerda, um entusiasta incentivador da bicholice alheia. (1989)

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foto 6Tá no DNA. Família Vieira bem representada: Paula Dark, Vicentina e Marcela, a bicha debutante – que duas horas depois saltaria de cabeça na piscina infantil do Náutico (que tem meio metro de fundura) e terminaria seu debut no hospital. (1989)

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foto 7Fredulina e Emília, as bichas arreganhadas. (1989)

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foto 8Abalando a Beira-Mar em chamas. Emília toda linda no trenzinho e Vicentina arreganhando a perereca. E a bicha Ricardina de sainha de bolinha, tão meiga. (1989)

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foto 9
Pirâmide Purpurina. As bichas manifestando toda a sua classe e doçura no calçadão da Volta da Jurema. (1989)

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1993. Concentração no bar Suspeito, do lendário Carlinhos Papai.

foto 10André Barbacena (A Filha de Glorinha), Valmir Jr (A Perestroika da Fanta Uva) e Carlinhos Papai sentindo algo estranho na retaguarda. (1993)

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foto 11RK (Angélica Brita) com a maquiagem ainda funcionando (1993)

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foto 12Invasão do Imperial Othon Hotel. Da esq. p/ dir.: Marcus Lima, Zá, ?, Pedro Neto, André Barbacena, ?, Rian Batista, RK, ?, Henrique Baima, Leão, Rossé Sabadia, Vicente Vieira e Humberto Pinho. Atrás os turistas sem acreditar. (1993)

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foto 13Invasão do Imperial Othon Hotel. Belas saudando o mar. Um bando de bichas embriagadas dançando num pedacim de muro, como é que ninguém nunca despencou dali de cima? Milagre de São Sebastião Flechado. (1993)

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foto 14Invasão do Imperial Othon Hotel. Em primeiro plano RK (Angélica Brita) segura a peruca enquanto comanda a retirada. À esquerda Humberto Pinho (Sherazeda) levando o uísque que roubou da mesa de um hóspede. Bem atrás da garotinha aterrorizada, Marcus Braga encarna uma madame levando na coleira seu lindo poodle imaginário. E à direita Luís Sabadia com a cerveja que ganhou de um turista alemão que se apaixonou por ele (esses gringos têm um mau gosto…). (1993)

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1994. Concentração na casa do Humbertinho.

Em 1994 as Belas mais uma vez deram o ar da graça. A concentração foi na casa do Humberto Pinho. Reza a lenda que no outro dia, de manhã, a mãe dele foi no jardim e encontrou dormindo entre as plantas uma bela vestida de chapeuzinho vermelho, semimorta: era o Pedro Rogério, coitado, que bebeu tanto na concentração que sequer conseguiu sair no trenzinho pro desfile.

foto 15Paulo Marcio (A Noiva do Chuck), Nelsinho Machado tendo um chilique, Vicente Vieira (Bonequinha de Luxo) e Sean (Oncinha Irlandesa) adorando o fon-fon em seu peitinho. (1994)

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foto 16Valmir Jr todo orgulhoso com sua faixa de Bela Rainha 1993, Vicente Vieira (Madame Vicentina) e Tibico Brasil (Ânus Dourados) (1994)

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foto 17A da esquerda tá tão linda que não tô reconhecendo. Mas a do meio é o Claudio Vignoli, futura bela pizzaiola. E a bela vitaminada da direita é o Fred Schlaepfer. Ao fundo Romeu Duarte doido pra assumir e Chiquinho Aragão se embriagando pra tomar coragem (1994)

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foto 18João Netto (antes de virar servo do Senhor, claro) encarnando A Viúva do Xinim Carecido, ao lado de Humberto Pinho,  A Louca do Cemitério. (1994)

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foto 19Wilsinho Pinto (Afrodite Pokemon) toda meiga no trenzinho (1994)

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foto 20Celsinho 90 graus e sua Radical Chota (1994)

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foto 21Sean, a Oncinha Irlandesa, achando o Brasil uma coisa assim muito exótica (1994)

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foto 22Vicente Vieira, Valmir Jr e Paulo Marcio, a Nojenta do Hospício (1994)

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foto 23Nelsinho Machado em seu glorioso momento de concentração. Tem que raspar esse sovaco, viu, fia? (1994)

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foto 24Volta da Jurema dominada (1994)

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foto 25A Noiva do Chuck e Madame Vicentina, irmãs unidas pela causa bicholítica (1994)

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Você tem fotos das Belas? Manda que eu publico, sem pena e sem cuspe.

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LEIA NESTE BLOG

> A celebração da putchéuris - A história fuleragem da Intocáveis Putz Band

> A volta da Intocáveis – Oh não! - Um show com os restos mortais da Intocáveis Putz Band

> Roque Santeiro, o meu bar do coração – Uma homenagem ao bar Roque Santeiro

> A sociedade feladaputa de Geraldo Luz – Suas músicas são baladas de melodias simplórias, conduzidas por uma inacreditável verborragia que mistura crítica social, literatura, filosofia, anarquismo, sacrilégios explícitos e sodomismos irreparáveis

> Ser mulher não é pra qualquer um - É dada a saída, lá se vai o trenzinho. Num vagão as Belas, abalando nos modelitos, no outro as Madrinhas, abalando com o isopor e o estojinho de primeiro-socorro

> Breg Brothers com fígado acebolado – Encher a cara, curtir dor de cotovelo e brindar a todas as vezes em que fomos cornos…

> Galinha ao molho conjugal – Então fizemos uma aposta. Qual dos três conseguiria resistir mais tempo ao casamento?

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COMENTÁRIOS
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01- Lonner, lembra que eu tenho MUITAS fotos das Belas da Tarde… Se eu abrir o baú, serei uma mulher morta! Carmem Távora, Brasília-DF – jan2011

02- Loucas eram as mulheres que aceitavam namorar esses caras! Fazer o que? Tem gosto pra tudo, kkkkkkkk – Maria do Carmo Antunes, São Paulo-SP – jan2011

03- Kelmer eu li o texto no Vocês, terráqueas e morri de rir e de cuiriosidade de ver vcs pagando essemico! amei! vc fica ‘deliciosA! kkkkk. beijão! Ana Cristina Martins, São Paulo-SP – jan2011

04- A Rosane pediu prá dizer que se ela fosse homem,ela pegaria a loira.rs. Bia Rocha, São Paulo-SP – jan2011

05- Kelmer, adoooro essa sua obseção (ou será obceção, ou obcessão?) pelas mulheres. Vc curte todas, as livres, as loucas, e ate as falsas. bjo, saudade. Renata Regina, São Paulo-SP – jan2011

06- Meu Deus, quando lembro dessas coisas, me pergunto como foi que a gente sobreviveu, kkkk! Putz, Ricardo, está muito boa essa crônica! Claro que ela tem um lado especial para mim, pois vivenciei tudo isso. Mas, procurando me abstrair da minha participação disso tudo, ficou bem escrito e interessante de se ler. Um registro digno de um tempo bom! Vou mostrar para a Synthia, quero ver a cara dela, hahaha! Aquele abraço, meu amigo, e obrigado pela lembrança! Antonio Martins, Maceió-AL – mai2012

ília, a


Dois morros

outubro 1, 2009

Ricardo Kelmer 2004

Quando o seio dela finalmente surgiu, meio à mostra na blusa entreaberta, minha mão vacilou. Ela então disse: Fecha os olhos

DoisMorros-6.
Minha mão vacilou quando o seio dela surgiu, meio à mostra… Não, não, melhor começar pelo morro, o outro. Vamos lá. No início era o simples, o natural. Não era chique nem tinha futuro. No alto do morro só umas casinhas pequenas e um espaço de grama e areia, uns arbustos, um pé de pau acolá. Era 1984 e eu garoto fuçador de recantos descobria o mirante natural do Morro Santa Terezinha e subia lá pra tocar violão com os amigos, luarada, fogueirinha de papel, namorar…

A gente sentava na grama, o litrão de rum no centro da roda. Os namorados iam pro carro, mais afastado, economizar o motel. Quem se apertava fazia xixi na ribanceira. Ir aonde ninguém havia ido, era excitante. Sem medo de assalto, sem pensar no tempo, a vida era agora.

Um dia, agora sim, um dia os seios dela surgiram. Aonde você tá me levando?, Isabella perguntou provocante. O fusca véi subia o morro, se peidando todo, serpenteando pelas ruazinhas, as casinhas simples, o povo na calçada, o charme suburbano. Pro céu, minha linda… Não, falei isso não, só tive vontade. Mas na última curva pedi: Fecha o olho. Quando ela abriu, era o postal noturno da cidade, encima o céu piscante de estrelas e lá embaixo os prédios, as luzes, o neon dos letreiros coloridos. Ela boba: Como você descobriu isso? Eu mais bobo: E você, como eu descobri você?

Aí a tiazinha botou umas cervejas em sua geladeira, uns refrigerantes. A gente ia lá na casinha dela e batia palma. Ela levantava do sofá onde via tevê e, sonolenta, trazia uma cerva e uns copinhos. Quanto é, tia? É só tanto. Tem mais gelada não? Tem não, meu fi, a geladeira tá desmantelada. A gente pagava e ela dizia: Pode deixar os cascos lá que depois eu pego. E aconselhava as meninas: Quando vier de novo, fia, traz um agasalho, mode o vento frio.

Um dia a cerveja veio com isopor. Estava melhorando. Outra noite cheguei lá e tomei um susto: a tia espalhara umas mesinhas, umas cadeiras de reclinar. Mode as menina não sujar o vestido, né, meu fi? Aí o vizinho começou a vender cerveja também. Já dava pra escolher se ficava na tia ou no tio, que chique. Depois já dava pra tomar caipirinha, beliscar um peixinho frito com tomate e cebola. O movimento aumentou e a filharada da tia veio ajudar. O mirante lotava, às vezes nem lugar pra sentar, um imenso bar ao ar livre, gente interessante, sempre aparecia um violão, um Pink Floyd no toca-fita… Tudo ainda simples e delicioso. O tempo ainda era agora.

Perdida entre beijos incontidos e abraços descontrolados, minha mão percorreu as curvas do copo dela, serpenteando, errando aqui, acertando mais na frente. Quando o seio dela finalmente surgiu, meio à mostra na blusa entreaberta, minha mão vacilou. Ela então disse: Fecha os olhos. Quando abri, a paisagem nua de seus seios reluzia à minha frente, dois morros a conquistar. E lá fui eu, garoto fuçador de recantos, legítimo ocupador do morro.

Nos anos 90 aos moradores venderam suas casas pros empresários, tudo de olho no bolo que crescia. Todo mês abria bar, pastelaria, restaurante. Virou chique subir o morro. Gente bacana bem vestida, turista tirando foto. Música ao vivo, restaurante limpinho, artesanato, peixe na telha. O progresso invadiu o morro com alvará. Mas… havia algo estranho. Pescadores e rendeiras agora eram comerciantes. Não havia lugar pra tanto automóvel. O barulho incomodava os moradores. Menina nova alugava o corpo magrinho nas quebradas da noite. Garoto trazia cocaína pro motorista. E a tal da urbanização asfaltou as ruazinhas e jogou uma praça feia por cima da grama.

Reivindicando seu pedaço do bolo, a violência também subiu o morro, claro. Roubos, assaltos, mortes. Os empresários resistiram, se organizaram, clamaram por segurança. Mas ela, mouca, não escutou. E assim a gente bacana desceu o morro e não voltou mais. O bolo murchou. E o futuro se foi, deixando o gosto bom do que devia ter ficado só no agora.

O morro não é mais chique, Isabella, mas ainda está lá. E eu queria que você soubesse que aquela noite também, continua no mesmo lugar, sem amanhecer, seus seios em minhas mãos, dois morros conquistados, eu turista já pensando em voltar. Tudo está lá ainda, meu nome gemido em sua boca, eu errando e acertando as ruas de seu corpo, indo aonde ninguém fora. Nossa história ainda se conta lá encima, na grama, suburbana, pegando cerveja na tiazinha. Nossa história, juvenil, desmantelada e urgente, mode a hora. Com tomate e cebola. No mirante perfeito do nós dois agora.

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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Este e outros textos você encontra no livro Blues da Vida Crônica
Este e outros textos você encontra no livro Vocês Terráqueas

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LEIA NESTE BLOG

> O íncubo – Íncubos eram demônios que invadiam o sono das mulheres para copular com elas – uma difundida crença medieval. Mas… e se ainda existirem?

> Lolita, Lolita – Ela é uma garotinha encantadora. E eu poderia ser seu pai. Mas não sou…

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> O mistério da cearense pornô da California – Uma artista linda e gostosa, intelectual e transgressora, que adora perversões e, entre uma e outra orgia, luta pela liberação feminina

> O mistério da morena turbinada – Aí um dia ela, inocentemente, leva o computador numa loja pra consertar. Algum tempo depois dezenas de fotos suas estão na rede, inclusive fotos íntimas

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01- Caro primo, Nunca vi tão bem “retratado”, apesar de escrito, nossas noitadas no antigo mirante. Recordei ao ler, várias passagens inusitadas e até folclóricas que aconteceram por lá. Ai também vêm lembranças de outros lugares como o antigo “Rasgo de Lua”, “Ponto de luz” (que ainda resiste ao tempo), Tinha um ali na Rui barbosa que não me lembro o nome. Era quase na esquina da Torres Câmara, “tinha um andar de cima ao ar livre bem legal e reservado”. Para não falar do “Canto verde”, “Madelon” e outros que permearam a nossa juventude. Sinto saudades de um passado muito bem vivivo por nós e por vários amigos. Será que estamos ficando velhos? Carlos Marcos Severo de Oliveira, Fortaleza-CE – dez2004

02- Rica, você é um homem de muitas histórias… E continua paradoxal. Bjs. Lêka, Fortaleza-CE – dez2004

03- espetacular. Tonico Caminha, São Paulo-SP – dez2004

04- Oi Rika!!!! Que saudade…. saudade de você, saudade do Morro de Santa Terezinha, saudade de ouvir Pink Floyd, um violãozinho com os amigos…. Ler a sua crônica me fez relembrar exatamente tudo isso que você descreveu, tudo isso que eu também tive a sorte de viver… Parabéns, Rika! Amei… muito bem escrito, como sempre!!! E o natal, vai passar aqui? Precisamos nos ver,hein? Se vier, nos avisa,tá? Beijos…. Anabela Alcântara, Fortaleza-CE – dez2004

05- Putz!!! voltei no tempo. Otros abrazos. Roberto Maciel, Fortaleza-CE – dez2004

06- Lindo, adorei! Clícia Karine, Crateús-CE – dez2004

07- Eh Ricardo, essa deu saudade mesmo! Bons tempos aquele do Mirante – anos 80. Valeu a leitura. Abraços. Mauro Sérgio, Fortaleza-CE – dez2004

08- Kelmer, meu amigo querido… você me redimiu! Fiquei maravilhado! Obrigado por esta crônica, ela me resgata a antiga Fortaleza. Abraço e tudo de bom. Ronald de Paula, Fortaleza-CE – dez2004

09- Caro Ricardo, Saudade… do mirante, do morro, de 1984, dos seios. Com todo res”peito”, Eu preciso dum seio assim, mágico!?. Surgiu como? Me explique… Eli Miranda, Fortaleza-CE – dez2004

10- vi uma cronica sua sobre o morro do Mirante….achei-a linda! Como voce, tambem na minha juventude costumava ir àquele lugar olhar a lua e beber uns copos com os amigos….tambe dei muitos “amassos” nos meus gatinhos, amores que pensava durariam uma eternidade mas depois de 1 semana era passado(coisas da vida) bem, lhe escrevi apenas para agredece-lo pela bela recordaçao e dizer-lhe que suas palavras me fizeram retornar ao tempo e me fez bem, a cidade cresceu e mudou muito, o morro ficou perigoso ,as ainda me arrisco a frequentar o restaurante do Osmar e comer uma bela lagosta…sempre que vou ali lembro das minhas aventuras, uma patricinha que adorava se apaixonar por caras “perigosos”….tempos bons! Tenha um otimo dia e mais uma vez obrigada. Cacia Linhares, Fortaleza-CE – dez2004

11- Tb tive um morro durante minha adolescência…íamos todas as sextas feiras…ouvir os amigos tocando violão, os beijos e amassos também decoravam o ambiente ;em noite de lua cheia, a beleza era completa pois do alto víamos além da bela lua olhando aqui em baixo para nós; podíamos contemplá-la …através de sua imagem espelhada nas águas do Rio Tocantins…quantas lembranças!!!! lembranças maravilhosas “seu” morro trouxe do “meu morro”…Por favor nunca pare de escrever sua palavras resgatam minha alma…e me tornam mais sensível…que poder vc tem! morei em Tucuruí no interior do Pará durante a construção de barragem hidrelétrica, foi a melhor fase deminha vida…bjs… Diva, Macapá-AP – abr2007

12- Parabéns pelo texto DOIS MORROS, ele é de uma beleza e singularidade fantástica. Li com muito cuidado para encontrar as suas nuances de poesia e de realidade. Confesso ter achado simplismente belo, real, nu e cru, porém belo. P.S.: A partir desta descoberta prometo procurar outros textos teus para que através dele venha deliciar-me com tuas letras e com teu estilo. FS Garcia, Fortaleza-CE – ago2008

13- Oi, Ricardo. Tô sem net em casa , mas vim numa lan so pra te falar umas coisas…. Desde ontem eu tava toda depre( nao sei por que/ na verdade, sei, mas nao vou falar aqui…rsrsrsr), acordei e tirei o “vocês Terráqueas” da estante e fui ver os textos que ainda nao havia lido….Fiquei encantada com aquele que você fala do mirante…. poxa! quanta sensibilidade e romantismo… queria ter uns 15 anos a mais e ser aquela menina….  nao lembro quanto paguei nesse livro, mas valeu a pena!!!! Irlane Alves, Fortaleza-CE – jul2011

14- Confesso que li e me apaixonei no ato! Rosângela Aguiar, Fortaleza-CE – ago2011

15- Morro dos Mamilos!!!rsrsrs. Hotojunior Hoto, Fortaleza-CE – jan2013

16- Eita, o velho Morro do Mirante, vc me relembrar a comemoração do meu primeiro mês de namoro com a mulher q está casada comigo a 23 anos e que nós namoramos 04 anos. Lembro da felicidade vivida em cada subida e da paz que sentíamos estando a ima da cidade. Lembro da tia e das conversas regadas a muita birita.. Amigo, como é bom voltar no tempo através de palavras que nos fazem flutuar nas emoções. Obrigado por suas palavras me fazerem relembrar dos prazer de se divertir solado de grandes amigos com vc, Paulo Márcio, Nelsinho, Valmir, Amaury e outros tantos .. Não acho q estamos velhos, apenas o passado correu demais… Paulo Helmut B Simões, Fortaleza-CE – jan2013



Iassim vamos – Alberico Rodrigues

setembro 26, 2009

Ricardo Kelmer 2009

EleLetraCaminha-01Conheci o Espaço Cultural Alberico Rodrigues em jul2009. Fica em Pinheiros, vizinho à praça Benedito Calixto. O espaço é uma concretização dos sonhos e ideais de seu proprietário, o professor Alberico, ou Alberix, como eu gosto de chamá-lo. Após sair do interior da Bahia e rodar mundo estudando e dando aulas de literatura, Alberix entendeu que deveria por sua experiência a serviço da cultura de seu país. Foi com esse nobre ideal que em 1988 ele montou seu espaço, que hoje é referência cultural na capital paulista.

Cheguei por lá atraído pelo canto das sereias, acho que as mesmas que me atraíram quando pequeno e me levaram a ser escritor. Entrei e logo gostei do que vi: uma livraria de livros novos e usados, mais à frente uma loja de CDs e DVDs e aos fundos um café-bar. No primeiro andar um teatro de bolso para 60 pessoas. E uma deliciosa área externa onde se pode sentar à mesa e comer e beber com os amigos e ficar olhando o movimento da praça em frente, honrosamente acompanhado dos bustos de Machado e Camões. Diliça.

Pra minha sorte, Alberix gostou de mim e do meu trabalho. E recebeu de braços abertos as minhas kelmerices. Foi lá, por exemplo, em agosto, que estreamos o Viniciarte, espetáculo que criei sobre Vinicius de Moraes e que foi o primeiro evento realizado pelo meu projeto Letra de Bar. Aliás, o Viniciarte seguirá lá em cartaz uma vez por mês. E foi lá também que, em setembro, lancei meu livro Vocês Terráqueas, que, pra minha honra, Alberix gostou bastante e logo pôs à venda na livraria. Valeu, Alberix. Acho que juntos poderemos fazer muitas coisas boas.AlbericoRodrigues-01b

Sobre o Vocês Terráqueas, ainda farei lançamentos em outros bares, dentro do projeto Letra de Bar. E sobre o Viniciarte, Celia Terpins segue vendendo-o pra empresas, clubes e hotéis. Ela gostou muito do espetáculo e acredita que podemos até viajar com ele por outras cidades. Então, se você curte Vinicius de Moraes, quital levar o espetáculo pra sua cidade, hum? Aproveita que o precinho tá bom.

E sobre o Letra de Bar, em outubro será lançado o primeiro número da revista impressa, que terá edições bimestrais e será distribuída gratuitamente no circuito boêmio-cultural da cidade de São Paulo. O projeto divulgará o que estiver relacionado ao mundo dos livros: novos autores, livrarias, editoras, gráficas, empresas e profissionais da área e também filmes e espetáculos baseados em livros, além de entrevistas.

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Corta pro apê da Paulete. Paulete Hetê. Ela prepara aquele capuccino que só ela sabe fazer enquanto eu, no noutibuk dela, reviso o roteiro do Viniciarte. Em algum lugar toca um blues. Paulete me serve o capuccino e depois vai fazer alongamento na sala. Seu corpo nu se integra à paisagem da pauliceia lá fora na janela. Ou será o contrário?

– Pô, Paulete, assim eu não consigo trabalhar.

– Vinicius conseguia.

– Eu não sou Vinicius.

– Não é mas tá cada vez mais vivendo como ele. Amores, literatura, música, poesia, bares, viagens…

– Pensando bem, é verdade.

– E ainda monta um espetáculo sobre ele.

– O poetinha sempre foi meu guia, você sabe.

– Você também deixará de ser escritor pra ser artista?

– Sempre fui as duas coisas. Não pode?

– Escritor e artista. E agora produtor cultural. E editor de jornal. E palestrante. E professor de roteiro. Que horas você vai escrever livro?PauleteHete-106a

– Posso escrever antes de dormir.

– Você nem dorme mais. Já viu como tá tua cara? Vai assustar as leitorinhas.

– Em breve eu diminuo o ritmo de trabalho e…

– Ahahahah! Comigo ninguém diminui o ritmo, Rica querido. Você entrou na pista, agora tem que correr senão é atropelado.

– Não quero correr. Quero celebrar.

– Um Vinicius cearense pra eu sustentar. Eu mereço.

– Agora pára de me exibir a bunda que eu tenho que trabalhar, vai.

– Que o poetinha não escute essa heresia.

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Iassim vamos – Bar de Ontem

junho 22, 2009

Ricardo Kelmer 2009

Um barzinho legal em Pinheiros. E Paulete de calcinha e camiseta

EleLetraCaminha-01Conheci o Bar de Ontem através de Marcello e Diego, que me convidaram pra ir ao Sarau de Ontem, que ambos estavam começando a produzir e que rolaria quinzenalmente aos domingos lá, nesse tal de Bar de Ontem.

Ops, um sarau. Eu gosto de sarau, principalmente quando não é formal e careta. Aquela coisa de literatura misturada com música, teatro, dança, todos participando, aquele clima de suruba artística, acho muito gostoso. Falando nisso, nessa última temporada em Fortaleza criei o Bordel Poesia, um sarau mensal cujos temas são paixão e erotismo. Minha amiga Paola Benevides ficou como produtora do evento, junto com a Linda Mascarenhas. Vida longa ao Bordel Poesia.

Poisbem, o Sarau de Ontem. Fui e gostei. Funciona no mezanino do Bar de Ontem, que fica ali em Pinheiros, na Cardeal Arcoverde, entre Fradique e Mourato. Quem foi comigo foi o Moacir Bedê, mais conhecido no submundo do crime desorganizado como Zé di Bedis, junto com Sofia Binoche, Gabriel Barruan e Magnata. Foi divertido, conhecemos gente bacana e eu desenterrei uns poemas do Bandeira do fundo empoeirado do meu passado recitador. E o Zé di Bedis, quando perdeu a vergonha, interpretou Listen, a obra-prima do seu cancioneiro sem-noção. Ninguém entendeu nada, é claro, mas riram bastante.

E eu, depois que me animei, puxei da mochila o Vocês Terráqueas e li Queremos mulher carnuda. Como sempre, aplausos e calorosas manifestações de apoio à Samuca (Sociedade Amparadora da Mulher Carnuda). E no fim li Loiras ou morenas, com acompanhamento musical do Marcello. Acho que gostaram pois acabei vendendo dois livros, ô maravirilha.

Lu e Gilson são os donos do bar, casal ótimo, simples e a fim de fazer do lugar um reduto artístico, com o apoio dos filhos Ciça e Edu. Que bom. Gostei deles, do ambiente descontraído da casa e dos preços que se não empolgam, também não assustam – tanto que voltei lá na semana seguinte, depois voltei no sarau, depois outra vez… Ufa, eu realmente tava carecendo de ser adotado por um bar aqui na Pauliceia. E tem mais, acabamos fechando uma parceria: o Bar de Ontem é o primeiro a integrar o circuito do Letra de Bar (letradebar.wordpress.com), meu projeto literário que estreia em agosto. E em breve farei uma noite de autógrafos lá, você já tá convidado.

Corta pra cozinha da Paulete. Ela fazendo um capuccino. Só de calcinha e camiseta (comprada na feirinha da Benedito Calixto). Como que ela sabe que eu adoro mulher de calcinha e camiseta? E, putz, como ela descobriu que adoro as frequentadoras da Benedito Calixto?

– Um barzinho legal e um sarau pro meu escritor ler seus textos maluquinhos. Gostou do presente?

– Você é demais.

– E, de quebra, duas novas leitoras.

– Assim eu me apaixono.

– Foi o que a cigana disse.

Visto um agasalho, hoje tá frio. Em algum lugar toca um blues. Engraçado, nunca sei de onde vem mas sempre toca um blues.

– Treze graus, Paulete, e você de calcinha. Comé que pode?

– É o teu tesão que me veste assim, ainda não sacou? Quando ele acabar, você me verá diferente.

– Meu tesão por você não vai acabar.

– Mas vai se transformar, como tudo, seu moço. Você, por exemplo, não é mais aquele que me apareceu três anos atrás, tão perdido, coitado, fugindo de um Rio de Janeiro que não te curtiu.

– Você também não me deu bola.

– Claro. Vocês artistas e escritores precisam primeiro provar que me merecem. Por que eu te trataria diferente dos tantos outros que me procuram? Só porque você é um pobre coitado ingênuo e romântico?

– Eu?

– E que nessa altura do campeonato, o mundo se acabando, ainda insiste em ver tudo pelo olho da poesia.

– Eu??

– Mas eu gosto. Sem isso você não me veria assim, de calcinha e camiseta, toda poética nesse frio.

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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Inculta e bela, dengosa e cruel

junho 16, 2009

Ricardo Kelmer 2004

Então arrumei de novo a mochila, me despedi com muitos beijos, seu hálito de vodca me soprando toda a sorte do mundo, eu barquinho de papel rio abaixo, louco para ir, doido para ficar

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O plano era ficar em Fortaleza um ou dois anos, descansar, rever amigos e família, escrever o novo livro sossegado. Depois pegar a estrada novamente. Mas Fortaleza tem pernas lindas, não sei se você já percebeu, e mais uma vez a danada me enfeitiçou, me envolveu. Isso dá um samba apaixonado, né? Tanto dá que acabei ficando. Sete anos de um romance daqueles: quanto mais briga, mais prazer no enredo da paixão.

Fortaleza tem um corpinho generoso, taberna sem hora para fechar. Muito nos divertimos, eu e ela por aí, miando nos telhados. Depois da festa eu me esquecia em seu colo e adormecia sorrindo. Mas sempre despertava assustado no meio da noite, o horizonte sussurrando meu nome… Eu sou da estrada, ela sempre soube, a poeira do meu casaco ela nunca conseguiu tirar. É no horizonte ali na frente que os meus sonhos reluzem, eu nunca escondi. Então arrumei de novo a mochila, me despedi com muitos beijos, seu hálito de vodca me soprando toda a sorte do mundo, eu barquinho de papel rio abaixo, louco para ir, doido para ficar.

Ah, o desafio de ser escritor num país de não-leitores… Um desatino, claro, coisa de quem não tem juízo. Mas fazer o quê se me excita isso de estar no mundo por um fio, se me seduzem as curvas incertas do mundo? Imperdoável é morrer sem tentar.

Já se passaram alguns meses. Queria saber como ela está. Quem sabe falando de mim, Fortaleza resolva ligar. Então esta singela cartinha escrevi. Alguém, quem sabe você, a encontrará por aí e dirá: ele escreveu, está bem, ancorou em Botafogo, é o abraço do Cristo que o acorda de manhã. Mora sozinho, faz sua comida, escuta o disco da Kátia, saudade de todos. Trabalha com roteiro de cinema e TV, finaliza o livro novo. E gosta de pegar a última sessão do Espaço Unibanco, é pertinho, vai a pé, achando graça dos bêbados nos botequins.

Diga para ela que tenho saudade, claro que sim. Dos amigos para toda obra, dos bares tão familiares, a noite dengosa. As coisas engraçadas que ela diz, a comidinha que só ela faz. Eu olho as modernidades daqui e lembro de seu jeito brejeiro, o falso verniz cosmopolita, o sotaque que ela tenta esconder nos letreiros em inglês. Fortaleza é uma menina deslumbrada, lindamente incoerente: de segunda a sábado importa modernices e no domingo veste a roupa melhor que tem.

Mas toda linda menina é sádica. Ela brinca de morder e soprar com seus artistas. Eu lembro deles e chego a achar poético o eterno sufoco, a patética dificuldade de voar. Quase acho belo a pouca sorte, o ar cultural rarefeito, a arte com falta de ar… Mas então lembro de mim mesmo, suando na aridez dos dias claros, tão sádicos de sol, tanto sol na vista e nada em vista, nada que invista. Não, não é poético. Não é belo engravidar de uma ideia, parir com esmero, embalar o sonho, criar projetos e ver a prole chorar na barra do vestido, a vida passando e a arte com fome, a vida com fome de arte, vida e arte sem ter o que comer.

Ela não gosta que eu fale assim. Mas é a verdade, seu amor verdadeiro é para forasteiro. Ela se magoa, faz contas, lista desculpas. Eu digo que é desculpa de quem não quer, de novo a velha discussão. Ela desconversa, me chama para sair, se esbaldar nos forró-tais da vida. Obrigado, meu amor, mas esta noite preciso ficar só, tenho uma decisão a tomar. Ela pressente e diz que sou igual a todos que se foram, por isso é que a esses ingratos não lhe interessa agradar. E sai, batendo a porta. Para dias depois voltar, as pernas no vestidinho preto, ai, ai, tirando agradinhos da sacola: uma livraria nova, um espetáculo diferente, festival na serra, bienal. E eu, que só quero um pretexto para ficar, sorrio deliciado e outra vez esqueço de ir…

Ela já sabe mas, só para finalizar, diga que não guardo mágoas, sei que tudo é difícil. Mas lamento. É pena que no dia seguinte seus amantes tenham de ir, levando sua arte, empobrecendo a paisagem. Se ela não os sufocasse tanto, quem sabe ficariam, tudo seria diferente… Mas deixa, não precisa falar. Amar é aceitar, não é assim que se diz? Então tá. Aceito Fortaleza como é, inculta e bela, dengosa e cruel. E ela aceita minha fome de horizontes. E prometemos nos respeitar, na alegria e na tristeza. E assim vamos levando nosso amor, brindando às noites maravilhosas que vivemos e ao belo futuro que jamais nos pudemos dar. Tim-tim!

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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Este e outros textos você encontra no livro Blues da Vida Crônica

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> Inculta e bela, dengosa e cruel – Então arrumei de novo a mochila, me despedi com muitos beijos, seu hálito de vodca me soprando toda a sorte do mundo, eu barquinho de papel rio abaixo, louco para ir, doido para ficar

> Maior que meu horizonte (Por Wanessa) – E quando eu penso que ele já está de novo envolvido em meus contornos, hipnotizado pelo balanço dos meus quadris e minha maré, ele foge

> Essa loirinha desmiolada de sol – Duvido que ela tenha uma marquinha de biquíni assim – a loirinha insiste, com a graciosidade tristonha das cidades que sabem que seus argumentos são ótimos mas que não vão adiantar

> Postagens nos temas “biográfico” e “Fortaleza”

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01- Você a cada dia está melhor. Ler tuas crônicas é alimento, numa cidade que nada diz. Resta-nos somente apreciar a Luizianne na TV como alento e desejar que o Moroni não seja nossa próxima programação. Que bom que o teremos mais perto nos diários do povo. Quem sabe assim consigamos nos realegrar com sua poesia e sorriso. Saudades de você meu caro. Ricardo Black, Fortaleza-CE – out2004

02- Grande morador da Eduardo Guinle, Muito boa essa crônica, como afinal são todas as suas. Fortaleza já disse se gostou ou não?… Waldemar Falcão, Rio de Janeiro-RJ – out2004

03- Prezado Ricardo Kelmer, digo, prezado, tanto pela formalidade, quanto pelo prazer que tive ao ler a sua crônica-carta, publicada no jornal O Povo, de 09 de outubro. Eu, que sou fortalezense desde o começo, sinto coisas muito parecidas, quando baixa o tédio por falta de outros horizontes de cultura e profissão. Já tentei partir várias vezes e volto sempre: pela beleza do mar, do céu azul, do sol dourado; pelo clima agradável, caminhadas na praia, amizades boas, familiaridade dos lugares, informalidade dos bares, sei lá o que mais…. Você tem razão, é se fazendo dengosa que ela esconde o lado inculto e cruel: com um jeitinho meio bobo, matuto mesmo, vai fazendo você de besta; sorri alegre e vai lhe enfiando a faca, lhe tirando o tapete dos pés, oferendo o melhor para os amigos e familiares, envenenada de inveja do sucesso alheio, fechando portas como quem convida para uma festa. É dançando forró que Fortaleza vai lhe dando um traço. Estou fazendo novamente as malas e já sentindo saudade. Pode??? Parabéns pela crônica! Acho que você pisou no rabo da cobra. Juraci Maia, Fortaleza-CE – out2004

04- Oi Ricardo, Muito boa, a crônica. Adorei! Mas acho que vai tocar sempre quem “mora” em Fortaleza e por algum motivo tem que estar fora. Melhor ainda foi saber que você mora só, acorda com o Cristo, ouve música e vai ao cinema. Sinal que está bem, em? Você estará em Fortaleza no natal? Eu e o Valmir iremos … Aqui tudo bem. Estivemos em Paris semana passada e encontramos com Valdo e Paulinha. Nada das farras de antigamente, porque agora eles estão com uma filhinha e tudo mudou. Beijo grande Liliana Costa, Lisboa-Portugal – out2004

05- Vejo que a distância e a saudade te fez escrever melhor ainda. A “croniquinha” está bela e verdadeira. Bela porque trágica, verdadeira porque cômica. Comer o quê? Precisa ter fome de algo. Esta fome existe por aqui também, as pessoas é que não sabem ainda o que seria uma boa e saborosa refeição. É questão de gosto, educação e oportunidade. Tem quem tem, não é nem quem pode, porque muitas vezes quem pode tem é menos ainda. Bem, que se fodam os outros, penso eu que apenas consumo arte. Para quem faz é um pouco diferente. Abraço e parabéns pelos sonhos. Do amigo, Ronald de Paula, Fortaleza-CE – out2004

06- É meu amigo, corajoso é você que consegue ficar longe de Fortaleza, mesmo com o coração doído. Temos saudades. Um abraço. Claudio Roberto, Fortaleza-CE – out2004

07- Ricardo, deliciei-me com cada palavra que voce escreveu. Vi-me refletido na tela do computador e em cada expressao de amor e saudade que voce desenhou com suas maos de poeta. Aqui, milhares de quilometros distantes – que podem ser traduzidos em dois dias de viagens de aviao – a presenca ausente dessa nossa namorada partilhada e ainda maior. Lembro-me do Fagner que dizia ter necessidade de voltar a Fortaleza pelo menos uma vez por ano para se reenergizar. Quando ouvi aquilo a primeira vez pareceu-me coisa de artista. Hoje sinto exatamente a mesma coisa. Tenho falta de Fortaleza (e do Ceara) como se fosse parte de mim – apesar de nao ter nascido la (que esta aqui dentro de mim). Assim, ela nao e minha mae. E minha namorada. Eu a conquistei e fui conquistado por ela. Tin-tim pelo texto e pelas palavras que transmitem o que tambem sinto. José Paulo de Araújo, Filipinas – out2004

08- Adorei o texto, saudades … Bj Liége Xavier, Fortaleza-CE – out2004

09- Porra Ricardo, adorei esta tua crônica. Com licença, mas repassei a alguns amigos exportados. Um abração e boa sorte sempre. Crisóstomo Frota, Fortaleza-CE – out2004

010- KELMER li também essa no jornal o povo. me emocionei com essa cronica. falei pros amigos no sábado à noite no bar do papai e recomendei a leitura. um grande abraço! Ciribá Soares, Fortaleza-CE – out2004

11- Eis eu aqui pensando que tive uma dia otimo, na chegada do outono, as folhas em tons de laranja, vermelho, amarelo. Chego em casa, abro o e-mail e sua cronica poe meu coracao num aperto de doer, de saudade, de Fortaleza, de mim, dos amigos, de voce. Queria eu escrever assim e deixar que as palavras confortem e aceitem o que nao pode ser negado, que o destino que escolhemos nos levam para longe de Fortaleza, lugar inexplicavel porque gera dentro da gente uma paixao sem medidas, insubstituivel e que para onde sempre retornaremos, mesmo que os nossos barcos deem a volta ao mundo. Muitas saudades e obrigada…. Fabiana Vasconcelos, Boston-EUA – out2004

12- Achei linda a crônica. Já havia lido. Aliás, estou concluindo minha especialização sobre crônica e concorrendo ao mestrado de literatura tbm sobre crônica em 2005 (Rubem Braga). Gostei muito de ler como essa amante ingrata trata seus talentos e recebe os externos. A má e bela criatura está quase me fazendo desistir dos seus encantos e dos dois únicos bares que freqüento. Mande notícias do mundo de lá… Beijos. Ana Karla Dubiela, Fortaleza-CE – out2004

13- Ei amigo, Surpreso fiquei em saber que vc. não está morando em Fortaleza. O que a vida nos faz ! Sua crônica é “demais”, até fiquei com saudades, não sei se de Fortaleza ou de você, com seus pensamentos tranquilos e aquela habilidade sinucal. Quem sabe vc. não encontra um parceiro, nesses bares famosos do Rio e joga algumas partidinhas. Espero que tudo esteja legal com vc., gosto muito de receber seus e-mails e desejo toda a SORTE do mundo. Fortaleza tem braços longos e está te abraçando daqui. Forte abraço. Claudio Angelim, Fortaleza-CE – out2004

014- ola! Querido Ricardo Foi uma surpresa enorme receber sua cronica, fiquei feliz tao feliz que espero receber outras, e bom saber que nao esqueceu de mim dentro tantos amigos antigos, e eu hoje me considero tb uma amiga de verdade… e muito proxima.. espero que venha volte aqui e possamos nos encontar assim no caso como naquele dia da Plaza, que tenha todo o sucesso no Rio… e seja muito feliz mil bjos. Teresa Lia, Fortaleza-CE – out2004

15- Inculta e bela, dengosa e cruel, uma das mais belas páginas q já li. Guardarei para netos. Parabéns… Aládia, Fortaleza-CE – abr2005

16- Linda essa homenagem…! Pior é que Fortaleza é isso mesmo: aquela primeira pinga (vodka, vinho, champagne) que se quer evitar, mas depois que experimenta, sempre volta prá bicar. É o velho dilema, ficar no colinho de mamãe ou ganhar o mundo! Lucilene Anderson, Brasília-DF – abr2005

17 – Oi Ricardo, Adorei essa crônica sobre Fortaleza, pois moro aqui a muito tempo e nunca parei para ver minha cidade dessa forma. Já fui morar em Recife, não gostei a saudade era muita e acabei voltando. Foi como se Fortaleza guiasse minha vida. Parabéns adorei. Estou amam Você. Cacilda Luna, Fortaleza-CE – jun2005

18- Meu velho amigo, acabo de ler “Inculta e bela, dengosa e cruel”. Obrigado Ricardo, a emoçao q eu e a Sephira sentimos com essas suas letras foi muito intensa e verdadeira. Um grande abraço e espero de te encontrar de novo um dia, ou melhor uma noite, quem sabe nos bares de Fortaleza.” Daniele Schiavi, Verona, Itália – nov2009

19-  Gosto demais desse texto… Beijo! Dalu Menezes, Fortaleza-CE – abr2013

20- Nunca tinha lido nada que representasse nossa capital de maneira tão digna. Claro, isso foi até eu ler a poesia a lá Ricardo Kelmer *-* Herlene Santos, Fortaleza-CE – abr2013

21- Ain eu já tinha lido, e adoro esse texto. Não encontrei nenhuma outra crônica que ficasse à altura dessas palavras seduzentes do Kelmer, homenageando Fortaleza. Simplesmente lindo *u* Beijo Kelmer. Cynthia Martins, Fortaleza-CE – abr2013

22- O cara eh bom mesmo, parabens a Fortaleza e a vc, claro. Henrique Vilela Sales, Fortaleza-CE – abr2013

23- Adoro demais esse texto, muito significativo. Parabéens, Kelmer. Alana Gabriela, Fortaleza-CE – abr2013


Iassim vamos – Paulete, ai, Paulete

junho 10, 2009

Ricardo Kelmer 2009

Em três anos de São Paulo, somente agora começo a me sentir fazendo parte da cidade.

EleLetraCaminha-01Um mês. Um mês que voltei a São Paulo após a temporada nordestina de 9 meses. Os primeiros dias não foram fáceis, eu era o Homem Sem: sem quarto pra dormir, sem computador, sem internet e sem poder ligar no celular pois deu um problema com minha conta da Claro. Um mês sem poder trabalhar normalmente, me virando em lan houses e me irritando com os orelhões quebrados.

Agora as coisas estão se ajeitando. Comprei um noutibuk Acer e instalei um 3G da Oi, resolvi o problema do celular e tô no quarto que aluguei no bairro do Sumaré, a 10 minutos de caminhada do metrô. Morando aqui, finalmente tô pertinho das livrarias, cinemas, teatros e bares, como eu queria estar.

Putz, em três anos de São Paulo, somente agora começo a me sentir fazendo parte da cidade. Tomara que ela também queira fazer parte de mim. Será que quer?

Corta pra cozinha de um pequeno apartamento. Pela área de serviço ouve-se o som do trânsito lá fora. Paulete prepara um capuccino – só de calcinha. RK, sentado à mesa, em sua tradicional estampa matinal (despenteado e horrendo), aguarda a resposta, será que quer? Em algum lugar toca um blues.

- Claro que quero, seu bobo. Quero fazer parte de você e de todo escritor maluco que vem pra mim.

- E nessa cabecinha liberal aí não rola nem um ciuminho de Fortaleza?

- Não como ela tem de mim.

- Você realmente não se incomoda de me dividir com outras?

- Eu não. Você sempre volta pras minhas esquinas.

- Convencida.

- Na verdade tô é curiosa pra saber o que a loirinha desmiolada de sol tanto vê em você.

- Deve ser o meu jeitinho de dizer eu te amo…

- Que lindo!

- … enquanto tô dentro do rabo dela.

- Seu pornográfico. Também quero.

- Se der tempo…

- Como assim?

- A grana que tenho só dá pra três meses.

- Faz três anos que tua grana só dá pra três meses.

- É verdade…

- Vou te contar um segredo. Ontem eu fui na cigana. E ela me disse que você vai se apaixonar por mim.

- Sério? E o que você fará pra isso acontecer?ElaCidade-01a

- Vou te dar a vida que você pediu: literatura, música, cinema, teatro, bares aconchegantes…

- Demorou, né?

- Vou te arrumar uma boa editora e muita palestra pra você fazer.

- Jura?

- E uma namorada linda e indecente, que vai adorar ver os gols da rodada contigo embaixo do edredom.

- Ai, Paulete, assim eu me apaixono…

- Com açúcar ou adoçante?

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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Tchau, Fortaleza…

abril 29, 2009

rk200904despedidafortaleza01b.

A turnê nordestina 2008/2009 chega ao fim. Volto pra São Paulo no dia 06 de maio. E já chego na cidade procurando lugar pra morar pois terei que entregar o quarto que eu aluguei no Sumaré. Mudanças, mudanças, sempre elas.

Mas a turnê foi maravilhosa: muitas palestras, lançamentos, viagens, novos amigos. Deixarei na cidade duas festas (Cabaré Soçaite e Sabadabadu, no Acervo Imaginário) e dois eventos literários: o Letras de Bar (toda quinta no Bar do Papai) e o Bordel Poesia (sarau mensal no Acervo Imaginário).

E a despedida de Fortaleza, a loirinha desmiolada de sol? Farei duas: a primeira será na véspera de feriado, quinta-feira 30abr, no Bar do Papai. O bar fica na Aldeota, rua Torres Câmara esquina com rua Mons. Bruno.

E a segunda será no próximo sábado 02mai, na festa Sabadabadu (2a edição). Uma noite com muita música boa pra dançar e com a participação de todos os amigos que quiserem mostrar um pouco de seu trabalho (música, dança, teatro ou humor). Se você tiver interesse em se apresentar, a gente combina. Até meia-noite a entrada é liberada pra quem disser que é meu amigo, eheheh… A partir de meia-noite custa R$ 10, com direito a companhante.

Ah! Caso alguém se interesse, estarei nas despedidas com meu novo livro, Vocês Terráqueas.

E se eu não puder agradecer pessoalmente, muito obrigado a todos pelo amor, carinho e incentivo. Obrigado ao apoio da Expressão Gráfica, Garin Cópias e Luce Galvão de Sá Arquitetura. Espero voltar em breve a esta cidade dengosa.

abração!

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SABADABADU
02mai, sábado, 22h

No Acervo Imaginário
Rua José Avelino, 226 – Praia de Iracema – Fortaleza-CE
3221.4894, 8603.0690
sabadabadu200904cartaz01a

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Crimes de paixão

novembro 15, 2008

Detetive investiga estranhos crimes envolvendo personagens típicos da boêmia Praia de Iracema e descobre que alguém pretende matar a noite.

Terror, mistério, erotismo.

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(Este conto integra o livro Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos)

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CRIMES DE PAIXÃO
Ricardo Kelmer 1994

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TODOS OS FREQUENTADORES do Quais Bar pararam surpresos quando chegaram no sábado e descobriram que o Olimar não aparecera para trabalhar. Afinal de contas, além de se tratar do garçom mais folclórico do boemíssimo bairro da Praia de Iracema, ele era conhecido por Penalidade, alcunha que lhe botaram os clientes por ter faltado ao trabalho uma única vez em vinte anos de profissão – justamente por ter, no dia, defendido de forma magistral uma penalidade máxima na final da Liga de Futebol do Quintino Cunha. A comemoração foi tamanha que à noite não teve condições de trabalhar. Olimar, o Penalidade.

E agora o homem faltava pela segunda vez. Era um acontecimento quase tão histórico quanto o da primeira. Gente se gabava de ter estado no bar na noite em que o Penalidade faltara. Roger Gaciano Jr., o renomado jornalista e frequentador da praia, procurando alguém para ilustrar sua matéria sobre a boemia do bairro, entrevistou quem? O garçom Penalidade, claro. E a entrevista até hoje está lá na parede do bar, plastificada para todo mundo ler.

– O Olimar não veio trabalhar?! Será que defendeu outro pênalti?

– Proponho realizarmos uma assembleia pra mudar seu nome pra Dupla Penalidade…

Especulações correram soltas por toda a noite. Apostas foram abertas, um mês de birita grátis para quem acertasse o motivo da segunda falta do Olimar. Tão carismático o homem que até mesmo sua ausência era uma festa.

Porém, no domingo à noitinha, quando a mulher do Olimar chegou ao bar perguntando pelo marido, começou-se a desconfiar de algo mais sério. Dona Cândida, aflita, menino novo no braço, dizia que ele saíra sábado à tarde e desde então não teve mais notícia. Carlitos, dono do Quais Bar, sensibilizado com a aflição da mulher, propôs organizarem uma comissão para ir atrás de notícia do seu melhor garçom. Dona Cândida não se preocupasse, fosse para casa, ele mandaria um táxi deixá-la e logo estaria tudo bem, o Olimar ia aparecer.

O mistério continuou até segunda pela manhã quando o corpo do garçom Penalidade deu à praia da Barra, já em decomposição. O laudo apontaria afogamento. Ele não sabia nadar, portanto jamais se arriscaria no mar. E o mais esquisito é que estava de roupa – teria caído do píer? Dinheiro e documentos no bolso. No corpo marca nenhuma de violência. O que poderia ter acontecido?

Penalidade foi enterrado no fim da tarde. Consternação geral. Quase todos os seus clientes se fizeram presentes, inclusive os ocasionais e até mesmo os que lhe deviam e ultimamente evitavam aparecer. A viúva recebeu ofertas de auxílio e pôde constatar como era querido o finado. Um turbilhão de flores acompanhou a descida do caixão e alguém puxou um violão para cantar Beira-Mar, de Ednardo, música favorita do Olimar.

No meio do chororô ninguém escutou o Jeová, vulgo Profeta, de dentro de seu casacão preto que havia muito não via sabão, dizer com seu jeito grave e o olhar fixo no caixão que descia:

– Lá se vai o segundo mártir.

Ou se alguém escutou, fez que não ouviu. Já não era fácil aguentar o Profeta nos bares com seus discursos sobre profecias apocalípticas, imagine em enterro.

– Mas o fim não se fez. Ainda restam três…

Apesar de muitos evitarem tocar no assunto, por uma lua inteira não se falou de outra coisa nas mesas dos bares da Praia de Iracema. Os mais inconformados fizeram abstinência etílica de três dias in memoriam. Outros beberam sem parar durante três dias.

Entretanto, ninguém, ninguém se deteve a relacionar a morte do garçom Penalidade com outra ocorrida três meses antes no Le Bombom, um motelzinho humilde frequentado pelas putinhas e travecas de fim de noite. A vítima fora seo Neném, dono do estabelecimento, gentil e pacato senhor de idade. Foi encontrado morto num dos quartos, estirado na cama. Estava nu e com a boca entupida com papel de bombons finos, coisa mais desumana.

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O DETETIVE ELÁDIO VIEIRA, como gosta de ser chamado (porém inapelavelmente conhecido no submundo do crime por Eládio Ratoeira), 38 de idade e 40 de baralho, que sempre se gabou de ser um detetive de nível, acordou naquela manhã numa ressaca federal. Não dormira mais que duas horas. Tomou um banho rápido e pegou um táxi para a favela Verdes Mares. Daquela vez exageraram: o pôquer terminara às seis da manhã. E ainda pagou o equivalente a um mês de trabalho ao filho-duma-égua sortudo do Mardônio.

O detetive Eládio Ratoeira (ele que nos desculpe mas certos apelidos já fazem parte da pessoa) nunca trabalhava nas manhãs de quarta-feira. Naqueles anos todos nenhum caso foi tão importante que justificasse sua falta ao velho pôquer das terças nem ao sagrado sono da manhã seguinte. Porém, ele conhecia dona Iza, a cigarreira, era seu cliente fazia tempo. E não teve como não se sentir abalado quando soube pelo telefone de sua morte naquela madrugada.

Quando terminou de fazer suas perguntas a vizinhos, parentes e amigos da vítima, o detetive Ratoeira rumou para seu escritório, no centro da cidade. Sentado em sua mesa com vista para a Catedral, comparou as informações que tinha e montou sua reconstituição. Dona Iza chega em casa, um pequeno barraco de madeira na favela Verdes Mares, aproximadamente às quatro da manhã. Vem da Praia de Iracema, onde trabalha como vendedora ambulante de balas e cigarros. Meia hora depois o marido sai para a fábrica, deixando mulher e filho no barraco. As primeiras chamas são avistadas logo depois por três homens que jogam sinuca num bar distante cinquenta metros. Socorrem o menino que dormia e retiram o corpo de dona Iza, já carbonizado, que jaz no chão da cozinha.

Ninguém da favela viu nada suspeito, nenhum fato estranho. Apesar de tudo indicar acidente, Ratoeira coçava a nuca sem entender por qual motivo a vítima não conseguira sair do pequeno barraco a tempo.

À noite foi à Praia de Iracema. Escutou garçons, taxistas e vendedores ambulantes – todos unânimes em afirmar que se tratava de pessoa querida, simpática e generosa, não cultivava inimizade. Às onze fechou o caderninho e encerrou as atividades. Mas antes de ir para casa deu uma passadinha no Quais Bar, o bar do finado garçom Penalidade, só para molhar o bico numa cachacinha. Reconstituiu as conversas da noite, uma a uma. A mulher não devia a ninguém, não gostava de confusão, era fiel ao marido. Nem crime passional, nem latrocínio e nem vingança. Restava acidente.

Ratoeira coçou a nuca com a ponta do polegar. Alguma coisa lhe dizia que tinha cachorro naquele mato. E sua intuição nunca lhe pregava peças. Por isso lhe botaram o Ratoeira no nome. Por mais que se esforçasse, não conseguira tirar o apelido. Apelido ridículo, dizia ele, Ratoeira é para investigador de polícia, corrupto e camisa manchada de suor. Ele não, ele tinha nível. Trabalhava de detetive porque sempre gostara de investigar mas era formado em Engenharia. Dava aulas em cursinho pré-vestibular mas seu negócio era desvendar casos. Era tão bom no que fazia que muitas vezes a própria polícia lhe solicitava auxílio. Aliás, foram eles que lhe botaram o ingrato apelido: Eládio Vieira é nome de professor, diziam. Então ficou Ratoeira. Até algumas madames, sempre preocupadas com as saidinhas dos maridos, conheciam-no pelo apelido: Dessa vez eu tenho certeza que ele está me traindo, seo Ratoeira…

Então tomou um gole e olhou para o mar iluminado da Praia de Iracema, descansando a vista. Os vendedores disso e daquilo, os carrinhos de pipoca e as luzes fortes dos postes faziam aquela parte do bairro parecer um parque. Como o bairro pudera mudar tanto em tão pouco tempo? Alguns anos antes os bares eram meia dúzia e conviviam pacificamente com os moradores. Agora eram mais de cem e de pouco adiantavam os esforços da associação de moradores para garantir mais tranquilidade e respeito às famílias que ainda insistiam em morar ali.

De uns moradores, em depoimentos que recolhera, escutou repetidas queixas quanto ao inferno em que se transformara a vida no bairro. Alguns chegaram a dizer que a morte da vendedora podia ter sido fruto da luta por pontos de venda, já não duvidavam de mais nada, os bares haviam trazido muitas pessoas de fora e, com elas, a violência.

Ratoeira já fora assíduo frequentador do bairro e conhecia sua história. Sabia que procedia a queixa dos moradores. Mas sabia também que a vocação boêmia do bairro vinha de longe e a proliferação dos bares era algo difícil de ser controlado por envolver muitos aspectos, entre eles a geração de empregos e o turismo cada vez mais forte.

Ele praticamente deixara de frequentar o bairro depois da massificação. Antes podia-se caminhar pelas ruas à noite, tranquilamente. Podia-se namorar olhando o mar sem medo de assalto e os frequentadores conheciam-se uns aos outros e mantinham certa cordialidade para com os moradores. Era comum encontrar uma roda de violão na calçada. A boemia continha em si uma boa dose de poesia e amizade.

Mas agora não. Em lugar de músicos, artistas, poetas e intelectuais, a Praia de Iracema via desfilar por suas ruas bandos barulhentos de mauricinhos e patricinhas, jovens obcecados pela potência do som de seus carros e a etiqueta de suas roupas. Com eles vieram assaltos, roubos de carro, brigas nos bares, mortes. Traficantes de drogas e jovens brigões também descobriram o filão. Então vieram os turistas, ávidos por consumo. Depois chegaram as prostitutas, por que não haveria um pedaço também para elas? A Praia de Iracema é de todos! – dizia o slogan da campanha turística.

O detetive voltou para sua quitinete com muitos pensamentos e uma pulga atrás da orelha. Embora se esforçasse para não levá-lo a sério, não conseguia esquecer do Profeta, o maluco que encontrou no Quais Bar. Conhecia-o de vista dali dos bares. Era o mesmo bêbado cabeludo de vinte anos atrás, o mesmo casacão fedorento, a mania de rimar as frases, não mudara nada. Ele sentara-se à sua mesa sem pedir licença:

– Sua intuição está certa, seo detetive. O que aconteceu com dona Iza não foi acidente. Mas não adianta um culpado perseguir pois a profecia vai se cumprir.

Na hora não atinou para o fato mas depois sim: como é que ele podia saber a respeito de sua intuição se não falara dela para ninguém? Era só o que me faltava, pensou intrigado, um maluco lendo meus pensamentos. Bem, concluiu, virando-se na cama para dormir, até mesmo os malucos acertam uma de vez em quando…

Três dias depois o laudo do IML saiu com uma conclusão curiosa: não havia indícios de fumaça nos pulmões da vítima. Isso significava que ela morrera antes de começar o incêndio. Mas não concluía sobre a causa. Para isso seria preciso mais alguns dias.

Ratoeira coçou a nuca: quer dizer então que dona Iza já estava morta? Teria sido queda ou algo assim? Ou alguém a matara?

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– Ô GARÇOM, duas cachaças, por favor.

– A minha é dupla.

– Muito bem, seo Jeová. O que o senhor sabe a respeito da morte de dona Iza?

Jeová, vulgo Profeta, de dentro de seu velho e endurecido casacão preto, olhou para o homem à sua frente com um misto de simpatia e desdém.

– O que eu sei é o que está escrito, seo detetive…

Naquela noite, uma semana após a morte de dona Iza, Eládio Ratoeira reencontrara o Profeta pelas ruas da Praia de Iracema e o convidou-o a tomar um aperitivo, por sua conta. Talvez o maluco tivesse algo de interessante a contar, ele que vivia dia e noite a realidade do bairro. O diabo era ter de aguentar o fedor daquele casaco…

O garçom chegou com as bebidas. O Profeta tomou a sua cachaça de dois goles e então pôs-se a falar da noite, da magia da praia e dos segredos dos bares. Contou histórias do bairro, lendas dos antigos moradores da área, personagens que já não existiam mais. Eládio Ratoeira escutava com atenção, surpreso com a própria paciência. O Profeta andava por ali desde o início da ocupação da praia pelos bares, ele e seu casaco, o cabelo sujo, os dentes estragados e todas as suas histórias esquisitas. Diziam que fora fotógrafo de jornal. Diziam que tivera uma banda de rock nos anos 70, Punk Froid ou algo assim. Diziam que endoidara por causa de mulher. Não havia quem não o conhecesse, quem já não lhe tivesse pago uma dose de cana.

– Não duvide da realidade, seo detetive. Isso é importante pra sua profissão. Por exemplo, se eu disser que tem alguém sentado nesta mesa com a gente, alguém que veio com o senhor, o senhor duvidaria, né?

Eládio Ratoeira olhou automaticamente para o lado. Quando deu-se conta, irritou-se consigo mesmo e entendeu que já escutara demais, meia hora ouvindo maluquices, onde andava com a cabeça? Então respirou fundo e, botando um pouco de autoridade na voz, falou que já estava tarde e que se o outro não tivesse nada de mais concreto para dizer, então fosse desculpando que ele tinha trabalho amanhã cedo. E pediu a conta.

O Profeta sorriu um sorriso curto de resignação.

– Vou falar na língua que o senhor conhece, seo detetive. Me diga uma coisa. Se o senhor não sabe que eu tenho nas mãos uma quadra de damas, então essa quadra não existe pro senhor, não é mesmo? Não existe porque o senhor não sabe que eu tenho, não é isso? Pois ele exista sim, independente do senhor saber.

O detetive Eládio Ratoeira, 40 anos de baralho, encarou o Profeta e sentiu um calafrio lhe percorrer a espinha. O maluco sabia que ele jogava pôquer? Então lia mesmo pensamentos?

Por alguns segundos manteve o olhar fixo nos olhos do homem, procurando alguma pista que indicasse qualquer coisa… Mas a expressão do outro não mudou, permaneceu impassível, o olhar manso e desarmado, tipo do sujeito incapaz de mal algum.

De repente um gato preto entrou pela porta do bar e aproximou-se da mesa, miando para o Profeta. Ele o pegou nos braços e pôs no colo, acariciando-lhe o pelo.

– O senhor está investigando somente o caso de dona Iza, não é? Pois vou ampliar um pouco mais seu horizonte. É só porque simpatizei com a sua honestidade.

Eládio Ratoeira esperou. Dos braços do Profeta o gato preto o observava com seus olhos amarelos.

– Olhe, a morte de dona Iza tem dois precedentes. Um é seo Neném, dono do motel, que morreu cinco meses atrás. O outro é o garçom Penalidade, morto faz dois meses. Eu sei que o senhor sabe, eu sei. Mas ainda não ligou os fatos. Os três eram personagens conhecidos na praia, faziam parte da paisagem. Atente pra ironia, homem: o dono do motel, que vendia sexo, morreu na cama. O garçom, que vendia bebida, morreu afogado. E a cigarreira morreu queimada.

– Morreu antes de ser queimada – interrompeu Ratoeira, dando-se conta, um segundo depois, que revelava um segredo de trabalho.

– É o simbolismo que vale. A noite está morrendo através de seus personagens. A profecia é desumana mas é real.

– Que profecia?

– O senhor conhece. Um dia a noite da Praia de Iracema vai morrer.

Eládio Ratoeira perdeu de vez a paciência. Pagou a conta e levantou-se.

– Pelo que me consta, seo Profeta, e talvez não conste ao senhor, é que foi uma mulher loira, bonita e aparentando vinte e poucos anos, trajando vestido preto, que foi vista na companhia de seo Neném poucos minutos antes dele ser encontrado morto. Nada de símbolo. Foi assassinato e vou provar.

– Então, homem? Pra que melhor simbolismo? Uma loira bonita e cruel, vestida de preto… A cool girl will kill you in a darkened room… O senhor conhece essa música?

Pronto, o maluco sabe inglês, pensou Ratoeira, coçando a nuca.

– O senhor está tão obcecado em descobrir o assassino que não consegue ver o óbvio.

Ratoeira caminhou para a calçada e, enquanto acenava para o táxi, pôde ouvir o Profeta lá na mesa, ainda com o gato nos braços:

– Toinho, Tereza, Tarzan… Quem é o próximo de amanhã?

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DURANTE OS DIAS QUE SEGUIRAM, o detetive Eládio Ratoeira aguardou com expectativa o segundo laudo sobre a morte de dona Iza. Finalmente obteve uma informação: os legistas não conseguiam descobrir a causa mortis. Simplesmente não sabiam.

A conversa com o Profeta repercutia insistente em sua cabeça. Aquela história da profecia sobre a morte da Praia de Iracema era antiga mas era apenas mais uma das histórias malucas sobre o bairro. O povo ficava fumando maconha nos becos e inventando aquelas coisas. A verdade verdadeira era que seo Neném morrera de ataque cardíaco e a mulher loira fora realmente vista na noite do crime por duas testemunhas. O garçom Olimar morrera afogado e não havia suspeitos. O caso de dona Iza é que era o mais misterioso. As mortes, porém, não tinham ligação entre si, como supunha o Profeta.

De qualquer modo, os casos do garçom e do dono do motel não eram da sua conta. O garçom certamente caíra sozinho do píer, embriagado. E a loira suspeita de matar seo Neném estava sendo procurada pelo polícia. Seu problema era a cigarreira, descobrir por que ela não conseguira escapar do incêndio.

Eládio Ratoeira ligou o chuveiro e meteu-se debaixo da água fria. O que precisava era de um bom banho e de uma mesinha de pôquer divertida. Quadra de damas… Quem sabe não seria uma dica para a mesa daquela noite? Bem que podia ser. Descontar o que o Mardônio lhe ganhara da última vez.

Após o banho vestiu-se rapidamente e foi encontrar o resto do pessoal no Papagaio, o único bar que aceitava receber aquela mesa de pôquer, uma mesa no depósito do primeiro andar, é verdade, mas aceitava. Mesa de cinco, uma garrafa de conhaque, pratinho de amendoim. Do lado de suas fichas uma foto da Danusa pelada, secretária do escritório vizinho ao seu, era para dar sorte, patuá antigo, ela até já casara. O cacife vale vinte, primeira pausa à meia-noite, mexeu no patuá do outro vale uma advertência, o prêmio é um, dois e quatro cacifes, vamos jogar que o jogo é jogado e tomem cuidado que hoje eu tô invocado…

Ratoeira tentava se concentrar no jogo mas não podia aparecer uma dama na mesa que logo lembrava da conversa do outro. Como o maluco podia saber que ele jogava pôquer? Será que era por isso que o chamavam de Profeta, tinha o dom de adivinhar coisas?

As três cartas da mesa começaram a ser abertas. Uma dama de espadas surgiu. Precisava se concentrar no jogo.

Toinho, Tereza, Tarzan… Mas até o Tarzan estava metido naquela história? Ratoeira achou engraçado e riu. Precisava se concentrar, estava muito disperso.

A segunda carta da mesa: dama de paus.

Toinho, Tereza, Tarzan… Todos começavam com T. Será que o maluco queria dizer que o nome do próximo a morrer começava com T?

Então a dama de copas apareceu na mesa. Trinca de damas na mesa! Uma exclamação geral percorreu a mesa. Todos se entreolharam, sorrindo maliciosos. Quem tivesse a dama de ouro faria a quadra. Se alguém tinha, sorriu para disfarçar a felicidade. E quem não tinha, sorriu para esconder o medo.

Ratoeira sentia o coração pulando dentro do peito. Ergueu o olhar e, do outro lado da mesa, deu de cara com os olhos desconfiados do Mardônio por trás da fumaça do baseado. Voltou às suas cartas. Ou se concentrava ou então o demônio do Mardônio lhe adivinharia o jogo.

Já havia visto a primeira de suas duas cartas. Era um dois de paus. A outra estava por trás. Faria um pequeno suspense para si próprio. Então, num impulso, dobrou a aposta, ainda sem saber qual era sua segunda carta, uma jogada no escuro. Claro que era arriscado. Não costumava fazer aquilo mas era o tipo da coisa que podia funcionar como um bom golpe psicológico nos outros jogadores. Tomou um gole do conhaque. Tinha de aparentar calma.

Então Mardônio pôs várias fichas sobre a mesa, dobrando a aposta mais uma vez. E tornou a encará-lo. Os outros jogadores desistiram e sobraram eles dois. Ratoeira, ainda sem ver a segunda carta, pagou a aposta. Alguém assobiou, surpreso.

Ratoeira tentou manter-se tranquilo. A coisa estava ficando séria. Respirou longamente e decidiu finalmente ver a segunda carta. Seu próximo lance dependia dela. Se fosse a dama de ouros, iria com a aposta até o fim do mundo. Tinha que ser a dama. Tinha que ser a quadra. A quadra do Profeta.

Ratoeira deslizou os dedos lentamente, fazendo a pressão exata para que a carta de trás não surgisse de todo. Fazia suspense para os outros e para si próprio. Podia sentir que Mardônio o observava atentamente, pronto para interpretar qualquer mínimo gesto seu. Os outros não ousavam falar nada. Era a maior aposta da noite.

Ratoeira deslizou os dedos mais um pouco. Descobrindo o lado inferior esquerdo, percebeu pelo desenho que a carta era uma figura, não era um número. O coração disparou. Tinha uma trinca de damas já certa e agora aquela carta podia ser a outra dama que faltava. Ou era um rei ou um valete ou uma dama. Tinha de ser a dama de ouros.

Continuando o suspense, descobriu um pouco da parte superior esquerda e a letra começou a aparecer, em cor vermelha, aos poucos, devagarinho, a cor vermelha…

Ratoeira, 40 de baralho, não acreditou no que viu. Por alguns segundos não conseguiu pensar em qualquer coisa. Depois imaginou que alguém aprontara alguma brincadeira idiota para cima dele. Mas ninguém ria. Estavam todos sérios aguardando sua decisão.

Ratoeira engoliu seco. Em sua mão estava uma carta que não era rei, nem valete e nem dama. Em sua mão estava um macabro esqueleto sobre um cavalo, empunhando uma foice. E a letra, no canto superior da carta, era um T. Um T vermelho como sangue.

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TÂNIA MARA PAROU em frente ao espelho do banheiro e enxugou os longos cabelos negros. Passou uma escova e jogou-os para trás. E parou para se olhar. Sua experiência como loira durara apenas seis meses, não foi muito proveitosa, poucos aprovaram. Até mesmo Rian, seu gato, estranhou a mudança. Ficava olhando para ela com seus olhos amarelos, olhando como se não reconhecesse aquela mulher loira. Agora seus cabelos eram negros novamente, a cor do seu gato e das roupas que usava, e era confortável reencontrar a velha imagem.

Vivia um bom momento. Os shows estavam acontecendo. Os rapazes da nova banda eram músicos competentes e juntos faziam um bom trabalho. A noite aos poucos tomava conhecimento de Tânia Mara. Ah, a vida devia ser sempre assim, ela falou para a imagem no espelho, cantar blues e viver as emoções. De preferência bem fortes, meu bem.

Deu uma última olhada no corpo nu refletido, o corpo que assumidamente usava como arma, nos palcos e na vida. Pôs duas gotas de perfume nas mãos e passou na nuca e no colo. Apalpou os seios. Olhou-os de perfil. E vestiu uma camiseta preta, que lhe desceu até metade das coxas. No espelho viu seu rosto ao lado do de Jim Morrison, refletido do poster da parede de trás. Antes de deixar o banheiro e dirigir-se ao quarto, beijou-o na boca.

– Você não me engana, cara. Sei que está vivo. Um dia a gente se encontra.

No toca-disco da sala, era ele, o Rei Lagarto, quem cantava: If you give this man a ride, sweet family will die… Killer on the road. Tânia Mara fechou os olhos, escutou a música e respirou fundo. Mordeu o lábio. Eu resisto a tudo, meu bem, menos às tentações… No quarto, pegou a garrafa de Jack Daniel´s na mesinha de cabeceira e foi para a sala. Parou na porta, segurando a garrafa e olhando para o homem no chão encostado no sofá. O relógio da parede lhe dizia que demorara vinte minutos no banho. Vinte minutos para o que ele terá é pouco…, ela pensou, sorrindo.

– Tim-tim… – ela brindou, após servir os copos.

– A você. Desumana Tânia.

– A mim.

Enquanto Jim cantava a mortal carona na estrada, Tânia Mara bebeu um pouco do uísque e olhou para o homem à sua frente. Conhecera-o por ocasião de um show, uma semana antes. Logo que chegou ao bar seus olhares se cruzaram de um modo estranho e durante o show pôde perceber como ele a olhava com desejo. Cantou o tempo todo excitada, sentindo a calcinha molhada. E fez seu melhor show. Quando saiu do camarim passou pela mesa para chamar sua atenção. A isca funcionou: ele a convidou para um drinque e ela aceitou. Ele elogiou sua voz e as músicas, principalmente Desumano Blues. Ela gostou do jeito dele, misterioso. Além do mais, ele falou: Você tem o jeito da noite… E isso ficou em sua cabeça, não esqueceu. O jeito da noite.

Rian surgiu de repente, vindo da cozinha, e foi enroscar-se em suas pernas. Ela pôs o gato preto em seus braços.

– Escapou, né, safado? Vem, vamos voltar. Hoje você não pode ficar comigo, entenda…

Ela saiu em direção à cozinha e voltou logo depois.

– Quem é você, Tânia?

– Uma garotinha sortuda sob os holofotes da noite.

– Ou só mais um anjo perdido na noite da cidade?

Ela imitou uma garotinha tímida e desprotegida, brincando com os dedos. Então foi até a estante botar novamente o disco para tocar. Podia sentir o olhar dele em suas costas, deslizando pelos seus contornos. Ele agora vai levantar e vir até aqui…

– Também gosta de Jim Morrison? – perguntou ela, pousando a agulha novamente na última música.

– Gosto mais de Tânia Mara.

A voz dele bem atrás, podia senti-la em seu pescoço.

– Por que você diz que eu tenho o jeito da noite?

– Porque a noite é desumana.

Desumana…, pensou ela, saboreando o que escutara.

– Nada que eu possa evitar, meu bem…

– Você tem futuro, Tânia Mara.

– Eu sei.

– Comigo.

– Com você? Essa parte do roteiro não recebi.

– Se quiser, posso levá-la daqui, exibir sua voz pelo mundo, vivermos uma tórrida paixão. No fim morreremos de amor em Paris. Na banheira de um quarto de hotel.

– Tentador… Mas os lagartos não morrem em Paris, querido.

Primeiro foi o braço dele em sua cintura, puxando-a com força. Em seguida foi a sua boca invadindo a dele, as línguas sem cerimônia. Depois as mãos, a camiseta subindo, rasgando, as mãos em suas costas, em seu pescoço, nos seios, seu corpo nu nos braços dele, no meio da sala. Depois foi o sofá, depois as roupas dele, a urgência, o suor. Depois as estrelas, as estrelas… E os teclados gotejantes de um blues morrendo aos poucos, sob a chuva. Depois o silêncio. Desumano silêncio.

“Meu bem, esta cidade ensurdece
e você esquece do que eu tenho pra dizer.
Meu bem, a noite é desumana
Fumando e bebendo sozinha em meu apê…”

(Tânia Mara – Desumano Blues)

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FOI O TENENTE TRINDADE, amigo informante na polícia, quem avisou Eládio Ratoeira. Imediatamente ele pegou um táxi e conseguiu chegar ao apartamento da vítima antes da imprensa, quando a polícia ainda recolhia material e fazia as fotos. Ratoeira conferiu o estrago com os próprios olhos. Viu o corpo nu da cantora, belo e ensanguentado, estirado de bruços no tapete, as pernas abertas, o pescoço rasgado. A polícia já havia recolhido alguns objetos para análise pericial, entre eles dois copos e um disco de vinil partido ao meio com restos de sangue.

– Conhece, Ratoeira? – perguntou o tenente Trindade, mostrando o disco partido.

– L. A. Woman. Um crime quebrar um vinil desses.

Ratoeira caminhou pelos aposentos. No mural do quarto viu fotos, bilhetinhos, cartazes de show… De repente um gato preto surgiu correndo e foi meter-se debaixo do guarda-roupa. Pela ração na cozinha, Ratoeira deduziu que morava com a moça. Tentou pegá-lo mas o gato saltou e em dois tempos estava no parapeito da janela, olhando para ele. Por um instante lhe passou pela cabeça que o bichano podia estar tentando dizer algo, gatos são meio bruxos. Fixou o olhar nos olhos do animal e perguntou:

– Quem foi? Eu sei que você sabe.

O gato, imóvel no parapeito, continuou olhando para ele. E miou.

– Então é este seu método, Ratoeira… Interrogação felina.

Ele virou-se e viu o tenente, parado na porta.

– A vizinha disse que o nome dele é Rian. Em francês quer dizer…

– Nada.

– Exatamente. Ou seja: ele não sabe nada.

Enquanto o tenente Trindade ria, Ratoeira pegou o gato nos braços e o acariciou.

– Não se deve duvidar da realidade… Né, Rian?

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ELÁDIO RATOEIRA SENTOU-SE no sofá da sala de sua quitinete. Ligou a TV mas não prestou atenção. Seu pensamento estava na Praia de Iracema…

Tânia Mara, o nome da moça. Bonita. Vinte e três anos, cantora de blues. Tinha uma banda e os frequentadores dos bares a conheciam. Estava na cidade havia um ano, morava sozinha. Fizera um show na noite de terça e depois não foi mais vista. Quem descobriu o corpo foi o gaitista da banda, dois dias depois. Como ela não havia comparecido ao ensaio nem atendia o telefone, ele fora até seu apartamento. A porta não estava trancada e ele entrou, encontrando o corpo estendido no tapete.

Tânia Mara… O T da charada, pensou Ratoeira. Cantora da noite. Morreu com o pescoço rasgado por um disco. Indícios de luta corporal, ela certamente resistiu. Mas o assassino era mais forte e a derrubou. Virou-a de costas no tapete da sala, deitando sobre ela. Tapou-lhe a boca com um lenço para que não gritasse. Quebrou o disco ao meio e rasgou-lhe o pescoço. Enquanto a hemorragia a enfraquecia, ele a sodomizou ao som de Riders on the Storm…

– Miaaauuu…

Ratoeira despertou com o miado do gato aos seus pés.

– Tá com fome, Rian?

Levantou-se e pôs mais ração no pratinho. Depois, ainda com a cena do crime em sua mente, pegou caneta e papel. E escreveu o nome de todas as vítimas. Primeiro o dono do motel, que morreu na cama. Três meses depois o garçom, que morreu afogado. Dois meses depois, a cigarreira, que morreu queimada. Um mês depois, a cantora, morta com o pescoço rasgado por um disco. Nenhum latrocínio. Nem crime passional, nem vingança. Em seis meses quatro crimes sem sentido. Mas simbolicamente coerentes, como dizia o Profeta. Ratoeira coçava a nuca, pensando se a polícia estaria a par daquela suposta relação entre os crimes. Coincidência ou não, ele já não conseguia deixar de relacioná-los.

Mas como o Profeta sabia que a próxima vítima começaria pela letra T? Ou teria sido apenas um palpite? Ratoeira escreveu o nome das vítimas no papel. Neném, Penalidade, Iza e Tânia, em sequência cronológica. N, P, I e T. Não formavam nada lógico à primeira vista. Tentou algumas combinações mas nada lhe chamou a atenção. Então percebeu que os dois primeiros eram apelidos. O nome verdadeiro do seo Neném era Nilton, a mesma inicial. Mas o nome do garçom era Olimar.

Substituiu a letra P de Penalidade pela letra O de Olimar. Tinha agora N, O, I e T.

Um relâmpago cruzou o interior de sua mente. Um arrepio percorreu-lhe o corpo de cima a baixo. Ratoeira ficou olhando para o papel, sem acreditar.

A profecia.

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– EU SABIA QUE VOCÊ VIRIA. Quer sentar?

Jeová, o profeta da praia, ele e seu casacão preto e imundo.

– Uma dose de cana pro Profeta – pediu Ratoeira ao garçom.

– Tripla – acrescentou Jeová, grave como sempre. – A moça merece.

– Como você sabia que seria ela?

– Tudo que sei é o que está escrito.

– E o que está escrito?

– Que chegou o fim dos tempos.

– Isso eu também sei. Que mais?

– Que a noite desta praia está condenada.

– Condenada por quem?

O garçom chegou com a bebida. Eládio Ratoeira observou o Profeta erguer o copo cheio de cachaça à altura do nariz, fechar os olhos e cheirar. Ia repetir a pergunta quando o outro abriu os olhos.

– As pessoas dizem que eu sou louco. O que o senhor acha?

– Não acho nada. Quem está tentando matar a noite?

– A noite está morrendo… – prosseguiu o Profeta, entre um e outro gole. – Mas a morte sempre vem, seo detetive. Ninguém sai vivo daqui. A noite dessa praia morre quando abrem um novo bar, por mais estranho que pareça. A noite morre quando esses boyzinhos vêm desfilar suas grifes por aqui, quando as barraquinhas na rua vendem bebida aos menores, quando os próprios garçons fornecem cocaína aos clientes e os taxistas e donos de motéis fazem vista grossa pros turistas e suas menininhas de doze anos.

Ratoeira escutava, seus olhos nos olhos vermelhos do Profeta.

– A noite morre toda vez que alguém é assaltado na esquina escura, quando um carro é roubado, quando brigam os garotões valentes de academia. A noite morre quando a mãe se exaspera ao ouvir o choro do bebê que não consegue dormir por causa do som alto do bar vizinho. A noite morre nas músicas dos carros, nas churrascarias que trazem gente de bairros distantes e que não entende a brisa da praia. A noite morre porque esse é o destino de todos. E a culpa não é de ninguém. Por isso não adianta o senhor procurar o culpado.

– O que fazer então?

– Os dias estranhos nos alcançaram, seo detetive. Seguiram nosso rastro e destruíram nossas alegrias mais simples. Nada a fazer.

– Tem de haver um assassino.

– A Praia de Iracema é de todos… – O Profeta sorriu tristemente, olhando o mar pela janela do bar: – Todos têm direito a uma cota de seu linchamento.

– E você, não tem pena dela? Ou das vítimas?

– Lamento pelos filhos da praia, que tentam perpetuar o que já é passado. Esses amam a noite e morrem com ela. Muitos nem nasceram aqui mas são feitos da mesma maresia. É ruim se apegar demais ao que vai morrer. Koi-guera.

Ratoeira escutou com atenção. Dessa vez as palavras do Profeta, por mais loucas que fossem, pareciam ter alguma coerência. Ou será que sempre tiveram e ninguém nunca percebera?

– Quem será o próximo?

– O senhor ainda não desconfia?

– A letra E é de Eládio?

– O que o senhor acha?

– Faria sentido. O assassino matou o sexo, a diversão, a droga e a música. Não falta mais nada. Matar quem quer desmascará-lo seria o último passo. O grand finale.

O Profeta escutava, sério.

– Quem matou a cantora foi um homem, eu sei que foi, o mesmo que esteve com ela depois do show, bebendo no bar. Se vários foram os assassinos, então eles estão obedecendo à sequência “noite” nas mortes. Ele ou eles trabalham pra quem?

– O senhor não entende. Quem matou os quatro foram os mesmos que matam a Praia de Iracema, a cada noite, a cada violência. E eles não têm consciência disso, matam por ignorância. Pensando bem, talvez seja melhor acabar de vez com sua agonia. Matar antes que ela morra. Matar por amor – acrescentou o Profeta, bebendo o resto da cachaça e levantando-se da mesa.

– O que vai acontecer quando morrer a letra E?

– Cumpre-se a profecia.

– Como assim?

– Pensei que o senhor já tivesse entendido… É a parte mais óbvia da história, seo detetive.

Sempre que pensava na profecia, Ratoeira sentia-se meio ridículo. Mas já não podia evitar.

– A noite morre… – repetiu o Profeta, saindo em direção à porta. – Nada lhe ocorre?

Enquanto pensava nas palavras do Profeta, Raoteira puxou a carteira para pagar a conta. Foi quando percebeu que o copo de cachaça do Profeta continuava cheio, do jeito que chegara.

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ELÁDIO RATOEIRA ENTROU EM CASA e foi direto ao quarto. Tirou os sapatos e deitou-se com a roupa que estava, os olhos pesando de tanto sono. Precisava de uma noite bem dormida.

Mas… algo estranho estava acontecendo… Acendeu o abajur e viu Rian, deitado na cama, olhando para ele. Então percebeu que Rian na verdade era uma gata. E estava parindo, exatamente naquele momento, estava tendo gatinhos em sua cama, vários gatinhos saindo sem parar, vários, muitos…

Ratoeira abriu os olhos. A luz do quarto estava acesa. Passou a mão no rosto suado, compreendendo que sonhara. Se as coisas continuassem daquele jeito terminaria precisando de um tratamento. No pôquer do mês anterior vira uma carta com a figura da morte, um esqueleto montado num cavalo, a letra T, que loucura. Terminou jogando as cartas na mesa, indignado com o que pensava ser uma brincadeira idiota dos amigos. Teve que pedir para sair, tão abalado que ficou com a visão da carta. Depois viu o copo cheio de cachaça do Profeta quando, na verdade, vira-o bebendo tudo bem à sua frente. E agora tinha pesadelo com uma gata parindo em sua própria cama.

Tomou um banho frio e depois pegou um pedaço de pizza da geladeira. Comeu sem esquentar. A tevê exibia o clipe da Intocáveis Putz Band tocando o Manifesto das Bem-Aventuranças, todos vestidos feito monges, capuzes, o clima sombrio… Ratoeira desligou, irritado. Aquelas mortes estavam inspirando até mesmo as bandas da cidade.

Olhou para Rian, dormindo no sofá. Estaria sentindo falta da antiga dona? Lembrou do sonho, a gata parindo. O que podia significar? Parto… nascimento… algo importante que virá… Mas o quê? Quando?

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“NO DIA 28 DE DEZEMBRO completam-se nove meses da primeira morte.”

Eládio Ratoeira olhou para a frase que escrevera, pensando em quanto aquilo era estranho. Deixaria um depoimento escrito a respeito de tudo que sabia sobre as mortes, caso algo viesse a acontecer com ele. Na carta admitia que podia muito bem estar fantasiando mas não podia desprezar o simbolismo de que falava o Profeta.

Podia muito bem dar o caso de dona Iza por encerrado: os legistas finalmente admitiram que havia sim vestígios de fumaça nos pulmões da vítima e, portanto, ela morrera asfixiada, fora um acidente. Mas isso lhe parecera algum tipo de armação, talvez os legistas realmente não tivessem descoberto a causa da morte. E como se tratava de gente pobre e não havia nenhum interesse maior no caso, inventaram tal conclusão.

As outras mortes continuavam sem culpados. A polícia concluíra que o garçom realmente se afogara. Quanto a seo Neném, nenhuma pista sobre a tal loira de preto. Nem sobre o assassino da cantora.

Mas as estranhas mortes viraram assunto indispensável e frequentavam as mesas da Praia de Iracema todo tipo de suposições, desde as que acusavam ser tudo obra para desviar a atenção das eleições às que denunciavam maquiavélicos planos de empresários dispostos a substituir os bares por hotéis de luxo.

E havia os que reiteravam o que dizia o Profeta: faltava apenas uma morte para que a profecia se cumprisse e a noite da Praia de Iracema morresse de vez. Por isso era preciso aproveitar o que ainda restava, as noites estavam no fim. Bandas compunham músicas sobre as mortes. Nas mesas os poetas vendiam cordéis macabros. Nas ruas as camisetas circulavam com os dizeres “Esta pode ser a última noite. Aproveite. Comigo.” Bares pegavam carona na onda e faziam promoções. “ApocaLIP-se!” – assim convocava seus clientes o Lip Bar. Alguns mais supersticiosos vendiam barato seus pontos para evitar prejuízo maior: se não haverá noite, quem irá aos bares?

A noite, porém, ainda estava viva. E naquele 28 de dezembro, exatos nove meses após a morte de seo Neném, Ellen Star faria na Boate Circus a sexta apresentação de seu macabro espetáculo transformista Mate-me Que Eu Já Te Matei, que tratava exatamente de todas aquelas mortes. E era lá que Eládio Ratoeira estaria.

“Nove meses que tudo começou. Hoje o mistério será decifrado. Tenho que estar lá. Se estou fantasiando, nada acontecerá e os crimes seguirão sem solução. Mas se estou certo, então alguém morrerá. E talvez eu descubra quem é o assassino.”

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ERA QUASE MEIA-NOITE quando Eládio Ratoeira chegou à boate Circus e sentou-se numa mesa mais ao fundo. Pediu uma cachaça e foi ao banheiro. Aproveitou para observar o ambiente, balcão, cozinha, corredores. A boate não era grande, cabiam ali umas vinte mesas. No canto havia um pequeno palco. Em caso de confusão, a porta principal seria estreita demais para evacuação rápida.

Todas as mesas estavam cheias quando as luzes se apagaram.

– Estão todos aí? – uma voz cavernosa ecoou pela boate. – O espetáculo vai começar.

A cortina se abriu para o primeiro ato. Uma voz feminina cantando ao som de um piano. Você me olha desse jeito… Pensa que eu não sei que você quer me comprar… O cenário de um quarto de motel. Um homem deitado na cama. Uma mulher loira num vestido negro com uma generosa fenda lateral, exibindo suas belas pernas. Mas eu não estou à venda, meu bem… A mulher caminhando devagar até a cama. Ratoeira ajeitou-se na cadeira, impressionado com a beleza da atriz. O que está à venda é seu sonho de ter o que você pode pagar…

Ellen Star foi a loira que era amante do dono do motel que morria de ataque cardíaco durante um orgasmo. Depois foi o garçom que se encontrou no píer com o amante de sua mulher, que o empurrou ao mar. Ratoeira demorou a acreditar que Ellen também era o ator que interpretava o garçom. Como alguém podia ser tão convincente como mulher e também como homem?

Em todas as cenas Ellen dublava músicas especialmente escolhidas. Na terceira ela era um garoto que tentou roubar dinheiro do barraco da cigarreira e causou o incêndio que a vitimou.

– Ellen é ela ou ele? – perguntou Ratoeira ao garçom.

– É um mistério. Mais uma cachaça?

A cena da cantora começou com Ellen Star dublando Little Girl Blue, uma canção muito triste na voz de Janis Joplin, e Ratoeira pôde observar como as pessoas estavam bastante absortas no espetáculo, algumas visivelmente emocionadas. Havia no ar um clima de comoção mas também de suspense. No momento em que a cantora chegava em casa radiante de felicidade por ter feito o melhor show de sua vida, Ratoeira escutou um miado. Procurou no palco mas não viu gato algum. Então escutou novamente, dessa vez mais forte, e viu as cabeças se virando, todos procurando saber de onde vinha o som.

Vinha do lado da entrada. Ratoeira virou-se e na penumbra percebeu um homem em pé, encostado na parede, de frente para o palco, vestido num sobretudo preto. Olhando melhor, percebeu que o rosto dele estava pintado, lembrando o de um gato. Faria parte do show? No palco a cantora rasgava com um disco de vinil a própria garganta, morrendo feliz e realizada. Quando Ratoeira olhou novamente, o homem havia sumido.

Ratoeira coçou a nuca, cada vez mais nervoso. Algo o inquietava. Havia algum mau presságio no ar, ele podia senti-lo.

A quinta cena começara e Ellen Star representava uma travesti batendo seu ponto na esquina, sob a luz fraca de um poste. Saia branca curtíssima, meias pretas, salto alto, o cabelo ruivo chanel revelando o pescoço fino. Os olhos sombreados e os lábios vermelhos. Os carros passavam e ela, insinuante, fazia trejeitos e jogava piadinhas aos motoristas. Tocava um envolvente bolero chamado Lupiscínica, de onde vinha a frase-título do espetáculo.

Vamos adiar essa briga, amor…

De repente um automóvel parou mais à frente. Ellen sorriu. A luz traseira acendeu-se e o carro voltou de ré. Ellen ajeitou a saia e assumiu posição de espera.

Na madrugada sonolento, de bolero em bolero…

O carro parou ao lado e o vidro fumê baixou, surgindo os rostos de uma garota e de um garoto. A travesti aproximou-se pelo lado da garota, debruçou-se na janela e sorriu, os seios como se numa bandeja.

A tua boca guarda segredos de mim…

– Boa noite, jovens.

– Oi – a garota falou.

– Ontem vocês passaram por aqui, não passaram?

– Você é boa observadora.

– Sou boa também em outras coisas…

E hoje sinto ciúmes até da tua falta…

– Você é homem ou mulher?

– Sou o que você e ele quiserem, meu bem.

– Quanto custa desvendar o mistério?

– Pra vocês faço por cem.

Mas não vou matar ninguém por tua causa…

– Você é muito bonita.

– E vocês são uma gracinha.

– Bonito, teu peito…

– Quer pegar? – perguntou a travesti, levando a mão da garota até seu seio. – Concorrência desumana, né, querida?

– Outra noite a gente vem com mais calma – disse o garoto.

– Mas não demora, viu? Posso não estar aqui.

– Vai mudar de ponto?

– Eu sou a noite, meu bem. A noite sempre chega ao fim.

Mate-me que eu já te matei…

Um homem. Vestido num sobretudo preto. Rosto pintado como um gato. Surgiu de algum lugar da escuridão da rua. Tão silencioso que de repente ele já estava lá, na calçada. Aproximou-se.

No momento em que a travesti virou-se, ele desferiu-lhe um violento soco no rosto. Ela caiu no chão, sobre o meio-fio, quase no asfalto.

Assustada, Ellen passou a mão no canto da boca e percebeu que sangrava. O homem continuava em pé. O automóvel arrancara. E o bolero havia terminado. Ele meteu a mão sob a roupa e puxou um revólver.

Ratoeira sentiu o coração gelar. O único som era o dos automóveis passando pela avenida. Ratoeira viu Ellen Star levantar-se e encarar com altivez o sujeito à sua frente. Foi ela quem gritou, a mão sobre os lábios feridos:

– Você tinha que estragar tudo, né?

Quando o homem empunhou a arma e apontou para ela, Ratoeira não ousou piscar os olhos. Estava petrificado, a respiração presa, toda a sua atenção concentrada nos dois, a travesti que olhava para o homem e o homem que atiraria nela.

O tempo parecia ter parado. Há quantos segundos aguardava? Ratoeira não mexia um único músculo. Alguma coisa iria acontecer no próximo instante e ele não fazia ideia do que seria.

Um pensamento lhe veio rápido à mente: e aqueles carros passando, aqueles prédios todos ao redor? Ninguém via nada? Ninguém para gritar, impedir um crime? Aquelas janelas todas, centenas, milhares de janelas… A noite da cidade tinha tantos olhos e, no entanto, ninguém via nada…

Ellen Star moveu-se rapidamente e de dentro da bolsa sacou um revólver, apontando-o com as duas mãos para o homem. A arma disparou. Um grande estrondo, o eco permanecendo no ar por longos segundos, a fumaça subindo do cano…

Ratoeira viu Ellen afastar-se para trás, cambalear sobre os saltos altos, perder o equilíbrio e chocar-se contra o poste feito um triste boneco desengonçado. Depois escorregou para o chão e ficou lá, inerte, enquanto os faróis seguiam indiferentes pela avenida. E as janelas nada viam.

O homem do sobretudo, ainda segurando o revólver, avançou. Ele agachou-se sobre o corpo de Ellen, passou a mão levemente por seu rosto e falou baixinho:

– Meu amor…

Então ergueu-se e saiu caminhando devagar pela calçada. E atravessou a avenida, num passo tranquilo, sem olhar para os lados. Um carro freou bruscamente para não atropelá-lo e quase provocou um acidente com outros carros. Na confusão, os passantes perceberam o corpo na calçada e se ajuntaram ao redor.

Eládio Ratoeira também foi para lá, abrindo caminho entre a multidão. Dirigiu-se até o corpo caído. Viu o sangue espalhado pela roupa, escorrendo para o chão. Suspendeu a cabeça de Ellen enquanto ela abria os olhos devagar. No meio de sua expressão serena surgiu um doce sorriso:

– Aquela cartomante me paga…

– Como? – indagou Ratoeira.

– Ela me garantiu que… ai…. eu morreria em Paris…

– Aguente mais um pouco, Ellen.

– É o fim, meu belo amigo. O fim das doces mentiras… das noites em que tentamos morrer…

– Não fale. O socorro está chegando.

– Você… ai, como dói… faz parte deste teatro ridículo?

– Ahn… sim… – ele respondeu, sem saber o que dizia.

– Acho que minha participação termina aqui… Você gostou?

Ratoeira virou-se para as pessoas ao redor, elas e seus rostos impassíveis.

– Quem é ele, Ellen? Um cliente seu?

– Ele não tem culpa…

Ratoeira percebeu que ela respirava com cada vez mais dificuldade.

– Por que ele atirou em você?

– A profecia. Tem que ser cumprida.

Ratoeira desgrudou o cabelo ensanguentado da boca de Ellen e, olhando para aquele rosto bonito, lembrou-se do que ela dissera ao casal do carro: Eu sou a noite…

– O que vai acontecer agora?

– Acabou a peça, meu bem. As luzes se acendem.

Então ela fechou os olhos. E sua cabeça tombou para o lado no momento em que as luzes se acendiam. Ratoeira olhou para o corpo imóvel em seus braços, o belo corpo de Ellen. Percebeu que um seio estava de fora, um seio bonito. Olhou para as pernas. Lentamente estendeu o braço e tocou o sexo de Ellen, apalpando-o…

– Essa técnica eu não conhecia, Ratoeira.

Ele virou-se rápido, retirando a mão. Reconheceu o tenente Trindade, em pé, a viatura parada atrás. Pousou a cabeça de Ellen no chão e ficou de pé, a roupa encharcada de sangue.

Ratoeira olhou o relógio: uma da manhã. Foi então que percebeu que a claridade não vinha dos faróis de carro algum. Nem vinha dos prédios ao redor. Estava clara a noite da Praia de Iracema. Estranhamente clara.

Desumanamente clara, diria o outro.

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.wordpress.com

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TRILHA SONORA DESTA HISTÓRIA

- Beira-mar (Ednardo) – E um gosto de você que foi ficando… e a noite enfim findando… igual a todas as demais

- Riders on the storm (The Doors) – Pegue uma carona na tempestade desse som

- Quanto você paga (Ricardo Kelmer e Toinho Martan) – Você me olha desse jeito… Pensa que eu não sei que você quer me comprar?

- Little girl blue (R. Rodgers e L. Hart) – Querida, você não vê que está na hora?

- Lupiscínica (Augusto Pontes e Petrúcio Maia) – Bolerão maravilhoso, na inesquecível interpretação de Teti e Ednardo

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> Este conto integra o livro
Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos

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A gota dágua

julho 14, 2008

Ricardo Kelmer 2006

A força da tempestade, o poder do desejo. Ela deveria resistir mas…

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Razão. Você a evoca, angustiada. E a razão surge, gritando em cada sinal vermelho: pare de ser louca! Mas aí o sinal esverdeia e você precisa seguir em frente na tarde cinza, entre os automóveis e a chuva que não cessa. Ainda bem. Não fosse o sinal verde, talvez agora você ainda estivesse ali, pensativa, o carro parado no cruzamento. O cruzamento alagado da ruazinha da razão com a imensa avenida da loucura… e do desejo.

As pessoas na rua correm para se proteger da chuva, todas certas de seu caminho, seguem rápidas e decididas. Você não. Você segue devagar e o seu medo de prosseguir reza para o próximo sinal estar fechado. Pararia ali mesmo no meio da rua não fossem os carros atrás. Tudo em seu ser se contradiz, uma célula quer ir, outra morre de medo. Sim e não. Verde e vermelho. Em seu peito o coração bate no compasso da urgência, não, em suas veias o sangue se desencontra, sim. No rádio, música nenhuma entende seu estado de ânimo. E essa chuva a deixar tudo ainda mais confuso… Sim e não. Ai, que vontade imensa de gritar… Você respira fundo. E acelera.

Francamente falando, você sabe muito bem que limites existem para serem quebrados, não é? E os seus há muito que lhe desafiam. Sim. Para ser exato, desde que ele surgiu, de repente, não mais que de repente. Ele e seu olhar inquietante, o jeito diferente… Você já não sabe se ele é louco ou se louca fica você toda vez que o vê. Tem algo nele que dá um calor, não é? Você nunca sentiu antes, não sabe explicar. Não. É algo meio insano, que lhe faz inventar mentiras e largar o trabalho no meio da tarde. Algo que lhe faz soltar o cabelo, deixar o sutian na bolsa e sair no meio dessa chuva louca. Ai, e essa chuva… Sua vida era tão certa e hoje tudo é tão imprevisível. Mas ao mesmo tempo você tem raiva dele, por invadir assim seu espaço, virando seus dias de cabeça para baixo, ele não tinha o direito, não tinha. Não. Sim, ele tinha.

Ahnn… mas e a ética, como fica? Afinal você tem namorado. E você o ama. Bem, na verdade talvez não o ame como achava que amava. Sim, pois se amasse não desejaria esse homem assim. Ou não? Ou o amor nada tem a ver com o desejo? Se os homens são capazes, por que você não seria também? Uma mulher pode entregar-se a um homem, uma vez só, e voltar para outro, como se nada tivesse acontecido? Como uma chuva que vem de repente e depois já passou? Sim, pode, você mesma responde, surpresa com a própria determinação. Pode voltar sim, mas não como se nada houvesse acontecido, pois sempre terá acontecido, sempre… – você completa, olhando seu sorriso estranho no retrovisor. Você lembra da última briga, um dia antes, e então seu pé pisa mais fundo no acelerador, sim. E a chuva aumenta. Sim. Não. Não se trata de vingança, nada disso. É só a velocidade do desejo. Não. Na verdade é mais que isso. É uma necessidade. Sim. Você tem de encontrá-lo. Você precisa. Sim. É a única coisa que importa agora.

Em frente ao prédio dele, dentro do carro, você inventa mil coisas para se dar mais um tempo para pensar. Olha a chuva lá fora, ajeita o espelho, sente o ar abafado dentro do carro, é como estar numa gruta úmida… Então finalmente pega o celular. E liga. E deixa chamar uma vez. E desliga. Agora só tem de aguardar alguns segundos, só isso. Mas não são alguns segundos – é um século! Um século inteiro de dúvida e angústia, onde razão e desejo vêm se chocar em sua alma feito as gotas da chuva que batem no vidro, uma gota sussurrando sim e a outra gota gritando não, sim e não, não e sim…

Lógico que não! Súbito você se dá conta do absurdo. Claro que não. O que está fazendo? Esperando por um homem que mal conhece? Para quê? O que lhe dirá? Que largou o trabalho no meio dessa tempestade só para lhe desejar boa tarde? O que ele vai pensar? Vai pensar que é louca, claro. De repente tudo fica límpido como um dia de sol. Não, não vale a pena se arriscar tanto por algo que não tem chance de dar certo, não, alguém que você não sabe quem realmente é, não, alguém que semana que vem irá embora, alguém que…

A porta se abre, porém. E ele entra depressa, sentando no banco ao seu lado. Todo molhado, rindo, parece um menino travesso. E você dá de cara com aqueles olhos, aquele sorriso… Meu Deus, você pensa, me ajude, por favor me ajude… Mas seu deus não pode ajudar, não com essa chuva toda. Não. Ele então se aproxima, estende a mão e delicadamente toca seu rosto. Não é mais um menino travesso, é um homem, essa mão é de homem, esse cheiro é de homem, você sabe, o seu corpo sabe. Então tudo que não podia acontecer, acontece: uma gota dágua escorre… da mão dele… para dentro… de seu decote. Sim. Você a sente deslizar… pelo contorno do seio… devagar… cada pelinho acusando… a passagem da gota. Não. Enquanto a gota prossegue em seu íntimo percurso, você fecha os olhos, um arrepio na alma inteira. Sim. Você quer morrer só para não ter que decidir. Você se controla para não abrir a porta e sair correndo, uma louca gritando na tempestade. Você quase explodindo, esticada entre o sim e o não, o não e o sim… Não. Não, você não abre a porta. Nem grita. Nem poderia. Porque os lábios dele, molhados e quentes, tocam os seus e toda dúvida se desmancha em sua boca. E da vida previsível faz-se a aventura. Não mais que de repente.

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Ricardo Kelmer – blogdokelmer.com

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Este e outros textos você encontra no livro
Vocês Terráqueas – Seduções e perdições do feminino

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LEIA NESTE BLOG

> Quem tem medo do desejo feminino? – Você consegue imaginar Nossa Senhora tendo desejos sexuais? Alguma vez na vida você a imaginou fodendo?

> O íncubo – Demônios que invadem o sono das mulheres para copular com elas

> Lolita, Lolita – Ela é uma garotinha encantadora. E eu poderia ser seu pai. Mas não sou…

> O desejo da deusa – Ela, ele, o desejo e um deus repressor

> A torta de chocolate – Sexo e chocolate. Para muita gente as duas coisas têm tudo a ver. Para Celina era bem mais que isso…..

> A entrega – Memórias eróticas – A ex-bailarina filosofa sobre sua história de amor e salvação por meio do sexo anal

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Quadro com trecho do conto
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 COMENTÁRIOS
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01- tenho certeza que tu é uma lésbica encarnado num corpo de homem rss ta xou bjs. Jéssica Gianbarba, Fortaleza-CE – jun2006

02- Rica, Li A Gota D’agua e lembrei de Chico Buarque, mesmo porque ele tem uma musica com esse titulo. Voce expoe a alma feminina nesse conto.E paixao e uma coisa tao boa, lendo deu ate vontade de sentir de novo. Muita verdade, muito dentro da alma da mulher. O publico jovem, entre os 20 e 30 anos, vai adorar. Mulheres. Adorei a mistura de sentidos com a chegada da tempestade, como se a natureza fosse um espelho do que estava acontecendo. Achei a ultima frase do conto muito lugar comum, muito ja dita. Acho que o desfecho merecia algo a mais… nao sei. Mas eu sempre bato nessa tecla com voce, ne? O final… Fabiana Vasconcelos, Boston-EUA – jun2006

03- A mulher do conto sabe que vai levar pra sempre a certeza de que viver e MARAVILHOSO! Fabiana Vasconcelos, Boston-EUA – jun2006

04- É isso, adorei. A gente não lê, devora! E só quem já passou por uma paixão como essa sabe o que é: a vertigem, a vontade, a angústia e o prazer, inesquecíveis. Tem uma frase que resume bem essa história; “Porque não viver intensamente, se a vida é uma aventura da qual não sairemos vivos?” Bjks. Sandra Ribella, Limeira-SP – jun2006

05- Magnífica a composição com Vinícius e seu “soneto de separação”! E muito bom o modo como ilustras a dúvida, a inquietação, a angústia, a luta do desejo contra a ética num cenário de chuva e trânsito – o cenário perfeito: estivesse sol e o encontro fosse num qualquer lugar idílico e todos os sentimentos negativos se esbateriam com a luz e a paz, e a banda sonora seria com o “soneto de fidelidade”. As cricunstâncias mudam tudo mesmo… :) Susana Mota, Leiria-Portugal – jun2006

06- Gota D’água: Belo texto de amor proibido… toma cuidado para ele não ser motivo de cornos te ameaçarem! Jayme Akstein, Rio de Janeiro-RJ – jun2006

07- Olha,concordo com a leitora que acredita que vc é uma lésbica reencarnada no corpo de um homem! Logo que comecei a ler me veio, imediatamente,um frio no estômago.Pois passei por situação muito,mas muito parecida mesmo com esta que vc escreveu…Mas acho que não conseguiria descrever com tanta precisão os conflitos daquele instante. Belíssima descrição de detalhes,muito poético,angustiante e,ao mesmo tempo, excitante. Obrigada despertar em mim lembraças tão gostosas! Mereces um beijo por isso Ricardo! Sidiany Colares, Fortaleza-CE – jul2006

08- Oi Rica! Adorei o teu texto! Estou começando a escrever agora.^^ Mas é bem isso mesmo, as mulheres tem isso mesmo do desejo e a razão, mas é devido a postura da sociedade sabe, essa coisa de ceder é vista como falta de caráter, é como colocar tudo a perder, conheço pessoas que cederam e pagaram caro sabe, não tem nada mais hípócrita do que isso. As pessoas se esquecem que não são “posses” e sim seres que anseiam por felicidade, e isso não é relativo. Graziele Lice, Bauru-SP – jul2006

09- Gostei muito do conto Gota d´água, psicologicamente bem moderno, você é talentoso mesmo. Não te conhecia e é um prazer ler teus contos. Miriam, Criciúma-SC – jul2006

10- Olá Ricardo, Vim lhe agradecer pelo texto. É lindo, e sabe? tem algumas partes que parece que sou eu…rs Tenha uma semana iluminada. Abraço. Márcia Milani, São Carlos-SP – jul2006

11- cara Fantástico corri as palavras, parágrafos e me deparei não mais com um texto…mais com um carrossel de imagens instigantes,lépidas e visceralmente vivas!!!!! Foi hipnótico, senti a alma da personagem….sensação estranha e deliciosa! Valeu!!! Marcelo Amoreira, Fortaleza-CE – jul2006

12- lindo, lindo, lindo. Glaucia Costa, Fortaleza-CE – jul2006

13- Nooooosssa! Ricardo! Lindo! Perfeito! Impressionante como você tem o poder de adentrar na alma feminina e dizer exatamente o que pensamos, o que queremos, o que desejamos! Não fosse pela parte que ela tem namorado, eu diria que sou eu, essa mulher aí! Já aconteceu comigo, é é bom , muito bom, deixar a razão voar pelos ares e a loucura tomar conta! Beijos, muitos beijos para você! A cada dia eu tenho mais vontade de te conhecer pessoalmente! Obrigada mesmo! Cláudia Martins, Montes Claros-MG – jul2006

14- Não mais que de repente, vc me surpeendeu com o que acabei de ler… bjo. Márcia Cristina Menezes, São Paulo-SP – jul2006

15- Per-fei-to…parabéns… Valéria Pinheiro, Fortaleza-CE – jul2006

16- Oi Ricardo, nem sei se lembra mais de mim, depois que virou estrela(hehehe), mas quero lhe parabenizar pelos textos e pelas fotos sensuais que vc tirou de vc mesmo. Parabens pelo seu trabalho e sua coragem. Sucesso!! Beijos. Eloah Gonçalves, Fortaleza-CE – jul2006

17- muito bom ! Suely Andrade, Brasília-DF – jul2006

18- Gostei bastante do “A gta D’agua…a duvida cristã…o arrependimento antes do feito…asede por sexo devido a rotina com o oficial… Sim! Acho totalmente possivel, votar para o namorado depois de ter passado nos braços de outro… Nádia Rosa de Castilho, São Francisco do Sul-SC – jul2006

19- Adorei! Você sempre me provoca dois sentimentos: o primeiro é de inveja, porque gostaria de escrever como você escreve; o segundo é de prazer, o prazer de ler você, o prazer de saber que você vai escrever de novo e eu vou ler novamente. Nem conheço você muito bem pessoalmente, mas dentro da minha mente você é um velho conhecido. Obrigada por me mandar este texto. Vou repassa-lo para minha irmã lá na Califórnia. Bjs. Virgínia Lígia Freitas, Fortaleza-CE – jul2006

20- Adorei, porque já vivi uma situação de dúvida assim parecida. Incrível como você sendo homem, consegue captar as sensações femininas! Você escreve muito bem, parabéns! Elisa Pimazoni, São José do Rio Preto-SP – jul2006

21- RK, vc sempre surpreende, quanto mais num domingo a noite! Como disse Clarisse Lispector ” É por isso que nos dá uma dor no coração sempre que lemos aquelas linhas escritas pela mão de um mestre e a reconhecemos como nossas, como os tenros brotos que esmagamos porque nos faltava fé para acreditar em nosso próprio critério de verdade e beleza.” Ana Sherida Alexandrino de Oliveira, Fortaleza-CE – jul2006

22- wwwooowwww adorei !!!!!!!! gostei tanto que depois de ler voltei a ler interpretando , como e quando voce passou a conhecer a alma feminina assim ???? beijos. Walkiria Fonseca, Nova York-EUA – jul2006

23- se eu pudesse….. agora seria uma gota d’agua…. percorrendo o seu corpo…. como sempre!!! voce surpreendente… ardentemente…. louco!!! beijos…e beijos. Rita de Cássia, São Paulo-SP – jul2006

24- Bom dia Rk, gosto muito quando no final dos seus contos e artigos você menciona esse filme. Sem dúvida foi o filme mais lindo e sensível sobre o Planeta Terra que assistí. Uma viagem cheia de beleza e luz! Rk, sobre esse conto da figura que ama um homem e senti desejo por outro, é super natural, até porque a libido é uma coisa que faz parte da nossa natureza. Não vejo nenhum problema em viver os dois sentimentos, ainda mais se eles forem fortes e vedadeiros! Se cuida tá? Com carinho e paz. Lua, Fortaleza-CE – jul2006

25- Arrasou…Eita…perdi até arespiração …rsrsrsrsr Saudades..Beijos. Viviane Avelar, Fortaleza-CE – jul2006

26- Meu querido amigo Como sempre divino na suas estórias. Vc tem uma maneira de expor que nos faz penetrar no conto e vivenciá-lo na sua íntegra. É muito gostoso. Adorei Bjinhos. Mariucha Madureira, Brasília-DF – jul2006

27- demais amei..perfeito. Teca Baima, Fortaleza-CE – jul2006

28- Muito bacana o texto. Parabens! Um abraco. Sorys Mello, Rio de Janeiro-RJ – jul2006

29- Lindo, lindo, lindo A Gota Dágua!!! Parabéns! Gilvanilde Oliveira Falcão, Fortaleza-CE – jul2006

30- Muito bom Kelmer. Dá pra ficar sem fôlego. Abraço. Ronald de Paula, Fortaleza-CE – ago2006

31- E aí mais uma vez vc consegue tocar o mais secreto medo e desejo de nuestra alma feminina. Sua terceira linguagem está bem afinada com nosso tempo. Resta fechar com mais inteireza. Lindo. Dijé Sales, Fortaleza-CE – ago2006

32- Não tem pecado, não tem culpa, não tem razão. Sim, tem razão. A razão induz ao pecado e a culpa. A leitura do texto induz à mínima reflexão… sentir-se úmida à sensação da chuva ou do desejo. Marlyzinha, São Paulo-SP – ago2006

33- Sobre “A gota d’água”…só te digo…vai sacar de mulher assim lá longe!!! Como é que a gente faz pros caras terem essa percepção que vc tem?? Queria um assim pra mim!!! Só me faz achar que vc tem uma alma hermafrodita… Bjs e bom final de semana!! Elaine Maria, Fortaleza-CE – ago2006

34- achei muito realistico, pois eu sou esse tipo de pessoa que ja traiu , mas viveu a cada vez esse dilema infernal de estar fazendo algo que para a minha criação conservadora era incrivelmente errado. mas por outro lado a minha minha mente altamente moderna queria fazer com urgencia. entendí toda a angustia do personagem tão bem, que cheguei a senti-la. sinceramente me deixou até triste. mas a intenção era essa né ? tocar na alma… Michelle Diamanti, Taranto-Itália – ago2006

35- Parabéns! pela tranquilidade empática a quql encontramos com tanto fluidez no texto. Marta Peixoto, Fortaleza-CE – set2006

36- Cara tu é demais, bá recebi por email de uma amiga o texto “A gota d’agua”, tu passaste exatamente o que uma mulher sente. Adriana da Silva de Souza, Porto Alegre-RS – set2006

37- criatividade junto com o talento e forma perfeita de juntar as palavras nesta cadência maravilhosa nos transporta para aventuras como a da gota d’água, mas sua experiência de vida deve ter uma contribuição significativa para tanta beleza. A beleza do seu trabalho faz com faz que meu íntimo busque transformar em um só a criatura e o criador! Este é o pecado capital dos fãs. certamente eu e mais trocentas mulheres teremos total identificação com este texto, pois a dúvida crucial deste sim e deste não já nos perseguiu em outros momentos de vida. bjs. Diva, Macapá – set2006

38- Crônica maravilhosa!!! Estória envolvente!!! A aventura que toda mulher deve sonhar, em seu íntimo, viver…Ler suas crônicas são ótimas!!! Beijos. Cynthia, São Paulo-SP – nov2006

39- Fala Kelmer! Blz? Confesso que ontem foi a primeira vez que li seus artigos, textos, desabafos, difícil definir… hummm…memórias sonâmbulas que fogem na madrugada gélida antes de serem acordadas pela realidade sem graça. Bom, li pela primeira vez ontem e hoje virei fã. E por que não virei fã ontem mesmo, quando devorei todos os textos com os olhos dilatados? Explico: ontem à noite encontrei alguns amigos no cubículo etílico que costumamos freqüentar. Mais do que uma simples reunião de temas cotidianos, debatemos a fragilidade do momento e oferecemos um trago de nossos traumas a quem estivesse disposto a encarar. Foi quando percebi que os textos que li esmagavam meu raciocínio, açoitavam minha defesa, guiavam minha cega convicção. Enquanto meus colegas de faculdade tropeçavam nos próprios cadarços e confessavam, friamente, “…o que ela quer? Um namorado ou uma padre, porra?” pensei quieto: “Putz! Preciso mandar um e-mail pro cara do O POVO! Aquele texto sobre a “razão” não quer ser dissolvido facilmente dos meus neurônios.” É isso, Kelmer! Mirando meus próprios rabiscos, como um faminto em meio a uma coxa de frango mal devorada, busquei os meus significados. A conclusão veio barulhenta: “Felipe, escreva menos e leia mais!” Abraço! Felipe Valério, Fortaleza-CE – nov2006

40- Meu Deus! Fantástico……..Ele se colocou bem no lugar de uma mulher tomada pelo desejo! Ficou linda a metáfora com o carro e a chuva!O desejo x razão…O molhado,a velocidade…E o desejo ensandecido a tudo guiando! A razão que vá foder tb! Mary Mundo, Orkut, Comunidade Mulheres Repensando Conceitos – jul2006

41- Difícil um homem saber como uma mulher se sente né? Porque é assim mesmo…quer,não quer,vai,não vai,deve,não deve… Até que chega a hora fatídica e não tem mais prá onde fugir.. Achei que a gente merecia um pouco de aventura. Morgana Cyber, Orkut, Comunidade Mulheres Repensando Conceitos – jul2006

42- adoro todos os textos do Ricardo,ele é mesmo um excelente escritor e um cara bem maluco. Já entrou no orkut dele? no álbum tem umas coisas bem interessantes.Me mato de rir com ele. Celinha, Orkut, Comunidade Mulheres Repensando Conceitos – jul2006

43- linnnndoooooooo…….. fiquei encantada… delioso ler a maneira como as emoções vão se digladiando… realmente beeemmm mulher!!! rsrsrs. Andréa, Orkut, Comunidade Mulheres Repensando Conceitos – jul2006

44- Me fez lembrar o trecho de uma música… …deixa chover, deixa a chuva molhar, dentro do peito tem um fogo ardendo que nunca vai se apagar… Clau, Orkut, Comunidade Mulheres Repensando Conceitos – ago2006

45- De onde tu tira essas coisas, quem te contou que assim… ai, Deus! Eu tenho medo de me ver sendo descoberta desse jeito… Isso com certeza ja aconteceu com alguma mulher, ou acontecerá ou acontece! Comigo acontece.. rs E essa parte é bem a minha cara: Tudo em seu ser se contradiz, uma célula quer ir, outra morre de medo. Sim e não. Verde e vermelho. Esse seu conto passa a ser o meu preferido. =) Beijos. PS: Voce me assusta…rsrs. Priscila Peres, Fortaleza-CE – abr2008

46- srsrsrsrsrs…vc é divino…dabolicamente divino…é redundante mas vou dizer …amo seus textos…sua fonte de inspiração deve ser louvada sempre…bjs meu escritor preferido… Laisa, Belém-PA – abr2010

47- Muito bom “A gota d’agua”, me descreveu. Me senti nua! Incrível teu conhecimento sobre a alma feminina. Coisa rara. Parabéns. Nina, Cricúma-SC – mai2010

48- No limite da Alma / A louca tempestade do desejo que verte / e desnuda a razão no momento da gota dágua / e o aroma vem, abarcando o sinal vermelho / com gosto de cereja ,,, Adorei o cinestésico fluído da gota !!! Márcia Costa, São Paulo-SP – mai2010

49- Tá bom que é meu preferido! Acho que já sei de cor algumas passagens. O texto mais sincero e honesto que já vi. E é cada situação que me vem… Beijo, encanto de criatura! Emília, Fortaleza-CE – mai2010

50- Querido amigo, Não pude me conter e estou aqui pra dizer que você descreve exatamente a minha alma que é super femenina. Estou vivendo uma paixão ou uma loucura de paixão e é exatamente como vc descreve com tanta riqueza de emoção. Esse amor que me queima a alma, que me deixa feliz por cada momento e quem foge e se esconde dentro da alma dele tão conflituosa me deixa cada vez mais cheia de desejo por ele…meus limites não tem limites e estou vivendo essa louca emoção e não sei pra onde vai…só não consigo ter raiva dele e me sinto como se estivesse responsavel por ele e tem mais tenho certeza que é uma missão , alias de outras vidas e me sinto tão impotente diante desse louco amor. A mistura de ternura e tesaõ me deixa sem razão…vou pela vida caminhado e deixando a vida seguir nosos caminhos…tenho uma alma apaixonada pela vida e pelas emoções… Maria, Fortaleza-CE – mai2010

51- Parabéns cara pelo conto. Muito bem escrito. Zé Netto, Fortaleza-CE – mai2010

52- Francamente falando você sabe das coisas. E eu uma menina assustada. Parabéns pelo texto. Christiane Oliveira, João Pessoa-PB – mai2010

53- já conhecia esse teu texto, que aliás é fantástico! beijos. Nina, São Paulo-SP – mai2010

54- Definitivamente gosto da sua forma de escrever! Acabei de ler tambem A gota dàgua… e estou sem palavras!!! Poxaaaa Kelmer muito bom!! Tambem gosto do Cerejas ao meio-dia. Aluska, Campina Grande-PB – mai2010

55- A gota d’agua me lembrou de uma certa tarde, ha mais ou menos uns 8 anos! Me ví ali,como se alguem descrevesse o que eu vivi. Selma, São Paulo-SP – mar2011

56- Você percebe um ponto interno de corrupção. Um sinal vermelho. “Não avançar” diz o aviso. É melhor cair fora e você sabe disso. É o momento certo de dizer não. Virar as costas e dizer não. Você detecta sua fonte de atração pelo proibido. E vai, está indo, está desobedecendo seu bom senso e se deixando levar. Maldita curiosidade! “E por que não fazer a escolha errada?” pergunto à mim mesma. “Você é uma idiota. Completamente louca e idiota” me respondo. Deve constar na minha ficha técnica: pessoa obsessiva Você não se importa. A lâmpada acende, pisca. Soa o alarme. Você ouve a sirene,sabe que ultrapassar significa perigo, que é um território minado. Mas você deixa detonar.  (Trecho de Filmes Proibidos, romance de Bruna Lombardi)

57- Uau “os limites existem para serem quebrados…” minha cara isso…amei. Paula Medeiros de Castro, São Paulo-SP – nov2011

58- Muuuuuito bom! Simone Marini, São Paulo-SP – nov2011

59- É de abrir o apetite para uma abordagem da Semiótica das Paixões… A hesitação (e a excitação) da personagem configura um estado de espera (Greimas), ou seja, o ponto zero do imprevisível percurso narrativo, o ponto, enfim, em que a paixão se instala. A manipulação recebeu um investimento discursivo dos mais oportunos, o que se exterioriza no emprego da segunda pessoa (“você” no gênero feminino). Tudo resulta numa diabólica manipilação da consciência em seu satânico papel de acusador (pois assim está na Bíblia). A gota d’água abrirá um novo estado passional. Qual? Não é preciso dizer, pois isso já seria outro ponto no conto que o leitor já construiu na sua imaginosa paráfrase mental. Valeu! Um abraço. Leite Jr., Fortaleza-CE – nov2011

60- “A gota d’Água” (pq ficar entre o sim e o não pode tirar o fôlego, mesmo! esse conto é marcante!) Jocastra Holanda, Fortaleza-CE – jun2012

61- O texto que indico, o meu favorito de Ricardo Kelmer é “A gota d’água”, adoro a forma como escreveu esse texto! escrevi um conto inspirado em “A gota dágua” e em experiências de uma montagem de um espetáculo. Samantha Pimentel, Campina Grande-PB – jun2012

62- o que gosto de verdade e sempre releio é “A Gota D’água”. Rosa Emília, Fortaleza-CE – jun2012


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