A imagem do século 20

Ricardo Kelmer 2000

Vimos nossa morada flutuando no espaço. Vimos um planeta inteiro, sem divisões. Não vimos este ou aquele país: vimos o todo

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Qual é a imagem do século 20 para você? Foi essa a pergunta que me fizeram. E fiquei dias e dias pensando. O século 20 é repleto de imagens marcantes: cinema, descobertas científicas, guerras, competições esportivas, maravilhas tecnológicas, o 14 Bis de Santos Dumont, Gandhi e a roda de fiar, aquela menina vietnamita correndo nua pela estrada bombardeada, aquele cidadão chinês a desafiar os tanques na Praça da Paz Celestial (o nome da praça, que ironia…), a ovelha Dolly… Tantas imagens, tantas coisas inesquecíveis. Acabei escolhendo duas imagens.

A primeira é o cogumelo atômico, a bomba jogada sobre Hiroxima e Nagasaki em 1945. A bomba atômica, a rosa com cirrose, sem cor, sem perfume, sem rosa, sem nada. Devemos guardar para sempre a imagem do cogumelo maldito em nosso álbum de recordações, para não esquecer que chegamos bem próximos de nos exterminar. A imagem nojenta da destruição de uma cidade e do assassinato de milhares de inocentes. A imagem suprema da estupidez humana.

O vergonhoso cogumelo atômico simboliza também mais uma mordida no fruto proibido do conhecimento, essa iguaria que sempre nos atiçará a curiosidade. O problema não é o fruto em si pois o conhecimento existe para ser acessado e a evolução sempre nos levará ao nível seguinte da informação. O problema é o que fazemos do conhecimento adquirido. Descobrimos o poder dos átomos e que ele pode nos ser útil ‒ mas descobrimos também que serve para exterminar populações inteiras num segundo apenas. Um segundo que deixou eternamente projetada, feito uma sombra na parede de nossa história, a estupidez e a vergonha de sermos humanos.

E a segunda imagem? Bem, ela não é vergonhosa, muito pelo contrário. Enquanto o cogumelo atômico nos entristece, essa outra nos enche o coração de esperanças num futuro melhor. É a foto da Terra, vista do espaço. A foto que os astronautas tiraram quando de sua chegada à Lua, em 1969. Naquele momento a humanidade, pela primeira vez na História, punha os pés fora de seu planeta e via a Terra de outro ângulo. A imagem é linda mas não é somente isso. Ali, naquele instante mágico, eternizado na fotografia, a humanidade botou a cabeça para fora de seu mundinho de divisões, superficialidades e mesquinharias e conseguiu, pela primeira vez… distanciar-se e olhar para si mesma.

E o que vimos? Vimos nossa morada flutuando no espaço. Vimos um planeta inteiro, sem divisões. Não vimos este ou aquele país: vimos o todo. Não vimos divisões de raças, culturas, credos e ideologias. O que vimos foi uma coisa só, feita de coisas diferentes, sim, mas uma coisa só. Vimos pela primeira vez o nosso planeta e descobrimos que ele é azul e é lindo, suspenso no espaço a flutuar pela imensidão do Universo. Ô momento iluminado! Quantas implicações filosóficas e metafísicas e sociológicas e econômicas e tudo o mais essa imagem de repente detonou!

Antes, muitos intuíram que por baixo da extrema diversidade corre o rio da unicidade. Mas a foto da Terra de repente mostrava isso no papel e resumia numa imagem tudo o que precisávamos urgentemente por em prática. Ficou claro, de um instante para outro, que vivemos num único lugar, ocidentais e orientais, negros, brancos, índios, amarelos, cristãos, judeus, muçulmanos, hinduístas. De repente ficou claro que não mais faz sentido nos massacrarmos e dividirmos o mundo em capitanias, e que devemos agora dar prioridade máxima àquela visão do todo em vez de privilegiar este ou aquele país, esta ou aquela cultura.

A partir dessa foto, a humanidade passou a pensar diferente a respeito de si mesma e do lugar onde mora. Deu-se um estalo no inconsciente coletivo. Ativou-se de vez o novo mito da unicidade. De repente nos vimos do alto e entendemos que, num mundo cada vez mais interconectado, tudo o que fizermos localmente terá consequências globais, mesmo que não as percebamos de imediato. Ficou claro que o planetinha azul é tudo que possuímos e que se ele adoecer, nós, como parte integrante, também adoeceremos. Ficou muito claro que o que fizermos a Gaia estaremos fazendo a nós mesmos.

As fronteiras geopolíticas, essas linhas artificiais que separam as pessoas em todo o mundo, simplesmente não existem naquela foto. Nela, o mundo está livre de divisões. Hoje, décadas depois, os blocos econômicos, a crescente indústria do turismo, as comunicações de massa e a internet cada vez mais acessível afrouxam ainda mais essas fronteiras, fragilizando a noção de país que possuímos. Essa fragilização causa em muita gente, principalmente nos mais velhos, certo incômodo e insegurança pois nossa noção de país e de identidade cultural foi construída à custa de muitas guerras e conquistas sangrentas e se encontra enraizada a ferro e fogo em nossas mentes. Dói ter de largá-la por uma noção planetária que ainda não sabemos como exatamente irá funcionar.

Dói, mas talvez não haja outra alternativa. O curso natural da evolução parece agora nos solicitar uma noção mais abrangente de nós mesmos e do lugar onde todos vivemos. Sei que o processo de globalização é irreversível e que, com ele, há o perigo de culturas inteiras serem devoradas pelos interesses comerciais, enriquecendo alguns poucos mas empobrecendo a espécie humana. Será um grande desafio que teremos de superar.

Por enquanto, fico com minha esperança nesse mundo sem fronteiras que nos revelou aquela foto tirada do espaço. Um mundo mais inteiro e harmônico, sem divisões internas a enfraquecê-lo. E é exatamente por causa dessa esperança que não morre que, entre as duas imagens, escolho a imagem da Terra, nossa casa vista do espaço, redonda e azul, como a imagem do século 20. E torço para que, no futuro, essa imagem simbolize o momento mágico em que o mito da unicidade foi finalmente despertado, feito uma revolução em massa que ainda está em seu início mas que não pode mais ser derrotada.
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Ricardo Kelmer 2000 – blogdokelmer.com

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em italiano

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L´IMMAGINE DEL 20o SECOLO

Ricardo Kelmer 2000

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Terra-01aQual è l’immagine del 20° secolo secondo te? Fra tutte le immagini del secolo, e ce ne sono state tante perché la tecnologia ha facilitato la loro divulgazione istantanea al mondo, quale sceglieresti per rappresentare questa fase della storia della nostra specie e del nostro pianeta?

Questa domanda mi è stata fatta qualche giorno fa. Sono rimasto a pensare per giorni. Il 20° secolo è pieno di immagini significanti: cinema, scoperte scientifiche, guerre, competizioni sportive, meraviglie tecnologiche, il 14 Bis di Santos Dumont, Gandhi che gira il “charkha”, la bambina vietnamita che corre nuda lungo la strada bombardata, lo studente cinese che sfida la fila di carri armati nella Piazza della Pace Celestiale (il nome della piazza, che ironia…), la pecora Dolly… Tante immagini, tanti avvenimenti indimenticabili. Finalmente ho scelto due immagini.

La prima è il fungo atomico, la bomba lanciata sulle città di Hiroshima e Nagasaki nel 1945. La bomba atomica, la rosa con cirrosi, senza colore, senza profumo, senza rosa, senza niente.* Dobbiamo tenere per sempre nel nostro album di ricordi l’immagine di questo maledetto fungo per non dimenticare che siamo arrivati molto prossimi al nostro sterminio. L’immagine ripugnante della distruzione di due città e dell’assassinio di migliaia di persone innocenti. L’immagine suprema della stupidità umana.

Il vergognoso fungo atomico simbolizza inoltre un morso in più al frutto proibito della conoscenza, il frutto che ci ha sempre acceso e accenderà la curiosità. Il problema non è con il frutto in sé perché la conoscenza esiste proprio per essere accessibile, il frutto ci aspetta sempre e l’evoluzione delle cose ci porterà sempre al livello successivo della conoscenza. Il problema è quello che facciamo con la conoscenza acquisita. Non esiste modo per fermare l’evoluzione del sapere; si tratta di una necessità della specie. Abbiamo scoperto il potere degli atomi e che loro possono esserci utili, ma abbiamo scoperto, inoltre, che servono per sterminare popolazioni intere, gente innocente, in un secondo soltanto. Un secondo che ha lasciato eternamente proiettata, come un’ombra sul muro della nostra storia, la stupidità e la vergogna di essere umani.

E la seconda immagine? Beh, lei non è vergognosa, al contrario. Mentre il fungo atomico ci rattrista, quest’altra ci riempie il cuore di speranza per un futuro migliore. È la foto della Terra vista dallo spazio. È la foto che gli astronauti hanno fatto nell’occasione dell’arrivo sulla Luna, nel 1969. In quel momento l’umanità, per la prima volta nella Storia, metteva i piedi in un posto fuori dal proprio pianeta, guardando indietro vedeva la Terra da un’altra angolazione. L’immagine è bella, bellissima, ma non è soltanto questo. Lì, in quel magico istante, raccolto eternamente in una fotografia, l’umanità ha messo la testa fuori del suo piccolo mondo di divisioni, superficialità e meschinerie e riuscì, per la prima volta…allontanarsi e guardare se stessa.

E che cosa abbiamo visto? Abbiamo visto la nostra casa che fluttua nello spazio. Abbiamo visto un pianeta intero, senza divisioni. Non abbiamo visto questo o quel paese: abbiamo visto un tutt’uno. Non abbiamo visto divisioni razziali, culturali, religiose o ideologiche. No. Quello che abbiamo visto è una cosa sola, fatta di cose diverse, sì, ma un’unica cosa. Abbiamo visto per la prima volta il nostro pianeta e scoperto che è azzurro e bellissimo, sospeso nello spazio che fluttua nell’immensità dell’Universo. Ah, che momento illuminato! Quante implicazioni filosofiche, metafisiche, sociologiche, economiche e tutto il resto quest’immagine ha fatto esplodere di botto!

Prima di questa foto molti intuivano già che sotto l’estrema diversità correva il fiume dell’unicità. Ma la fotografia della Terra improvvisamente mostrava questo sulla carta e condensava in un’immagine tutto ciò che dovevamo urgentemente mettere in pratica. In un attimo è stato chiaro che viviamo in un unico posto, tutti noi, occidentali ed orientali, neri, bianchi, indigeni, gialli, cristiani, ebrei, musulmani, induisti. Immediatamente è stato chiaro che non aveva più senso combattere fra noi e dividere il mondo in nazioni, e che dovevamo dare adesso la massima priorità a quella visione del tutto invece di privilegiare questo o quel paese, questa o quella cultura.

Dopo questa foto l’umanità iniziò a pensare diversamente riguardo se stessa e riguardo il luogo dove vive. C’è stato uno scatto nell’inconscio collettivo. Si è attivato definitivamente il mito dell’unicità. Improvvisamente ci siamo visti dall’alto ed abbiamo capito che, in un mondo sempre più collegato ed interconnesso, tutto ciò che faremo localmente porterà conseguenze globali, anche se non ce ne rendiamo conto nell’immediato. È diventato chiaro che quel pianetino azzurro è tutto ciò che possediamo e che se lui si ammala, anche noi, perché parte integrante, ci ammaliamo. È diventato molto chiaro che quello che facciamo a Gaia lo facciamo a noi stessi.

Le frontiere geopolitiche, queste linee artificiali che separano le persone in tutto il mondo, semplicemente non esistono in quella foto. Lì il mondo è libero da divisioni. Oggi, più di trent’anni dopo, i blocchi economici, la crescente industria del turismo, le comunicazioni di massa e l’internet sempre più accessibile allentano ancora di più queste frontiere, indebolendo la nozione di paese che tutti noi abbiamo. Questa debolezza provocò in molte persone, principalmente nei più grandi, un determinato disagio ed insicurezza certamente perché la nostra idea di nazione e di identità culturale è stata costruita a costo di molte guerre e di sanguinose conquiste e si trova definitivamente radicata nelle nostre menti. Fa male dover abbandonare questa nozione per una planetaria che non sappiamo ancora come funzionerà esattamente.

Fa male ma forse non esiste un’altra alternativa. Il corso naturale dell’evoluzione sembra che ci stia sollecitando una conoscenza più ampia su noi stessi e sul luogo dove tutti viviamo. So che il processo di globalizzazione è irreversibile e che, con lui, esiste il pericolo che intere culture siano divorate dagli interessi commerciali, arricchendo alcuni pochi ma depauperando la specie umana. Sarà una grande sfida che dovremo superare.

Per ora, rimango con la mia speranza in questo mondo senza frontiere rivelato da quella foto fatta dallo spazio . Un mondo più intero ed armonico, senza divisioni interne che lo indeboliscono. Ed è esattamente per questa speranza che non muore che, fra le due immagini, scelgo quella della Terra, la nostra casa vista dallo spazio, rotonda ed azzurra, come l’immagine del 20° secolo. E spero che, nel futuro, quest’immagine simbolizzi il magico momento in cui il mito dell’unicità è stato finalmente svegliato, come una rivoluzione in massa che è ancora all’inizio ma che non può più essere sconfitta.

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Ricardo Kelmer è scrittore, paroliere e sceneggiatore ed abita a São Paulo

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TRADUZIONE: Isabella Furtado – REVISIONE: Massimo Savigni

* N.T.: Tratto dalla poesia “ROSA DE HIROSHIMA” di VINICIUS DE MORAES.

Pensem nas crianças mudas telepáticas/Pensem nas meninas cegas inexatas/Pensem nas mulheres rotas alteradas/Pensem nas feridas como rosas cálidas/Mais, oh, não se esqueça da rosa, da rosa/Da rosa de Hiroshim,a a rosa hereditária/Da rosa radioativa, estúpida, inválida/A rosa com cirrose, a antirrosa atômica/Sem cor nem perfume/Sem rosa, sem nada.

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DICAS DE LIVRO
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> Iniciação à visão holística
Clotilde Tavares (Record/Nova Era)
Holística é um daqueles termos que de repente, quando você vê, ele já está por aí, na mídia e na boca das pessoas. Mas, cá pra nós, quem sabe mesmo o que significa exatamente isso? A professora Clotilde Tavares, que também é médica e terapeuta floral, faz um agradável passeio pelas noções básicas que formam o pensamento holístico, cada vez mais importante pra humanidade deste tempo.

> O novo paradigma
Walter de Souza (Cultrix)
À procura de entender a realidade, a humanidade fragmentou o conhecimento, valorizando as especializações. Isso trouxe conquistas indispensáveis, é verdade. No entanto já é visível a necessidade de voltarmos a reunir o conhecimento espalhado. É alentador ver que vários ramos da ciência já seguem a mesma direção. Nesta curta mas significativa obra, o autor nos revela os novos caminhos que já estão expandindo a consciência humana.

> O Tao da Física
Fritjof Capra (Cultrix)
Novas descobertas da f ísica quântica promovem um verdadeiro rebuliço na compreensão dos cientistas a respeito da realidade e muitos até se recusam a acreditar nas constatações filosóficas e metafísicas a que seus experimentos os conduzem. O físico Fritjof Capra mostra as impressionantes coincidências entre as novas descobertas da Física a respeito da matéria e as antigas filosofias orientais como o Taoísmo e o Budismo.

> O ponto de mutação
Fritjof Capra (Cultrix)
Prosseguindo em seus estudos, Capra mostra como as ciências já estão falhando por insistir em seguir o modelo newtoniano/descartiano de interpretação da realidade e sugere que a humanidade está vivendo uma decisiva transição em sua evolução. Especificando a situação de diversos ramos da ciência, como medicina, psicologia e economia, Capra escreveu uma obra indispensável ao estudioso do pensamento holístico e dos novos paradigmas que lentamente estão, não substituindo, mas complementando os atuais.

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Uma resposta para A imagem do século 20

  1. Muito bom texto RK. Fico com a imagem do nosso lindo planeta também.
    abraço!

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