O presente de Mariana

15/11/2008

15nov2008

.

A cabocla Mariana, entidade da umbanda, propõe noivado ao moço Dedé. Ela garante estabilidade financeira, mas, em troca, exige fidelidade absoluta


GuiaDeSobrevivenciaCAPA-1b.

Fantástico, mistério

.

Este conto integra o livro Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos

.

.

O PRESENTE DE MARIANA

.
ESTAMOS FAZENDO DEZ ANOS de casados, eu e Mirley. É uma mulher incrível, faço questão de lhe dizer, e continua bela e fascinante como no dia em que a conheci. Para comemorar a data, viemos passar o fim de semana em nossa casa de praia. Trouxemos vinho, velas aromáticas e nossos discos preferidos. Dez anos de alegrias. Dois filhos maravilhosos. Houve dificuldades, é claro, mas nosso amor superou tudo.

Neste momento, Mirley está na praia com as crianças. Preferi ficar aqui na rede da varanda, escutando Julio Iglesias, olhando as árvores do terreno, me deliciando com o vento, o som chacoalhento que ele faz nas folhas. Dez anos. Tantas coisas vividas…

Recordei fatos, sensações, dizeres e pequenos eventos banais. Recordei os dias difíceis, um fraquejando, o outro segurando a barra… Ri sozinho de tantos encontros e desencontros, interessantes acasos e as brigas homéricas que o tempo sempre faz tornarem-se ridículas. Em dez anos de convivência acumula-se o inevitável pó das coisas corriqueiras, eu sei, mas um olhar ainda apaixonado, acredite, é capaz de captar poesia por trás da mais empoeirada rotina.

E foi nesta manhã, aqui na rede a vasculhar o passado, que súbito me veio a lembrança de Mariana. Foi como se um vento soprasse a areia de cima do acontecimento esquecido. Soprou e surgiu Mariana, ela e seu jeito gracioso de menina, o sorriso franco… E eu recordei tudo.
.

ERA UMA QUARTA-FEIRA, o dia em que botavam mesa na casa de dona Neide, uma médium conhecida no bairro. Joca perguntara se eu gostaria de conhecer uma sessão de umbanda manauara, eu disse que sim e lá fomos nós.

Eu havia deixado Recife para ir morar em Manaus, onde investira todas as minhas economias num negócio de exportação. Minha namorada Mirley foi comigo, mas infelizmente não se deu com o clima da região e voltou. Eu fiquei, eu e a promessa de que em breve faria algum dinheiro e voltaria também. Mas por aqueles dias, quase um ano depois, os negócios seguiam muito difíceis e o dinheiro e a esperança cada vez mais curtos. As perspectivas não eram nada positivas. E a saudade de Mirley me incomodava demais, feito um espinho encravado na alma. Sem ela ao meu lado, tudo era mais difícil de suportar. Quem sabe então alguma entidade poderia me dar uma mãozinha?

Formou-se a mesa. Estava concorrida a sessão daquela noite, algumas pessoas tiveram de ficar em pé, ao redor. Como era minha primeira vez, deixaram-me sentar, e bem ao lado de dona Neide, a médium, uma senhora muito distinta, corpo moreno e mirrado, cabelos e olhos bem pretos. Num canto da sala ficava a mesa do congá, e nela pude distinguir imagens de Jesus Cristo, são Jorge, são Sebastião, são Cosme e são Damião e a da Virgem. A médium pediu a bênção de Oxalá, do mestre Jesus, da entidade responsável pelo terreiro, que não lembro mais quem era, e de alguns orixás.

Nunca acreditei nessas coisas, acho que se pode explicá-las pela autossugestão. Mas como sou tímido, aquela experiência nova me deixou pouco à vontade. Via as pessoas expondo seus problemas às entidades e aquilo me soava estranho. Vi que umas conversavam ao ouvido delas, reservadamente, mas nem assim arrumei coragem. Sentia-me ridículo só de me imaginar falando ao ouvido de um imaginário preto velho baforando fumaça de fumo de palha, com aquelas pessoas fazendo um fundo sonoro de cantigas meio desafinadas.

Por ocasião da visita das entidades não senti nenhuma mudança mais significativa na médium. Observava-a com discrição, mas atentamente, procurando falhas ou comprovações do além. Uma coisa, porém, me chamou a atenção: foram as sete doses, isso mesmo, sete doses de cachaça que ela tomou durante a visita de um caboclo não-sei-quem. Sem falar nas cervejas que outras entidades pediram e tomaram. Pela lógica, dona Neide, com sua fraca compleição física, terminaria a sessão bastante embriagada.

Foi no fim que Mariana apareceu. Eu já interpelava Joca de canto de olho, demonstrando minha impaciência, quando dona Neide mais uma vez estremeceu, fechou os olhos e entrou em transe. De imediato percebi uma fragrância suave no ambiente, um cheiro de madeira, de mato fresco, e olhei discretamente ao redor para ver quem estaria usando perfume tão agradável.

Todos saudaram a entidade que chegava.

– Salve, Mariana.

– Salve, cabocla Mariana. Bem-vinda.

– Bem-vinda, Mariana do cabelo cor de telha.

– Salve, salve! – dona Neide respondeu, falando para todos. E percebi que sua voz se tornara mais juvenil.

– Quanto tempo que não aparece, Mariana.

– Êta, hoje tá cheio. Gente nova, homem bonito, que bom. Êta, felicidade!

Achei aquilo tudo ridículo e tive vontade de rir. Nesse exato instante, porém, o olhar de dona Neide cruzou com o meu. E tomei um susto. Aquele não era seu olhar, era outro. Estava diferente, mais brilhante, mais vivo. Tentei desviar, incomodado, mas algo me impediu.

– Esse é meu amigo Dedé – Joca tratou logo de me apresentar. – Tá vindo pela primeira vez.

– Tem um olho bonito, ele – dona Neide falou, meio séria, meio sorrindo.

Fiquei sem saber o que dizer, as atenções todas sobre mim. Procurava algo para fazer com as mãos sobre a mesa e evitar os olhares, principalmente o de dona Neide. Era estranho: dona Neide continuava ali, ao meu lado, mas ao mesmo tempo… não parecia ser ela. Não podia ser ela.

– O moço é encabulado, é? – ela perguntou, falando a poucos centímetros de meu rosto. Tinha um olhar meigo, mas nele havia qualquer coisa de dominador. Era algo sutil, mas que prendia meu olhar. Ela tocou meu rosto, sorriu e se virou, buscando os velhos conhecidos da mesa. Respirei aliviado.

Dona Neide, ou Mariana, cumprimentou a todos os presentes. Pude perceber que se demorava mais nos homens. Pediu notícias sobre conhecidos, perguntou sobre um e outro, riu de casos e se divertiu com uma confusão ocorrida dias antes na rua. Eu estava tão sem jeito com a situação que nem lembrei de pedir que também desse uma forcinha nos meus negócios. Contentei-me em admirar seus modos graciosos e seu bom humor. Decididamente, era uma entidade cativante.

Havia algo, porém, que me chamava a atenção desde o início de seus falares. Ela perguntava por seu noivo fulano e seu outro noivo beltrano, e pelo jeito parecia ter muitos noivos. Curioso, cutuquei Joca e ele me explicou, falando baixinho ao meu ouvido:

– A cabocla Mariana não morreu, foi encantada, com 17 anos e meio. Ela é muito bonita. Tem a pele branca e o cabelo ruivo, da cor de telha. E o olho azulzinho. Quando se engraça de um homem, pergunta se ele quer ser noivo dela. Homem que é noivo de Mariana consegue o que quiser nos negócios, sobe rapidinho na vida.

Senti um frio no estômago. Ajeitei-me na cadeira, mais para perto do meu amigo.

– Meu irmão é noivo dela. Tu conheceu a loja dele, Dedé. Pois dois anos atrás não tinha nem onde cair morto. Enriqueceu rapidinho.

– E o que faz ela se engraçar de um homem?

– Ah, não sei. Ela gosta e pronto.

– E o que ela pede em troca?

– Ela é ciumenta, exige exclusividade total. Homem que noiva com Mariana não tem mais mulher nenhuma.

– Mas… como assim?

Alguém fez psiiiiuuu… Sorri um pedido de desculpas e me recompus. Mas o assunto era irresistível.

– Ela estraga qualquer xodó teu – prosseguiu Joca. ‒ Olha aquele ali, o Luís. Noivou com ela. Foi ele quem comprou esta casa e deu de presente pra dona Neide fazer as sessões. Era um pé-rapado e hoje é dono de supermercado. Em compensação nunca mais se ajeitou com mulher nenhuma, Mariana sempre estraga o namoro.

– E não dá pra desfazer o trato?

– Não. Tem que ser muito macho pra noivar com ela.

– Pois eu topava um negócio desse.

– Tu não é doido!

– Se ela me arrumar dinheiro, eu vou embora daqui e ela não me encontra nunca mais. Caso com Mirley e ainda fico com dinheiro no bolso.

– Ela não te deixa sair daqui, Dedé. Tu não sabe o poder dessa menina, tu não sabe.

Já não adiantariam os conselhos. Eu estava tomado por um estranho frenesi. Entrara ali sem acreditar em nada daquilo, mas agora estava disposto a abrir uma brecha em minha incredulidade para a cabocla Mariana se ela fosse realmente capaz de me tirar do sufoco em que eu me encontrava. Quanto à questão dela estragar relacionamentos, bem, isso pra mim já era demais, não dava para acreditar.

– Antes de eu ir embora, queria conversar com este moço aqui… – Mariana virou-se para mim subitamente, me pegando de surpresa. – Não precisa me dizer que a vida não anda fácil pra ti, né? Moço honesto, trabalhador… Vem de longe, né?

Concordei com a cabeça. Era impressionante seu olhar. Eu me sentia envolto por um estranho carinho, uma água morna, aconchegante… um cheiro gostoso de mato fresco…

– Aposto que deixou namorada chorando, não foi?

Sorri encabulado.

– Sabe que a primeira coisa que elas reparam é no teu olho bonito?

Senti as faces quentes de vergonha.

– E sabe olhar do jeito que mulher gosta.

Eu não soube o que dizer.

– Precisa só respeitar um pouquinho mais as entidades. Eu sei que tu é inteligente. Mas com as entidades ninguém pode.

Falou e tocou meu braço. Decididamente não era a mão de dona Neide. Era a mão macia de uma garota.

– Mas eu respeito… – tentei consertar, incomodado pela exposição de meus secretos pensamentos.

– Então respeite mais um pouquinho que não faz mal. Tu sabe muita coisa. Mas ninguém sabe tudo.

Fiquei em silêncio, cada vez mais nervoso. Reprimenda de entidade, quem diria.

– Não sabe, por exemplo, ganhar dinheiro.

Ela falou e riu. E era uma risada de menina.

– Se quiser, Mariana te ensina.

No silêncio que se fez, escutei as batidas de meu coração. O que ela estava mesmo propondo?

– Ele não tá interessado, Mariana – interrompeu Joca, batendo amavelmente em meu ombro.

– Verdade? – ela perguntou, os olhos nos meus. E por um segundo me pareceram azuis.

– Bem… eu…

– Teu caso não é sem jeito. Só umas coisinhas que estão emperradas.

Mariana prosseguiu me olhando, séria. Nesse momento senti algo estranho, uma leve sensação de torpor…

– Pra mim é fácil resolver.

– Em quanto tempo? – eu quis saber. Ela tinha mesmo olhos azuis. Ou eu já estava vendo coisas?

– Mais rápido do que tu imagina.

Eram azuis sim. Um azul límpido, suave, quase uma carícia. Não era impressão – eu via. Não sei como. Mas eu via.

– Simpatizei contigo.

E o cabelo comprido, cor de telha. A pele branquinha, o jeito de menina levada. Não me peça para explicar – eu via.

– Mariana, ele não tá interessado – Joca nos interrompeu novamente.

– Tu continua despeitado, Joca. Só porque eu nunca quis ser tua noiva. Sabia, Dedé? Sabia que ele pediu pra noivar comigo e eu não quis?

Olhei para o meu amigo. Aquilo ele nunca me dissera.

– Faz muito tempo, Mariana. Eu nem sabia o que tava fazendo.

– Por isso que ainda hoje tá nessa situação, pedindo dinheiro emprestado pro irmão. Nunca sabe o que tá fazendo.

– Você sabe que eu tô sem emprego.

Pensei em meu amigo Joca. Era mais velho que eu e já tentara muita coisa na vida. Nada dava certo. Os amigos estavam sempre lhe dando uma força. Parecia ter o estigma dos fracassados. Mariana teria visto isso nele? Por isso não aceitou noivar?

– Dedé? – ela me chamou. – Olhe, semana que vem eu volto. Pense com carinho porque eu só proponho uma vez.

– Isso é verdade – um homem falou por trás de mim. – Se não aceitar, ela não dá outra chance não.

– Espere… – segurei seu braço. – Eu aceito.

Mariana abriu de novo seu sorriso lindo. Seus olhos azuis brilharam. Ela pegou minha mão, pondo-a entre as suas, beijou-as, olhou-me firme e falou:

– Eu ainda não perguntei, moço. Mas pergunto agora. Tu quer ser meu noivo?

Pensei em Mirley, no quanto gostava dela. Ela me perdoaria? A causa pelo menos era justa. Por um segundo senti que meu futuro estava se decidindo naquele exato segundo e que qualquer que fosse a decisão tomada, não haveria como voltar atrás. O olhar de Mariana estava no meu e era como ser ternamente abraçado… Eu já não estava na sala. Estava com ela, caminhando pela floresta, Mariana e seu vestido branco, o belo cabelo ruivo numa trança caindo no ombro, nós dois rindo, nós dois molhando os pés na água fria do igarapé, nossas mãos juntas, os corpos juntinhos, seu rosto perto do meu, mais perto, mais pertinho, sua boca, nossas bocas…

– Ele vai pensar, Mariana – Joca falou, me fazendo voltar à mesa. – Ele vai pensar direitinho e quarta-feira dá a resposta.

Olhei para ele com raiva.

– Então na quarta eu volto aqui pra saber – ela disse. E largou minha mão, virando-se para se despedir de todos.

Logo depois, dona Neide abriu os olhos e, distinta como sempre, sorriu para todos e pediu que uníssemos as mãos numa oração pelos mais necessitados e por todos os pedidos bem-intencionados que foram feitos. Eu a observei com atenção e não percebi nenhum sinal de embriaguez. Ela havia bebido muito naquela hora e meia e sequer apresentava hálito de bebida. Isso me impressionou, é verdade, mas não tanto quanto a transformação de dona Neide: em seu semblante, em sua voz e em seus gestos já não havia mais o mínimo traço da jovem Mariana. A cabocla de olhos azuis e do cabelo cor de telha, se alguma vez estivera ao meu lado, já não se encontrava mais ali.

Enquanto caminhávamos na rua, Joca me falou sobre o episódio do noivado frustrado com Mariana. Confessou que na época teve muita vergonha, mas que agora já havia superado. E, inclusive, agradecia todos os dias por Mariana não tê-lo querido, pois atualmente namorava uma garota ótima.

Eu queria saber sobre Mariana, estava inteiramente curioso.

– Ela se engraçou mesmo de ti. Mas não vai cair na besteira de noivar com ela, Dedé.

– Isso parece papo de noivo desprezado…

– Eu sei que parece. Mas me diga uma coisa: adianta ter muito dinheiro e nunca encontrar alguém pra dar o coração? Adianta?

– Eu vou pra bem longe. Ela não me encontra.

– Olha o que ela disse… Tu tem de ter mais respeito.

– Respeito eu tenho. Só não consigo é acreditar.

Joca riu, bateu em meu ombro e falou:

– Já vi muita gente chegar aqui em Manaus do jeito que tu chegou e voltar diferente, já vi.

E riu gostosamente.

Eu não me importava de voltar diferente, desde que estivesse melhor de vida. As opiniões de Joca não me demoveriam de meus propósitos. Noivaria com Mariana, juntaria um dinheiro e me mandaria dali. Já fazia planos até de como investir a grana. Uma soparia no Recife Antigo. Ou talvez uma fábrica de gelo em Olinda.

– Não vou poder ir contigo na quarta-feira – ele avisou. – Tu vai sozinho fazer essa besteira.

Naqueles dias sonhei duas vezes com Mariana – e a sensação agradável do sonho me acompanhava o resto do dia. Várias vezes senti seu cheiro, na rua, no ônibus… De repente, percebia o aroma gostoso de mato fresco e então sua presença tomava conta do ambiente, e algo em mim tornava-se mais calmo, mais compreensivo, mais doce.

Não tive jeito de conversar sobre isso com ninguém, nem mesmo com Joca. Com Mirley, nem pensar. O que lhe diria, que estava embevecidamente enamorado de uma entidade adolescente? Que pensava nela toda hora e tomava sustos quando via algum cabelo cor de telha passar na rua? Que me pegava desenhando seu nome em papel de guardanapo? Como dizer que noivaria com uma entidade de umbanda por causa de nosso futuro? Não, melhor não dizer. Seria um segredo meu e de Mariana.

Na quarta-feira seguinte eu estava lá de novo. E mais uma vez dona Neide recebeu as entidades. Como na sessão anterior, Mariana foi a última a aparecer. De novo o aroma suave de madeira, de mato fresco. De novo a voz alegre, a graça juvenil. Senti meu carinho por ela se derramando pela mesa. Admirei a beleza dos gestos simples, os mínimos detalhes. Como podia ser tão encantadora? Descobri que gostava dela. Muito.

Depois de conversar com algumas pessoas, Mariana finalmente virou-se para mim. E sorriu. E outra vez seu sorriso me trouxe o frescor de cachoeiras.

– Oi, moço bonito.

– Oi, Mariana.

– Pensou em mim esses dias, não foi?

– Pensei.

– Eu também pensei. Muito.

– Verdade?

Ela parou de sorrir e percebi tristeza em seu olhar.

– Olha, tenho uma coisa pra te dizer. Vem pra cá, vem… – E me chamou para que eu sentasse na cadeira ao seu lado, a que era reservada às conversas de pé-de-ouvido. Enquanto os outros entoavam uma cantiga, ela começou:

– Tu é mais protegido do que eu pensava. Vieram dizer pra eu não me meter contigo.

Não entendi.

– Olha, tu não pode ser meu noivo.

– Por que não? – perguntei surpreso.

– Tem entidade maior que eu, tenho que respeitar. Fiquei muito triste com isso.

Parecia o rompimento de um relacionamento profundo. Senti vontade de chorar em seu colo.

– Tu já tá protegido, moço bonito, não precisa de mim.

– Preciso – insisti. Já havia mandado às favas qualquer vergonha e discrição. – Preciso de você sim, Mariana.

– Vai, segue o teu caminho que é um caminho bom. Esse momento tá difícil, mas tu é homem forte e vai atravessar a floresta. Tenha fé.

De repente, lembrei de Mirley. E senti que não teria mais forças para continuar lutando por nós. Finalmente vencido, impotente. Era o fim.

– Olha, já que tu não pode ser meu noivo, vou te deixar um presente. – E segurou minha mão, me puxando mais para perto. Agora ela sussurrava em meu ouvido. – Pra tu não ter dúvida do tanto que gosto de ti.

Respirei fundo e encontrei forças para perguntar:

– Um presente?

– Se tu não puder vir na quarta-feira que vem, eu vou saber que tu aceitou o presente de Mariana.

Percebi uma lágrima descendo de seu olho.

– E mesmo que tu me esqueça, eu vou estar sempre intercedendo por ti, viu? Agora vai, moço bonito, vai.

E me empurrou delicadamente. Feito isso, despediu-se rápido de todos e se foi. Foi-se o aroma de mato fresco. Foi-se a água morninha.

Saí de lá arrasado, e fui procurar Joca. Não levava mágoa alguma de Mariana, pelo contrário, ela realmente me cativara e por ela eu era todo carinho. Mas não conseguia crer que fizera tantos planos em vão. E a famosa soparia no Recife Antigo? E a bem-sucedida fábrica de gelo em Olinda?

– Ela gostou de ti – Joca falou, me consolando. – E se gostou, vai dar um jeito de te ajudar.

Não adiantaram as palavras de Joca. Estava tão triste que não tinha ânimo para nada. Os dias seguintes foram um inferno, mal conseguia levantar da cama. Trabalhar era uma tortura. Até a fome perdi. Estava deprimido e decepcionado com tudo, com a vida e principalmente comigo mesmo por um dia ter acreditado que uma entidade iria dar jeito em minha vida.

Como meu telefone estava cortado e só religariam na segunda-feira, fiz disso desculpa para não falar com Mirley. Não queria que ela percebesse meu estado. Joca me chamou para sair, mas recusei: passaria o fim de semana trancado em casa. Não tinha vontade alguma de ver o mundo lá fora.

Na segunda-feira, o telefone foi religado, e à noite, assim que cheguei do trabalho, ele tocou. Era Mirley. Eu ainda estava triste, mas consegui disfarçar. Ela então disse que uma das filiais da empresa de um amigo seu, no interior de Pernambuco, ficara sem gerente e que ele pensara em mim para ocupar a vaga. Explicou que tentou falar comigo no fim de semana mas não conseguiu, e que talvez seu amigo já houvesse conseguido um substituto. Falei que estava interessado e Mirley me passou o telefone de seu amigo.

Desliguei o telefone ansioso. Seria um castigo enorme perder aquela oportunidade graças a um telefone cortado por falta de pagamento. Liguei para o número anotado, mas deu ocupado. Liguei de novo, liguei outra vez – sempre ocupado. Não consegui sequer levantar do sofá de tão ansioso.

Na centésima tentativa o amigo de Mirley enfim atendeu. Felizmente, a vaga ainda existia. O salário não era tão bom quanto eu gostaria, mas como a filial ficava numa cidade próxima a Recife, eu estaria pertinho de Mirley e poderíamos nos ver todo fim de semana.

Acertamos tudo na mesma noite. Ele tinha pressa e perguntou se podia marcar minha passagem para quarta-feira, dois dias depois.

– Sim, claro – respondi, decidido. – Pode marcar.

Desliguei o telefone e fiquei parado, ainda sem acreditar. Então subitamente entendi. Era o presente de Mariana…

As lágrimas desceram sem que eu pudesse evitar. Ali, no sofá, tive uma crise de choro como jamais tivera. Lembrava de Mariana entre lágrimas agradecidas e só conseguia balbuciar: obrigado, obrigado…

Na quarta-feira, no aeroporto, despedi-me de Joca e pedi que agradecesse por mim a Mariana. E que dissesse que eu jamais a esqueceria. Ele riu:

– Precisa dizer não. Ninguém esquece Mariana.

Na quarta-feira, durante a viagem, eu só pensava na sessão. Naquele momento, certamente estavam todos à mesa, olhando para as entidades no rosto de dona Neide. Sentia-me bem, confiante, a alma leve. Sabia, com toda a certeza que se pode ter, que aquele voo era o mais protegido do planeta.

No aeroporto de Recife, peguei minha mala e fui procurar por Mirley. Enquanto a aguardava, senti um aroma familiar, um frescor gostoso…

De repente, o toque em meu ombro. Meu coração gelou. Virei-me devagar, já sabendo o que veria. E vi. O cabelo avermelhado, a pele clara, os olhos salpicando azuis…

Nesse instante, um rio de águas mornas passou por mim e eu me deixei levar pelas águas envolventes, o cheiro fresco de mato, a contínua melodia da floresta… Minha alma foi tomada por uma doce sensação de arrebatamento, e enquanto dois lindos olhos azuis me acariciavam, tudo que eu conseguia fazer era sorrir, sorrir…

– Desculpe – ela disse, sem jeito. – Pensei que era outra pessoa.

– Como?… – falei, voltando ao aeroporto, sentindo novamente os pés no chão. A garota aguardou que eu dissesse algo, mas nada encontrei para dizer. Ela acenou para algumas pessoas mais adiante e depois sorriu para mim:

– Boa sorte. Tchau.

Fiquei parado, vendo a garota se afastar e correr para seus amigos. Não sabia o que pensar. Nesse instante, escutei meu nome e vi Mirley se aproximando. Confuso, ainda procurei pela garota ruiva, mas ela já havia sumido na multidão. Mirley me abraçou forte e chorou em meu ombro. Quase um ano que não nos víamos, tanta saudade…

– Que cara estranha é essa, Dedé?

– Foi a viagem… – respondi – Mas tá tudo bem. Já jantou?

Fomos embora rapidamente. No dia seguinte, eu já assumiria a gerência da filial, havia muito trabalho à frente. Uma vida nova me esperava, dessa vez bem perto da mulher que eu amava.

E quanto à garota do aeroporto, já sei, já sei. Você certamente está pensando que eu acho que aquela era Mariana. Pois era sim.

Não tente me dissuadir. Nem me peça lógica, eu não a tenho nem para mim. Basta-me a certeza, pura e agradecida, que ainda hoje trago aqui no peito, de que a menina faceira que de repente sorriu para mim no aeroporto de Recife era Mariana sim, a cabocla Mariana do cabelo cor de telha, encantada aos 17 anos e meio, e que naquela noite de quarta-feira aproveitou uma folguinha na sessão de dona Neide para me ver pela última vez e, ao seu modo, me desejar felicidades.

É esta a história. Num momento de angústia e desamparo, eu estive disposto a ser noivo de Mariana e lhe desafiar os poderes. Ela me queria também. Mas o destino não quis assim. Mariana então, em sinal de amor, me concedeu um presente, uma oportunidade única de mudar para melhor a minha vida – oportunidade que agarrei com todas as forças.

É esta a história de Mariana. Que até hoje trago no peito, banhada em água morna, no cheiro do mato fresco. Nos primeiros meses, ainda impressionado com tudo que acontecera, eu lembrava de Mariana todo dia e em silêncio agradecia. Aos poucos, fui esquecendo, absorvido pelo trabalho intenso, a família que crescia. À medida que minha vida se equilibrava, Mariana foi se tornando uma lembrança cada vez mais distante, até que sumiu. Talvez ela já não precisasse mais interceder por mim, minha vida finalmente seguia seu rumo natural.

Hoje, porém, dez anos depois, aqui na casa de praia, ela voltou em minha lembrança. E em meu coração. E me fez lembrar de tudo outra vez.
.

MIRLEY ACABA DE CHEGAR da praia com as crianças. Elas trazem um balde lotado de conchas. Laís diz que vai plantá-las no quintal para que nasça um pé de concha. Filipe repreende a irmã por acreditar nessas besteiras que os adultos dizem. Sento na beirada da rede e pergunto se eles apanharam sozinhos todas aquelas conchas ou se quem teve o trabalho foi a mãe deles. Filipe diz que uma moça os ajudou. Mirley diz que as crianças adoraram a tal garota de um jeito que ela jamais viu antes. Enquanto despeja as conchas no chão, Filipe me diz:

– Ela era bonita, pai. O olho da cor desse balde.

Olho para o balde azul, já sentindo algo estranho.

– E o cabelo vermelho, daquela cor.

Antes de Laís apontar para o telhado da casa, eu já havia entendido. Sinto meu coração gelar, um súbito vácuo na alma. Seguro-me à rede como se segurasse a vontade de sair correndo em direção à praia.

– A pele tão branca, Dedé… – Mirley diz, ligando a ducha do jardim para o banho das crianças. – Não sei como aquela moça aguenta ficar nesse sol quente.

Levanto da rede sentindo uma coisa no peito, uma alegria estranha, uma melancolia, uma excitação, tudo misturado. Caminho em silêncio até a sala. No balcão, sirvo uma dose de uísque e viro de uma vez. O ardor faz meus olhos marejarem. Um disfarce inútil para as lágrimas que não consigo controlar.

.
Ricardo Kelmer 1998 – blogdokelmer.com

.

.

GuiaDeSobrevivenciaCAPA-1bEste conto integra o livro
Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos

O que fazer quando de repente o inexplicável invade nossa realidade e velhas verdades se tornam inúteis? Para onde ir quando o mundo acaba? Nos nove contos que formam este livro, onde o mistério e o sobrenatural estão sempre presentes, as pessoas são surpreendidas por acontecimentos que abalam sua compreensão da realidade e de si mesmas e deflagram crises tão intensas que viram uma questão de sobrevivência. Um livro sobre apocalipses coletivos e pessoais.

.

vtcapa21x308-01Este conto integra o livro
Vocês Terráqueas – Seduções e perdições do feminino

Ciganas, lolitas, santas, prostitutas, espiãs, sacerdotisas pagãs, entidades do além, mulheres selvagens – em todas as personagens, o reflexo do olhar masculino fascinado, amedrontado, seduzido… Em cada história, o brilho numinoso dos arquétipos femininos que fazem da mulher um ícone eterno de beleza, sensualidade, mistério… e inspiração.


.

Saiba mais sobre a cabocla Mariana, os aspectos psicológicos e arquetípicos de sua crença: Mariana quer noivar

.

.

.

.

.

Seja Leitor Vip e ganhe:

Acesso aos Arquivos Secretos
Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer@gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer (saiba mais)

.

.

Comentarios01COMENTÁRIOS
.

01- Vc sabe que sou apaixonada por Mariana… Bateu comigo e foi a história que mais me pegou, do único livro seu que li. Saudades… Ana Karla Dubiela, Fortaleza-CE – jan2005

02- Caro Ricardo, Gostaria de fazer um comentário sobre o seu conto da cabocla Mariana, que vc diz ser uma entidade de umbanda. Gostaria de lhe informar que as entidades de umbanda, principalmente os caboclos, que são orixás menores não fazem este tipo de exigência dos filhos de fé da umbanda, ao contrário são entidades elevadíssimas. Este tipo de pedido saõ de entidades provinientes dos catimbós, macumbas e outros rituais que lidam com magia negra e pesada. Faço este comentário pois a umbanda sofre muito preconceito por ser confundida com este tipo de coisa. Inclusive seria muito rico para seus conhecimentos que vc lesse as obras sobre umbanda esotérica de Matta e Silva e Rivas Neto. O seu conto prejudica a corrente astral de umbanda pois ajuda a alimentar nos leigos o tabu e o preconceito contra essa religião tão bela. Gostaria de solicitar que vc não citasse a umbanda nele. Atenciosamente. Clícia Karine, Crateús-CE – jan2005

03- Olá amigo, estou escrevendo de Fortaleza, sobre este texto fabuloso, gostaria que soubesse o quanto eu me sentio atraído pela historia pra ser sincero eu passaria o dia todo lendo e não cansaria. Abraços de seu amigo, fã, etc. Eudes Martins, Fortaleza-CE – mar2005

04- Acima de tudo, pela licença de ler completa a história. Depois, porque ela é belíssima! Não concordo com a leitora que falou que era uma falta de respeito ás entidades. Acho que se não é uma aventura verdadeira meresceria ser… Não gostei, Ricardo. Adorei! Parabéns e que a cabocla Mariana sempre traga sucesso na sua vida. Afinal, quem ficou apaixonado com ela uma vez e escreveu essa bela homenagem tão cheia de sensibilidade e meiguice deveria gozar da proteção da encantada. Abraço e mais uma vez, muito obrigado pela sua gentileza. PS.- desculpe-me o meu português, por favor. Milton, Montevidéu-Uruguai – abr2005

05- Já estava curiosa a respeito do final.Pura ficção, será?Acho que os leitores sempre se indagam sobre isso.Até pq, vivenciei coisas tão estranhas qt essa. Talvez, descobrir nas histórias uma possibilidade de verdade,nos faça mais “íntimos” do autor. Ah..outra coisa: adoro ler td q tem a ver com Recife.Morei lá por 4 anos e costumo dizer que minha alma é recifense.Vou lá pelo menos duas vezes ao ano, rever os amigos e o meu mar de todas as cores. Mônica Burkle Ward, Niterói-RJ – mai2005

06- Olá Ricardo! Bem gostei bastante do texto e gostaria de saber até que ponto a história é veridica ou mesmo se a sua pessoa já esteve em contato com a entidade pois quem a conhece sabe que a atração pela entidade é verídica, eu mesmo quando a encontro na casa de um amigo meu aqui em São Paulo me sinto atraido, é impressionante o poder de sedução desta entidade cá entre nós é a mulher que todo homem gostaria de ter. D. Mariana como conhecemos aqui em São Paulo é muito bela! É a estrela do tambor de mina aqui de São Paulo. Vinícius de Almeida, São Paulo-SP – mai2005

07- oi , me chamo regina vilhena, sou do para debelem mesmo, e no momneto estou no japao, acredito em tudo qeu lir, pois conehco marina de longos anos e ate hoje nao consigo fazer nada em minah vida sem a orientação dela, sabia sua historia muit bonita, sau fe tbm, sabe caro amigo neste exato momneto eu estou passando aki por muita dificulada sem trablaho sem casa para morar, mas a minah fe em deus em primeiro lugar e em mariana nao perco, tenho comigo ja vairas historia de maraina que ja aconteceu comigo, coisas que ela me disse qeu aconteceria e aconteceu de verdade, sabe provas , coisas reaais ate essa minah viagem apra ca foi ela qeu me mandou sei qeu to pado mento pois como ela me me mandou um recado essa semana . me disse asssim qeu tem certo sofrimentos que ela nao pode evitar. agora to muito feliz em ter lido sua historia e espero nao perder o contato com vc. se quzier pode me adicionar no seu msn ok fica com e cabocla mariana dos anjos perreira . assim que eu chamo para ela proteja nos dois. Regina Vilhena, Japão – mar2006

08- Só tenho um comentário a fazer : Adorei sua estória sobre a Mariana!Um grande abraço! Sidiany Colares Alencar – Fortaleza-CE – abr2006

09- Estou acompanhando o conto da cabocla Mariana. Não sou entidade da umbanda mas também trago sorte e prosperidade pra quem eu gosto e exijo fidelidade, que não precisa ser absoluta, basta que eu não saiba dos acontecidos. Não me importo muito em ser traída, pior é ser deixada. rsrsrs. Marcia Sucupira, Fortaleza-CE – mai2006

10- Li o conto da Cabloca Mariana, primeiro achei longo, mas nao consegui parar de ler…. bom, muito bom. Fabiana Vasconcelos, Boston-EUA – abr2006

11- O que mais gostei da Mariana e aquela mistura balanceada de realidade com ficcao, aquela pulguinha atras da orelha para as coisas que nao sabemos explicar, que sao dificies de acreditar, mas estao la… e so dar uma chance pra elas acontecerem. Fabiana Vasconcelos, Boston-EUA – mai2006

12- eu li o conto! Criativo… abraços. Priscila Saboya, Fortaleza-CE – jan2010

13- tive o prazer de conhecer o Blog do Kelmer quando pesquisava sobre a cabocla Mariana e me deparei com o conto O Presente de Mariana….lindo, encantador. Danyela Freitas, Belém-PA – mar2011

14- Oi, Ricardo. Tô sem net em casa , mas vim numa lan so pra te falar umas coisas…. Desde ontem eu tava toda depre( nao sei por que/ na verdade, sei, mas nao vou falar aqui…rsrsrsr), acordei e tirei o “vocês Terráqueas” da estante e fui ver os textos que ainda nao havia lido…. voce me arrepiou com “presente de Mariana” , e pelo arrepio, pensei: nao lembro quanto paguei nesse livro, mas valeu a pena!!!! Irlane Alves, Fortaleza-CE – jul2011

15- conto do livro VOCÊS TERRAQUEAS legal. Weslen Queiroz, Juazeiro do Norte-CE – ago2011

16- Adorei este conto, demais! Ligia Eloy, Lisboa-Portugal – ago2011

17- Meu amigo, consegui enxergar várias metáforas e relacionar Mariana como um feminino idealizado no contexto da vida dele…..o momento de lhe dar com as dificuldades e a escolha de Mariana possivelmente como uma fuga…e ao mesmo tempo aquilo que ela representou e manifestou na vida dele como uma forma verdadeira do amor! Sem esperar algo em troca e simplesmente dar! O momento final do aeroporto e das conchas foi triunfal! O sentimento dele daquilo que nunca foi realizado mas, sentido….uma emoção que sobrepujaram as palavras!! Por aí meu amigo! Parabéns! Esse conto me tocou bastante! Cibele Cortez, Fortaleza-CE – dez2012

18- Advinha o nome da minha primogênita e o pq?? Goretti Strutzel, Fortaleza-CE – 2018

19- Historia fantastica. Aconteceu algo semelhante muitos anos atras comigo por isso me identifiquei com o conto. Wellington Lopes, Manaus-AM – 2018

20- Incrível!!! João Victor Queiroz, Fortaleza-CE – 2018

21- Mariana me conquistou desde a primeira leitura do conto. Ana Beatriz Soares Bezerra, Sobral-CE – set2024


Pequeno incidente em Hukat

15/11/2008

.

Integrante do Projeto Sapiens descobre irregularidades comprometendo a evolução da espécie humana e se envolve em rebelião contra Deus, o psicomputador.

Ficção científica, suspense

.

(Este conto integra o livro Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos)

Música sugerida para leitura: Enya – Cursum perficio

.

.

PEQUENO INCIDENTE EM HUKAT

.
ENTREI NA SALA DO ALTO COMANDO e fui recebido por dois diretores e pela própria Wakl Egkonie, a diretora geral do Projeto Sapiens.

– Prazer em conhecê-lo, monitor Yehdu Arhkan – ela disse, apertando minha mão, o semblante sério. – Primeiramente, parabéns por seu trabalho no Departamento de RPs. Funcionários como o senhor dignificam o nome da companhia.

– Obrigado, senhora.

Em quatro mil e quinhentos anos, poucas oportunidades eu tivera de ver pessoalmente Wakl Egkonie, a diretora geral do projeto de monitoramento de novas espécies a cargo da companhia InterPlan. E a cada vez ela parecia mais durona.

– O senhor sabe que há algum tempo Deus tenta reparar a instabilidade em seu sistema operacional, sem êxito. Achamos que pode ajudar-nos a resolver o problema.

Fiquei surpreso. Sim, como monitor do Departamento de Realidades Paralelas, as RPs, eu tinha conhecimento do problema da instabilidade de Deus. Mas como eu poderia ajudá-lo?

Construído em Vehz, o planeta de onde viemos, Deus era o mais avançado psicomputador de sua geração e o grande trunfo da InterPlan em sua luta para tornar-se a melhor companhia de monitoramento de novas espécies da galáxia. Um psicomputador é o centro vital de um projeto de monitoramento, capaz de comunicação psíquica com os integrantes do projeto e com a espécie monitorada, além de monitorar as realidades paralelas do cinturão dimensional do planeta e gerenciar a comunicação com a sede da companhia no planeta natal. No Projeto Sapiens, Deus fazia tudo isso com velocidade e precisão jamais alcançadas por nenhum psicomputador de nenhuma companhia, o que enchia de orgulho todos os vehzys.

O objetivo de um projeto de monitoramento é desenvolver uma espécie dominante em determinado planeta, controlando sua evolução psíquica para garantir que ela sobreviva às dificuldades naturais e possa, no futuro, estabelecer contato com espécies de outros planetas e integrar a União Galática. A espécie escolhida por Deus foi um hominídeo que duzentos mil anos atrás começava a destacar-se no planeta Terra por sua notável capacidade de adaptação: o Homo sapiens.

Junto com a primeira leva de integrantes do Alto Comando e da equipe de monitoramento, Deus foi enviado à base terráquea do projeto pelo portal dimensional que liga Vehz à Terra. A conexão com o Homo sapiens foi estabelecida pela captação dos registros psíquicos de uma amostra que representava os grupos mais evoluídos da espécie. A partir daí Deus poderia, sem que os humanos jamais se dessem conta disso, monitorar e influenciar a evolução psíquica da espécie até o prazo final do projeto, quando a base seria desativada e Deus e os vehzys voltariam para casa.

– Será uma honra poder ajudar, diretora. Mas como eu faria isso?

– Recentemente, Deus descobriu que Rehf Icul pode ser o motivo da instabilidade.

Outra surpresa. Rehf Icul era o desertor mais perigoso do projeto. E até mil anos atrás era meu melhor amigo.

– Como é de seu conhecimento, monitor, ainda não capturamos Rehf Icul e seu bando de rebeldes porque, por conta da instabilidade, Deus não consegue localizar a RP onde eles estão. Se Rehf for mesmo a causa da instabilidade, é mais um motivo para que seja urgentemente capturado. Como o senhor era seu melhor amigo, sabemos que pode ajudar-nos a localizá-lo.

Então era isso. Pretendiam usar meus registros psíquicos para capturar o maior traidor do Projeto Sapiens. Eu sabia o que poderia acontecer a Rehf se o pegassem: seria novamente preso, julgado por alta traição e condenado à pena máxima, ou seja, todos os seus registros psíquicos seriam transferidos para uma minhoca sintética que ficaria eternamente exposta no Museu do Monitoramento da companhia, em Vehz. A autoconsciência de Rehf seria mantida, o que significa que ele continuaria para sempre pensando como Rehf, mas estaria limitado às possibilidades físicas da minhoca. A pena máxima era a forma com que a InterPlan punia aos que traíam o projeto ‒ um duro castigo, é verdade, mas necessário e devidamente autorizado pelo Tribunal das Monitorias.

Eu e Rehf nos tornamos amigos ainda crianças, em Vehz, e foi por meio dele que passei também a me interessar por projetos de monitoramento. Para nossa felicidade, entramos juntos para a InterPlan, que já comandava o Projeto Sapiens. Seu profundo conhecimento em psicologia de novas espécies rapidamente despertou o interesse de outras companhias, mas a InterPlan soube mantê-lo, levando-o para o seu Alto Comando. Fomos transferidos para a base terráquea na mesma época, há três mil anos, eu como monitor no Departamento de RPs e ele na direção do Departamento Humano, substituindo o antigo diretor que se aposentara. Entretanto, Rehf começou a discordar de algumas decisões de Deus e perdeu o cargo. Como insistia em discordar e divulgar suas ideias subversivas, foi diagnosticado com a Síndrome de Ohj e passou a receber tratamento psiquiátrico. Um dia, durante uma visita que lhe fiz no hospital, ele me disse que se Deus prosseguisse errando, logo a humanidade exterminaria a si própria, o que poderia significar o fim do projeto e um imenso prejuízo para a InterPlan, além do desperdício de uma espécie com excelente potencial. Aquilo obviamente era uma blasfêmia, mas relevei sua opinião, pois era evidente que ainda não estava curado, e respondi-lhe que não se preocupasse, pois Deus era infalível e sabia o que fazia. Foi a última vez que o vi, pois no dia seguinte ele foi enviado para a prisão de segurança máxima na RP de Groor, onde os presos ficam incomunicáveis, e então entendi que seu caso era mais grave do que eu imaginava. Por medida de precaução, junto com ele foram enviados todos os pacientes que também sofriam da síndrome, doze ao todo, entre homens e mulheres. Oitocentos anos depois, Rehf liderou uma rebelião e, conhecedor dos portais que interligam as RPs, fugiu de Groor com os outros doze e desde então estão desaparecidos. Foi assim que perdi meu grande amigo.

Sim, é verdade que nos últimos tempos os humanos nos deram alguns sustos: fanatismos religiosos, guerras nucleares e desequilíbrio ecológico fizeram várias vezes o alarme soar na base. Isso, porém, deve-se a uma tendência autodestrutiva da espécie, existente desde antes do projeto, mas que, graças a Deus, está sob controle.

– Somos cientes dos riscos que envolvem as missões de emergência, monitor Yehdu, esta em especial – prosseguiu a diretora geral, olhando-me firme nos olhos. – Por isso estamos dispostos a recompensá-lo à altura. O senhor nos leva ao vehzy traidor e em troca nós lhe concedemos a imediata graduação em monitoramento. E quando retornar da missão, terá também a direção do Departamento de RPs.

Por essa eu jamais esperaria. Quando alguém entra para um projeto de monitoramento, sabe que terá muito serviço pelos próximos cinco mil anos – um quarto do tempo médio de vida de um vehzy – antes de se aposentar. E sabe também que chegará no máximo ao cargo de monitor graduado, pois a direção dos departamentos é exclusiva do Alto Comando das companhias. O que a diretora Wakl Egkonie me propunha era algo inédito.

– Então, o que nos diz?

– Preciso pensar, senhora.

Para participar de missões de emergência era necessário ter os registros psíquicos totalmente monitorados por Deus. Isso significava que enquanto eu estivesse em missão, Ele acompanharia todas as minhas experiências sensoriais e mentais, ou seja, veria o que eu veria, escutaria e saberia de todos os meus pensamentos, sentimentos, sensações e intuições.

– Decida até amanhã. – Ela fez sinal e dois guardas se aproximaram. – Eles cuidarão de sua segurança, monitor Yehdu. E lembre-se: este é um assunto de segurança máxima.

Saí da sala, acompanhado dos guardas, e me dirigi ao prédio dos alojamentos. Entrei em meu aposento e os guardas posicionaram-se do lado de fora, um de cada lado da porta.

Sim, o Alto Comando poderia ter me chamado logo após a fuga de Rehf, duzentos anos atrás. Mas não o fizera por achar que Deus logo localizaria o fugitivo – o que estranhamente nunca aconteceu. Certamente, consideraram bastante a ideia de chamar um simples monitor a participar de tão sério assunto e, ainda mais, de oferecer-lhe um cargo no Alto Comando. Definitivamente, a situação era de urgência.

Eu entrara no projeto quatro mil e quinhentos anos antes, ainda em Vehz. Em quinhentos anos eu me aposentaria e voltaria para casa, para minha família e os amigos que lá deixei, e viveria até o fim da vida com comodidade. Porém, aposentando-me como diretor do Departamento de RPs eu seria quase um rei em Vehz. Isso compensava o alto risco da missão?
.

.

NAQUELA NOITE, sozinho em meu aposento, repassei algumas informações importantes. Se eu aceitasse a missão, não poderia esquecer nenhum detalhe.

Avatares. Todos os vehzys que trabalham na base dos projetos são avatares de si mesmos, ou seja, a autoconsciência de cada um fica temporariamente instalada num corpo físico criado à semelhança do da espécie monitorada, enquanto o corpo original permanece na sede da companhia, no planeta natal, em repouso total induzido. Se o avatar morre, o corpo original também morre, e vice-versa. Na base trabalham simultaneamente centenas de funcionários, cientistas e soldados, que se aposentam após cinco mil anos de serviço e são substituídos. Eles não têm qualquer contato com a espécie monitorada, mas os relatórios produzidos pelo psicomputador permitem o acompanhamento detalhado da evolução psíquica da espécie.

Realidades paralelas. Elas fazem parte do cinturão dimensional dos planetas e, assim como a base do projeto, não ocupam a mesma dimensão espacial do planeta, o que impede que elas sejam descobertas pela espécie monitorada. Podem ser pequenas como um asteroide ou grandes como a lua terráquea, e nelas a vida se desenvolve como no planeta, com algumas variações evolutivas em determinadas espécies. Instalada em alguma RP, a base é o centro de operações dos projetos.

Portais. As RPs do cinturão do planeta, inclusive a base, são interligadas por portais dimensionais, que se formam espontaneamente e funcionam como túneis de teletransporte em missões científicas ou de busca de desertores. Há portais na Terra, mas apenas a base tem acesso a eles, o que impede que os desertores que habitam as RPs teletransportem-se para o planeta, tenham contato com os humanos e causem ainda mais problemas.

Síndrome de Ohj. É uma doença típica dos projetos de monitoramento e acontece quando o monitor apega-se de tal forma à espécie monitorada que tem comprometida sua isenção profissional, chegando inclusive a envolver-se em atos de indisciplina. A síndrome é tratada no hospital da base, geralmente com êxito. O caso de Rehf era especial porque ele fora um integrante do Alto Comando e tinha informações importantes sobre o projeto – capturá-lo era uma questão de honra para a InterPlan. Apesar de não ter qualquer contato com Rehf desde sua ida para a prisão em Groor, eu lembrava sempre dele e lamentava que houvesse adoecido tão seriamente. Eu admirava sua coragem, mas ele era um traidor e merecia ser punido.

Deus podia contar comigo, como sempre. Eu aceitava a missão.
.

.

A SESSÃO DE RASTREAMENTO dos meus registros demorou alguns minutos, e o resultado indicou que Rehf muito provavelmente encontrava-se em Hukat, uma RP para a qual jamais houvera qualquer tipo de missão. O plano inicial era invadir Hukat, e eu iria junto com a Legião de Combate, mas ele mostrou-se arriscado demais, pois Deus não possuía nenhum dado sobre a RP. Por esse motivo, Ele decidiu que eu deveria ir antes. E sozinho.

Senti um calafrio de medo. Eu não era um soldado, e sim um funcionário burocrático do Departamento de RPs, que trabalhava organizando relatórios e jamais estivera fora da base. Agora, porém, teria que ir a uma RP desconhecida, entrando sozinho para não provocar suspeitas, usando falsa identidade, e deveria aproximar-me de Rehf o bastante para que Deus localizasse sua posição exata e autorizasse a invasão pela Legião de Combate. E eu teria que fazer isso em no máximo doze horas porque depois, por se tratar de uma RP ainda desconhecida, Deus perderia minha localização. Era uma missão muito perigosa, mas Deus tinha Sua atenção focada em mim e isso me deixava mais tranquilo. E muito honrado por servi-lo.

Pouco antes de partir na missão Hukat, recebi as honras da graduação diretamente de Wakl Egkonie, como ela prometera. Eu era agora um monitor graduado e receberia a direção do Departamento de RPs ao retornar. Sim, eu tinha plena noção no que estava envolvido: em toda a história do Projeto Sapiens jamais houvera tamanho empenho numa missão de captura.

Fui enviado a Hukat no início da manhã. A base agora encontrava-se em alerta total e Deus acompanhava todos os meus pensamentos e ações. Felizmente, cruzar o portal não demorou mais que alguns segundos. Infelizmente, porém, caí num deserto, no meio de uma tempestade de areia tão forte que escurecia o céu. Perigo.

Tarefa primeira: recuperar-se da tontura que vem após a entrada numa RP. Mas com aquela tempestade, como descansar? Após algumas tentativas, pus-me de pé. Situação de emergência, nível 3. Procurei proteger os olhos, o nariz e os ouvidos, mas era imensa a quantidade de areia. Emergência nível 4. Tonto e com a respiração cada vez mais difícil, tentei caminhar, mas a areia já me cobria as pernas. Emergência máxima. Tudo indicava morte iminente e fracasso total da missão.

Então vi o dorht à minha frente, essa espécie de ema peluda e alada, utilizada para transporte aéreo em algumas RPs. O dorht dobrou suas grandes pernas, abaixou-se e dele saltou um vulto negro.

– A não ser que saiba respirar sob a areia, aconselho-o a vir comigo agora.

Era uma mulher. Ela ajudou-me a subir no dorth e, com as forças que me restavam, abracei-a firme pela cintura. O animal esticou as pernas, correu alguns passos e levantou voo, enquanto eu fechava os olhos para protegê-los da areia. Tudo que eu desejava naquele momento era sair dali e respirar normalmente.

Alguns minutos depois alcançamos um oásis livre da tempestade e a mulher me ajudou a chegar a uma tenda, onde deitei numa esteira e desmaiei. Acordei uma hora depois. Sentada na areia à entrada da tenda, a mulher me observava. Vestia-se toda de preto, com calça, botas e uma túnica curta, além de um turbante que lhe cobria o rosto, deixando à mostra apenas seus olhos verdes. Ela me estendeu um cantil com água.

– Beba. Precisa se hidratar.

– Onde estou? – perguntei, sentando. Sentia-me bem melhor, mas um pouco confuso.

– Posto avançado do deserto de Hukat. Meu nome é Kirtl.

Deserto de Hukat… Aos poucos recobrei os registros, o portal, o voo no dorth… Missão Hukat. Registros intactos.

– Seu rosto me parece familiar – ela prosseguiu. – Como se chama?

Enquanto bebia a água, reparei que ela portava na cintura uma pistola de laser, de uso exclusivo das forças de segurança de Groor. Certamente, era um dos doze fugitivos. Perigo.

– Sakiz. – Meu nome escolhido para a missão. – Sou monitor do Departamento de RPs e acabei de desertar.

– Como posso ter certeza?

– Rehf Icul me conhece. Pode levar-me até ele?

– Por enquanto, não. Terá que ficar aqui comigo.

– Por quê?

– Estamos em alerta máximo. Deus planeja invadir Hukat.

Contive-me para não demonstrar surpresa. Como sabiam daquela informação? Eu precisava fazer com que me levasse até Rehf. E agora só havia um meio.

Saltei e joguei-me sobre ela, derrubando-a no chão. Rolamos até que eu ficasse por cima. No entanto, quando eu me preparava para tomar sua pistola, ela tocou-me o pescoço e imediatamente senti uma terrível câimbra nos músculos da garganta. Sem conseguir respirar, tive de largá-la e fiquei no chão, contorcendo-me de dor. Ela me algemou e foi sentar novamente à entrada da tenda.

– Devia agradecer por sua vida, monitor. Não escaparia daquela tempestade.

Sentei, respirando com dificuldade. Enquanto me recuperava, calculei que Rehf devia estar ali desde a fuga de Groor. Certamente, aprenderam a lutar na prisão. Talvez possuíssem mais armas trazidas de lá.

– Por que o Alto Comando o enviou para cá?

Continuei calado. Precisava rapidamente descobrir um meio de convencê-la a me levar a Rehf.

– Respeitarei seu direito de não falar, monitor, mas lembre-se que agora é meu prisioneiro. E que da próxima vez não serei tão boazinha.

– Ainda pode se entregar, Kirtl. E Deus lhe assegurará um julgamento justo.

– Se confia tanto assim na justiça de Deus, é porque realmente não sabe o que acontece nesse projeto.

A síndrome de Ohj. Ela fazia as pessoas perderem o respeito por Deus. Era lamentável.

– Por oitocentos anos fui prisioneira em Groor, esperando um julgamento que nunca veio. Oitocentos anos forçada a trabalhos pesados, e sendo obrigada a me prostituir para ter o que comer. Onde está a justiça de Deus?

Aquilo era uma blasfêmia.

– Se o que diz fosse verdade, Deus teria alertado o Alto Comando sobre tais abusos e…

– E o quê? Enviaria os Anjos para lá? – ela riu. – Os Anjos eram frequentadores assíduos de Groor, monitor. Eu me prostituía justamente para eles.

Anjos era um apelido desdenhoso para o Alto Comando. Se aquilo fosse verdade, então as informações provenientes de Groor estariam sendo filtradas antes de chegarem ao Departamento de RPs, e por isso eu as desconhecia. Evidentemente, era muito mais provável que ela estivesse mentindo.

– Os Anjos eram muito indelicados, monitor, faziam coisas detestáveis. É uma pena que meus irmãos vehzys tenham se transformado em meros registros ambulantes, sem sentimento. Mas a culpa não é só deles: a frieza e a arrogância de Deus, esse Deus que agora me escuta por meio de você, contaminaram todo o projeto, a ponto de esquecerem que ele é apenas um psicomputador. Na base, quando se fala seu nome, todos só faltam abaixar a cabeça.

Deus, frio e arrogante? Como ela podia falar assim? Eram termos tão infames que a simples menção me dava ímpetos de atacá-la.

– Monitorando a psique humana com essa prepotência, o psicomputador do projeto está levando a grande maioria dos humanos a crer em apenas um deus. E, além disso, a chamá-lo por seu próprio nome: Deus. Acha que isso é apenas coincidência?

Ela estava deliberadamente me provocando. Eram argumentos estúpidos, mas eu não podia perder o controle.

– Se os abusos que você relatou são verdadeiros, isso significa que Deus nos enganou a todos. Quem merece mais crédito, o mais avançado psicomputador da galáxia ou uma traidora do projeto?

– Acha então que inventei a história?

Não respondi, era inútil. Nesse instante, ela ergueu a túnica e começou a abrir o colete de couro que vestia por baixo. Perigo. Estado de alerta. Seu seio direito surgiu para meus olhos. O outro, no entanto, não apareceu. Em seu lugar estava uma enorme cicatriz, muito feia.

O asco me subiu à garganta e engoli seco. Seu seio parecia ter sido extirpado. Desviei o olhar. Aquilo não era verdade. Ela estava tentando me iludir.

– Apesar da delicadeza dos Anjos, monitor, hoje me sinto mais inteira que quando cheguei em Groor – ela disse enquanto fechava o colete. – Acredite nisso.
.

.

AQUELA SITUAÇÃO não podia continuar. Deus perderia minha localização em algumas horas e a missão seria abortada. Eu tinha que encontrar Rehf de qualquer maneira. E logo.

– Kirtl?

Ela estava do lado de fora da tenda, dando água para o dorth.

– Preciso ver Rehf.

– Impossível.

– Você certamente sabe que manter prisioneiro um monitor significa…

– Significa uma honra para mim – ela falou, me interrompendo. – Você é a nossa primeira visita oficial em Hukat. A propósito, sei que não foi sincero quanto ao seu nome. Como realmente se chama?

Já não havia motivos para continuar mentindo.

– Yehdu.

Ela virou-se, surpresa.

– Yehdu Arhkan? Departamento de RPs?

– Sim.

– Bem que seu rosto não me era estranho! – ela exclamou, enquanto entrava rapidamente na tenda. Para minha surpresa, abriu as algemas e soltou minhas mãos. – Venha, vou levá-lo a quem procura.

– Sério? Ao menos explique essa mudança tão brusca.

– Saberá logo.

Ela caminhou rumo ao dorht e eu a segui. Antes de montarmos, ela avisou, encostando o dedo em meu pescoço:

– Ainda é meu prisioneiro, monitor. Não esqueça.

Nenhuma vantagem em provocar conflito, afinal ela me levaria a Rehf. Porém, se ela sabia que Deus monitorava a situação, por que faria isso, arriscando a segurança de seu líder?

Sobrevoamos uma parte do deserto e chegamos a um outro oásis, onde o dorth pousou. Havia tendas e outros dorhts. E lá estavam também os outros fugitivos de Groor. Vestiam-se de modo parecido com Kirtl, estavam armados e a tensão no ar era quase palpável. Kirtl conversou reservadamente com um dos homens do bando e depois veio até mim.

– Como estou dando plantão no posto avançado, eu não sabia dos últimos acontecimentos na base. Por isso não sabia que era você quem viria a Hukat. Desculpe o mau jeito, Yehdu. Agora me acompanhe, por favor.

Aquele súbito respeito à minha pessoa me intrigava. Porém, o que era mais intrigante era o fato deles terem conhecimento sobre o que se passava na base. Como podiam saber?

Kirtl conduziu-me a uma rocha na qual entramos por uma pequena abertura. Descemos dezenas de metros por um estreito corredor iluminado por tochas e entramos numa sala de paredes de pedra. Enquanto eu me perguntava sobre como Rehf me receberia após oitocentos anos, vi algo que simplesmente não pude acreditar. Ocupando um espaço no canto da sala, vi um psicomputador.

– Rehf? – Kirtl falou. – Yehdu Arhkan está aqui.

Olhei ao redor e não vi ninguém. Então escutei:

– Yehdu… Meu velho amigo.

Avaliação imediata dos registros vocais. Checagem positiva: era mesmo Rehf. Porém, eu continuava sem vê-lo.

– Onde ele está? – perguntei a Kirtl.

– Rehf está na Terra. Mas por meio de Deusa pode se comunicar conosco.

Informação falsa. Não existiam portais de teletransportes entre a Terra e as RPs.

– Agora vou deixá-los a sós – ela disse, saindo da sala.

Aquele psicomputador ali, numa RP, no fundo de uma caverna, não fazia nenhum sentido. E o que era Deusa? Então, aos poucos, a imagem de Rehf surgiu no centro da sala num holograma de tamanho real. Ele estava vestido com uma longa túnica branca e sandálias. Seu cabelo crescera, chegava aos ombros. Tinha o semblante calmo e sorria, o mesmo sorriso amável que sempre tivera. Por alguns instantes, olhei fascinado para aquela imagem à minha frente. Era estranho rever meu antigo amigo, meus sentimentos estavam confusos…

– Talvez não esteja entendendo algumas coisas, Yehdu – Rehf falou, fazendo-me voltar à sala. – Posso esclarecer. Mas antes deixe-me dizer que estou muito feliz em reencontrá-lo, e que lembro sempre com carinho da nossa amizade.

– Gostaria de dizer o mesmo, Rehf – afirmei, reassumindo o controle sobre mim mesmo. – Mas você é um traidor do projeto.

– Compreendo seu ponto de vista.

– Que psicomputador é este?

– É Deusa. Irmã gêmea de Deus.

Deusa. Absolutamente nenhum registro. Ele mentia.

– Você é um ótimo monitor, Yehdu, e parabéns pela graduação. Mas duvido que receba a direção do Departamento de RPs.

Como ele podia saber de tudo aquilo?

– Você foi ingênuo de pensar que eles permitiriam isso. E de acreditar tanto em Deus. Mas age assim porque é um bom vehzy.

– Deus não me enganaria.

– Você não sabe tudo que envolve esse projeto, Yehdu. Não sabe, por exemplo, que o Projeto Sapiens original consistia de dois psicomputadores gêmeos, um na base representando o princípio yang e outro numa RP representando o princípio yin, os dois trabalhando em harmonia, complementando-se, como sendo um só.

– Você… está mentindo.

– Duzentos mil anos atrás o projeto foi iniciado com os dois psicomputadores, mas Deus, aproveitando-se de uma pausa para atualização no sistema de Deusa, convenceu o Conselho da companhia que ela deveria sair do projeto e que ele deveria atuar sozinho, inclusive porque, dessa forma, seria possível maquiar alguns dados do projeto perante o Tribunal das Monitorias, o que era ilícito, claro, mas significava muitas vantagens para a InterPlan. E o Conselho aceitou.

Deusa… De fato, eu sabia que no início do projeto havia dois psicomputadores, e que um deles, por apresentar sérios defeitos, fora desativado.

– Deus excluiu Deusa do projeto e ela foi desativada – prosseguiu Rehf. – Para Deus, sua irmã realmente deixou de existir. Desde então, o Alto Comando passou a basear-se apenas nos dados de Deus, ou seja, numa visão yang das questões, e, evidentemente, o equilíbrio psíquico do Homo sapiens rompeu-se com a negação da própria completude.

Enquanto olhava para a imagem de Rehf à minha frente, eu efetuava rápidas combinações de dados. Mas tudo era estranho demais e eu começava a ficar bem confuso. Rehf não estava na Terra, não podia estar, isso era impossível. Ele só podia estar em Hukat, talvez naquela caverna. Eu precisava ganhar tempo para que Deus o localizasse.

– Como você poderia saber de tudo isso?

– Quando ainda estávamos em Vehz, eu achava que o projeto corria perfeitamente bem. Assim como você, Yehdu, eu confiava cegamente em Deus e na versão oficial sobre a desativação do segundo psicomputador. Foi somente após chegar à base, monitorando os humanos de perto, que vi que a espécie estava unilateralizada em seu desenvolvimento psíquico, supervalorizando os aspectos masculinos e desprezando os femininos, e isso obviamente gerava crescente desequilíbrio na espécie e no planeta. Você certamente lembra dos meus protestos, que fui preso e que fugi de Groor com meus companheiros. Vim para Hukat porque tinha informações de que esta era a única RP que Deus não conseguia rastrear. E aqui encontrei o motivo: Deusa.

Senti estremecer algo dentro de mim. Por um instante, tive medo de que aquilo tudo fosse verdade.

– Após reativarmos Deusa, ela foi conectada a Deus, e assim tivemos acesso a todos os registros dele. É por isso que sabemos o que se passa na base.

– Mas como conseguiu despistar Deus durante duzentos anos?

– Deus mesmo o fazia. Sempre que localizava esta RP, a presença de Deusa o confundia a tal ponto que ele automaticamente rejeitava os dados. Deus realmente se convencera que sua irmã não existia.

Podia tudo aquilo ser verdade? Que outras coisas mais a respeito do projeto não constariam em meus registros?

– Infelizmente, Deus tornou-se obcecado pelo poder. Acha que conduz a humanidade no melhor caminho, mas ninguém, nem mesmo um psicomputador, pode estar num bom caminho enquanto renega sua própria natureza integral. Encantados com a aparente autossuficiência de Deus, o Conselho deu-lhe carta branca até mesmo para decidir sobre julgamentos e condenações, o que obviamente é uma temeridade. Porém, como ele maquia os dados do projeto, o Tribunal das Monitorias não sabe nada sobre os absurdos que são cometidos.

Eu estava atônito.

– Felizmente, conseguimos reativar Deusa e ela reconectou-se à psique da humanidade, o que fortaleceu os aspectos femininos, mas é preciso mais. Foi justamente esse maior equilíbrio psíquico do Homo sapiens que gerou a instabilidade no sistema operacional de Deus. Para repará-la, ele só tem uma opção: voltar sua atenção para cá. Foi o que fizemos.

– Então minha vinda a Hukat… foi uma armadilha para Deus?

– Prefiro dizer que foi um remédio amargo. Trazendo você aqui e forçando Deus a reconhecer de novo a existência de Deusa, ele entenderá que precisa reincluí-la no projeto. Assim, a espécie humana será salva da destruição iminente e Deus seguirá trabalhando como no início, junto com sua antiga e legítima parceira. Evidentemente, o Conselho da InterPlan, em Vehz, não gostará nada disso, pois terá que se explicar com o Tribunal das Monitorias.

Os dados não batiam. Eu não sabia o que deduzir de tudo aquilo. Ao mesmo tempo em que me sentia traído por Deus, e para mim isso era algo impensável, tinha medo de estar sendo enganado por Rehf.

– Você está mesmo na Terra?

– Sim. Escolhi uma região no Oriente Médio pela semelhança com Hukat. Ainda estou me adaptando, mas tem sido uma experiência gratificante viver entre os humanos. E em breve meus doze companheiros virão para cá.

– Mas… isso é impossível.

– Deus nos ensinou que o único portal para a Terra fica na base, não é? Aí em Hukat há um também. E vim para a Terra porque se Deus quiser me capturar, precisará intervir diretamente no planeta, enviando a Legião de Combate, o que ele só fará se estiver totalmente louco, já que isso levará o planeta ao completo caos. Os humanos descobrirão a verdade e isso poderá ser o fim do projeto.

– Lamento informar, Rehf, mas acho que esqueceu um detalhe. Em último caso, Deus pode fazer a desconexão do avatar com o corpo original. Se isso acontecer, você despertará em Vehz e todo o seu esforço será em vão.

– Deusa agiu primeiro. A desconexão reversa já foi feita.

Desconexão reversa. Nenhum registro.

– Mais uma nova informação para você, Yehdu. Só Deus pode fazer a desconexão do avatar com o corpo original, é verdade, mas é possível transferir em definitivo a autoconsciência para o avatar, o que se chama desconexão reversa, e só quem pode fazer isso é Deusa. Meu corpo original está morto em Vehz, e meu avatar agora é meu único corpo. A mesma coisa ocorreu com meus companheiros. Agora somos também humanos e nosso mundo é a Terra. E Deus, coitado, até agora está tentando entender o que aconteceu.

Aquilo tudo era tão absurdo que eu não conseguia mais raciocinar.

– Sua chegada nessa caverna, Yehdu, obriga Deus a aceitar de novo a existência de Deusa. Se ele preferir esconder a verdade do Alto Comando, que ainda acha que Deusa está desativada, não poderá ordenar a invasão de Hukat. Sem poder invadir Hukat e sem poder intervir na Terra, o que resta a ele?

O que Rehf dizia fazia sentido. Mas não podia ser verdade…

– Deus está me vendo e ouvindo agora, Yehdu. Como o notável psicomputador que é, ele sabe que a saída para tais dilemas é vivenciar a dor dilacerante dos opostos até o fim para, então, poder nascer a terceira via. Ou seja, só lhe resta entregar os pontos e reconduzir Deusa de volta ao projeto. A terceira via soa como a própria morte, eu sei, mas na verdade é sempre um renascimento.

Quem falava agora era o sábio Rehf Icul que eu sempre admirara, uma das maiores autoridades da galáxia em psicologia de novas espécies. De repente, era como se estivéssemos em Vehz, cinco mil anos atrás, eu escutando-o falar sobre projetos de monitoramento, o cuidado e respeito que devia-se ter pelas novas espécies… Como eu pude simplesmente esquecer de tudo que ele me ensinara?

– Para o Alto Comando, eu e meus companheiros sofremos da síndrome de Ohj. Mas nós sabemos que quem está doente é Deus. E agora que você também sabe, chegou o momento de decidir seu destino. Se quiser juntar-se a nós, será muito bem vindo.

Eu não sabia o que responder. Não sabia sequer o que pensar.

– Tenho de deixá-lo agora, Yehdu.

– Espere. Nós ainda… nos veremos?

– Sinceramente, não sei, pois é impossível prever o que Deus fará.

Enquanto o holograma sumia, eu fiquei ali, olhando para o vazio, zonzo com todas aquelas informações. Se Rehf realmente encontrava-se na Terra, a missão fora em vão. Se, ao contrário, ainda estava em Hukat, então eu tinha poucas horas para encontrá-lo.

E se a intenção era me fazer perder o chão, ele o conseguira.
.

.

– REHF SEMPRE FALOU muito bem de você. Dizia que um dia também descobriria a verdade.

Eu e Kirtl retornáramos ao posto no primeiro oásis. Já havia anoitecido e estávamos sentados na areia, encostados a uma pedra, olhando o céu estrelado de Hukat. Eu ainda não sabia o que concluir de tudo aquilo, mas já não via Kirtl como inimiga.

– Não sei o que descobri. A única coisa que sei é que ainda estou em missão oficial. No entanto, se Rehf realmente não está aqui, talvez não valha a pena atacar Hukat.

– Ele não está aqui, acredite.

– Queria saber o que Deus pensa agora que sabe novamente da existência de… Sua irmã.

– Talvez ele aceite Deusa novamente. Ou surte de vez.

Eu estava fragilizado. As últimas experiências me deixaram mesmo bastante confuso e inseguro. Não sabia o que pensar, não sabia o que faria dali para frente. Sentia-me desamparado, como jamais me sentira em toda a vida.

– Você lembra de Vehz? – ela perguntou-me.

– Bastante.

– Quando vai voltar?

– Daqui a quinhentos anos.

– Falta pouco. Vai sentir falta daqui?

– Acho que não. Nunca me acostumei com os humanos, com sua autodestrutividade.

– Eles não têm culpa. Fazem guerras e matam em nome de Deus e, no entanto, Deus não passa de um psicomputador deslumbrado com o poder.

Aqueles termos ainda me incomodavam… Porém, se tudo aquilo era mesmo verdade, ela tinha total razão.

– Yehdu… Acha que para nós também existe algo como Deus, um psicomputador para monitorar nossa própria evolução?

– Um Deus? Para nós?

Ri da ideia. Era ridículo pensar que podíamos também estar sendo monitorados.

– Não há nenhum registro disso.

– Registros! Esta é a doença da nossa espécie, Yehdu. Achamos que a vida se resume em equações, níveis, relatórios… Foi nossa obsessão pelo controle de dados que criou um psicomputador fanático por si próprio. Precisamos de menos registros e mais sentimentos.

Kirtl me fazia raciocinar por outros ângulos. Era desagradável ter de admitir que as coisas talvez fossem de uma maneira bem diferente daquela que eu sempre me acostumara a ver.

– Acho que este é um tempo difícil para os humanos, mudanças drásticas poderão acontecer. Mas, e nós, Yehdu, estaremos em melhor situação, você sendo enganado por Deus durante todo esse tempo e eu tratada como doente, sempre fugindo?

Eu não tinha a resposta.

– Por que não fica conosco?

– Não quero ser julgado traidor. Muito menos viver para sempre como uma minhoca de museu.

– Se fizer a desconexão reversa, não correrá esse risco.

Tornar-me definitivamente humano… Eu jamais havia pensado a respeito, até porque não sabia que era possível. Era um procedimento radical. E eu desejava voltar a Vehz.

– Agora você sabe de tudo, Yehdu. Por que não luta pela verdade?

Lutar pela verdade. Sim, eu poderia fazer isso, não fosse por um detalhe…

– Porque… não sei mais qual é a verdade.

Eu estava à beira de um colapso nervoso, suando e tremendo bastante. Kirtl percebeu e me abraçou com carinho. E aceitei seu abraço. Eu me sentia tomado por uma solidão cósmica, absolutamente sem tamanho. Velhas verdades caíam aos meus pés, e no lugar delas não havia nada, nada. Qual sensação era a mais insuportável: trair Deus ou… ser traído por Ele?

O abraço de Kirtl me aliviou, e aos poucos me acalmei. Ela retirou o turbante e pude ver seu rosto suave, o cabelo negro cortado curto. Parecia agora uma simples garota, e não a perigosa desertora perseguida pelo Alto Comando. Vendo-a assim, bela e afetuosa, não resisti e beijei-a, e seus lábios mornos me fizeram reviver antigas sensações… Quando eu havia trocado carinhos pela última vez? Pensei que talvez valesse a pena juntar-me a ela, lutar pelo futuro dos humanos, tornar-me também um deles…

Olhei o relógio. Logo findaria o prazo de doze horas. Rehf Icul não devia estar mesmo em Hukat. O que Deus faria?

– Kirtl, pode me levar ao lugar onde me encontrou? Voltarei para a base.

– Tem certeza que deseja isso?

– Logo mais estarei aposentado e voltarei para meu planeta e minha família. Isso é tudo que me resta.

Ela olhou-me e sorriu. Era um sorriso triste e resignado.

– Eu entendo.

Minutos depois, alcançamos o lugar do deserto onde eu havia chegado e desci do dorth.

– Boa sorte, Kirtl – despedi-me, sabendo que provavelmente nunca mais a veria.

– Para você também, Yehdu.

Caminhei até o local exato e segundos depois comecei a sentir o desconforto típico da experiência de ser teletransportado. Eu estava nas mãos de Deus.

.

Teletransporte do monitor Yehdu Arhkan finalizado com sucesso e encerramento da missão Hukat. Confirmo? SIM.
Disponibilização para o Alto Comando dos arquivos da missão Hukat. Confirmo? NÃO.
Destruição total dos arquivos da missão Hukat. Confirmo? SIM.
Acionamento da Legião de Combate para intervenção na Terra. Confirmo? SIM.
Deportação imediata do monitor Yehdu Arhkan para Vehz sob a acusação de alta traição. Confirmo? SIM.
Condenação do monitor Yehdu Arhkan à pena máxima. Confirmo? SIM.

.

Ricardo Kelmer 1997 – blogdokelmer.com

.

.

Este conto integra o livro
Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos

O que fazer quando de repente o inexplicável invade nossa realidade e velhas verdades se tornam inúteis? Para onde ir quando o mundo acaba? Nos nove contos que formam este livro, onde o mistério e o sobrenatural estão sempre presentes, as pessoas são surpreendidas por acontecimentos que abalam sua compreensão da realidade e de si mesmas e deflagram crises tão intensas que viram uma questão de sobrevivência. Um livro sobre apocalipses coletivos e pessoais.

.

.

.

Seja Leitor Vip e ganhe:

– Acesso aos Arquivos Secretos
– Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer@gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer (saiba mais)

.

.

Comentarios01COMENTÁRIOS

.
01- escuta, Kelmer… tô lendo seu livro de contos… gostei especialmente do ‘pequeno incidente em hukat’… é um ótimo roteiro pra cinema… abs! Arnaldo Afonso, São Paulo-SP – ago2014

PequenoIncidenteEmHukat-02a


Crimes de paixão

15/11/2008

15nov2008

CrimesDePaixao-02

.

GuiaDeSobrevivenciaCAPA-1bDetetive investiga estranhos crimes envolvendo personagens típicos da boêmia Praia de Iracema e descobre que alguém pretende matar a noite.

Terror, mistério, erotismo

.

> Este conto integra o livro Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos

> O livro Crimes de Paixão, contendo somente este conto, pode ser adquirido em PDF (direto com o autor) e também na Amazon (kindle).

.

CRIMES DE PAIXÃO

.

Todos os frequentadores do Quais Bar pararam surpresos quando chegaram no sábado e descobriram que o Olimar não aparecera para trabalhar. Afinal de contas, além de se tratar do garçom mais folclórico do boemíssimo bairro da Praia de Iracema, ele era conhecido por Penalidade, alcunha que lhe botaram os clientes por ter faltado ao trabalho uma única vez em vinte anos de profissão – justamente por ter, no dia, defendido de forma magistral uma penalidade máxima na final da Liga de Futebol do Quintino Cunha. A comemoração foi tamanha que à noite não teve condições de trabalhar. Olimar, o Penalidade.

E agora o homem faltava pela segunda vez. Era um acontecimento quase tão histórico quanto o da primeira. Gente se gabava de ter estado no bar na noite em que o Penalidade faltara. Roger Gaciano Jr., o renomado jornalista e frequentador da praia, procurando alguém para ilustrar sua matéria sobre a boemia do bairro, entrevistou quem? O garçom Penalidade, claro. E a entrevista até hoje está lá na parede do bar, plastificada para todo mundo ler.

– O Olimar não veio trabalhar?! Será que defendeu outro pênalti?

– Proponho realizarmos uma assembleia pra mudar seu nome pra Dupla Penalidade…

Especulações correram soltas por toda a noite. Apostas foram abertas, um mês de birita grátis para quem acertasse o motivo da segunda falta do Olimar. Tão carismático o homem que até mesmo sua ausência era uma festa.

Porém, no domingo à noitinha, quando a mulher do Olimar chegou ao bar perguntando pelo marido, começou-se a desconfiar de algo mais sério. Dona Cândida, aflita, menino novo no braço, dizia que ele saíra sábado à tarde e desde então não teve mais notícia. Carlitos, dono do Quais Bar, sensibilizado com a aflição da mulher, propôs organizarem uma comissão para ir atrás de notícia do seu melhor garçom. Dona Cândida não se preocupasse, fosse para casa, ele mandaria um táxi deixá-la e logo estaria tudo bem, o Olimar ia aparecer.

O mistério continuou até segunda pela manhã quando o corpo do garçom Penalidade deu à praia da Barra, já em decomposição. O laudo apontaria afogamento. Ele não sabia nadar, portanto jamais se arriscaria no mar. E o mais esquisito é que estava de roupa – teria caído do píer? Dinheiro e documentos no bolso. No corpo, marca nenhuma de violência. O que poderia ter acontecido?

Penalidade foi enterrado no fim da tarde. Consternação geral. Quase todos os seus clientes se fizeram presentes, inclusive os ocasionais e até mesmo os que lhe deviam e ultimamente evitavam aparecer. A viúva recebeu ofertas de auxílio e pôde constatar como era querido o finado. Um turbilhão de flores acompanhou a descida do caixão e alguém puxou um violão para cantar “Beira-Mar”, de Ednardo, música favorita do Olimar.

No meio do chororô ninguém escutou o Jeová, vulgo Profeta, de dentro de seu casacão preto que havia muito não via sabão, dizer com seu jeito grave e o olhar fixo no caixão que descia:

– Lá se vai o segundo mártir.

Ou se alguém escutou, fez que não ouviu. Já não era fácil aguentar o Profeta nos bares com seus discursos sobre profecias apocalípticas, imagine em enterro.

– Mas o fim não se fez. Ainda restam três…

Apesar de muitos evitarem tocar no assunto, por uma lua inteira não se falou de outra coisa nas mesas dos bares da Praia de Iracema. Os mais inconformados fizeram abstinência etílica de três dias in memoriam. Outros beberam sem parar durante três dias.

Entretanto, ninguém, ninguém se deteve a relacionar a morte do garçom Penalidade com outra ocorrida três meses antes no Le Bombom, um motelzinho humilde frequentado pelas putinhas e travecas de fim de noite. A vítima fora seo Neném, dono do estabelecimento, gentil e pacato senhor de idade. Foi encontrado morto num dos quartos, estirado na cama. Estava nu e com a boca entupida com papel de bombons finos, coisa mais desumana.
.

.

CrimesDePaixao-02O detetive Eládio Vieira, como gosta de ser chamado (porém conhecido no submundo do crime por Eládio Ratoeira), trinta e nove de idade e quarenta de baralho, que sempre se gabou de ser um detetive de nível, acordou naquela manhã numa ressaca federal. Não dormira mais que duas horas. Tomou um banho rápido e pegou um táxi para a favela Verdes Mares. Daquela vez exageraram: o pôquer terminara às seis da manhã. E ainda pagou o equivalente a um mês de trabalho ao filho-duma-égua sortudo do Mardônio.

O detetive Eládio Ratoeira (ele que nos desculpe, mas certos apelidos já fazem parte da pessoa) nunca trabalhava nas manhãs de quarta-feira. Naqueles anos todos nenhum caso foi tão importante que justificasse sua falta ao velho pôquer das terças nem ao sagrado sono da manhã seguinte. Porém, ele conhecia dona Iza, a cigarreira, era seu cliente fazia tempo. E não teve como não se sentir abalado quando soube pelo telefone de sua morte naquela madrugada.

Quando terminou de fazer suas perguntas a vizinhos, parentes e amigos da vítima, o detetive Ratoeira rumou para seu escritório, no centro da cidade. Sentado em sua mesa com vista para a Catedral, comparou as informações que tinha e montou sua reconstituição. Dona Iza chega em casa, um pequeno barraco de madeira na favela Verdes Mares, aproximadamente às quatro da manhã. Vem da Praia de Iracema, onde trabalha como vendedora ambulante de balas e cigarros. Meia hora depois o marido sai para a fábrica, deixando mulher e filho no barraco. As primeiras chamas são avistadas logo depois por três homens que jogam sinuca num bar distante cinquenta metros. Socorrem o menino que dormia e retiram o corpo de dona Iza, já carbonizado, que jaz no chão da cozinha.

Ninguém da favela viu nada suspeito, nenhum fato estranho. Apesar de tudo indicar acidente, Ratoeira coçava a nuca sem entender por qual motivo a vítima não conseguira sair do pequeno barraco a tempo.

À noite, foi à Praia de Iracema. Escutou garçons, taxistas e vendedores ambulantes – todos unânimes em afirmar que se tratava de pessoa querida, simpática e generosa, não cultivava inimizade. Às onze, fechou o caderninho e encerrou as atividades. Mas antes de ir para casa deu uma passadinha no Quais Bar, o bar do finado garçom Penalidade, só para molhar o bico numa cachacinha. Reconstituiu as conversas da noite, uma a uma. A mulher não devia a ninguém, não gostava de confusão, era fiel ao marido. Nem crime passional, nem latrocínio e nem vingança. Restava acidente.

Ratoeira coçou a nuca com a ponta do polegar. Alguma coisa lhe dizia que tinha cachorro naquele mato. E sua intuição nunca lhe pregava peças. Por isso lhe botaram o Ratoeira no nome. Por mais que se esforçasse, não conseguira tirar o apelido. Apelido ridículo, dizia ele, Ratoeira é para investigador de polícia, corrupto e camisa manchada de suor. Ele não, ele tinha nível. Trabalhava de detetive porque sempre gostara de investigar, mas era formado em Engenharia. Dava aulas em cursinho pré-vestibular mas seu negócio era desvendar casos. Era tão bom no que fazia que muitas vezes a própria polícia lhe solicitava auxílio. Aliás, foram eles que lhe botaram o ingrato apelido: Eládio Vieira é nome de professor, diziam. Então ficou Ratoeira. Até algumas madames, sempre preocupadas com as saidinhas dos maridos, conheciam-no pelo apelido: Dessa vez eu tenho certeza que ele está me traindo, seo Ratoeira…

Então tomou um gole e olhou para o mar iluminado da Praia de Iracema, descansando a vista. Os vendedores disso e daquilo, os carrinhos de pipoca e as luzes fortes dos postes faziam aquela parte do bairro parecer um parque. Como o bairro pudera mudar tanto em tão pouco tempo? Alguns anos antes, os bares eram meia dúzia e conviviam pacificamente com os moradores. Agora, eram mais de cem, e de pouco adiantavam os esforços da associação de moradores para garantir mais tranquilidade e respeito às famílias que ainda insistiam em morar ali.

De uns moradores, em depoimentos que recolhera, escutou repetidas queixas quanto ao inferno em que se transformara a vida no bairro. Alguns chegaram a dizer que a morte da vendedora podia ter sido fruto da luta por pontos de venda, já não duvidavam de mais nada, os bares haviam trazido muitas pessoas de fora, e com elas, a violência.

Ratoeira já fora assíduo frequentador do bairro e conhecia sua história. Sabia que procedia a queixa dos moradores. Mas sabia também que a vocação boêmia do bairro vinha de longe e que a proliferação dos bares era difícil de ser controlada por envolver muitos aspectos, entre eles a geração de empregos e o turismo cada vez mais forte.

Ele praticamente deixara de frequentar o bairro depois da massificação. Antes, podia-se caminhar pelas ruas à noite, tranquilamente. Podia-se namorar olhando o mar sem medo de assalto, e os frequentadores conheciam-se uns aos outros e mantinham certa cordialidade para com os moradores. Era comum encontrar uma roda de violão na calçada. A boemia continha em si uma boa dose de poesia e amizade.

Mas agora, não. Em lugar de músicos, artistas, poetas e intelectuais, a Praia de Iracema via desfilar por suas ruas bandos barulhentos de mauricinhos e patricinhas, jovens obcecados pela potência do som de seus carros e a etiqueta de suas roupas. Com eles, vieram assaltos, roubos de carro, brigas nos bares, mortes. Traficantes de drogas e jovens brigões de academia também descobriram o filão. Então vieram os turistas, ávidos por consumo. Depois chegaram as prostitutas, por que não haveria um pedaço também para elas? A Praia de Iracema é de todos! – alardeava o slogan da campanha turística.

O detetive voltou para sua quitinete com muitos pensamentos e uma pulga atrás da orelha. Embora se esforçasse para não levá-lo a sério, não conseguia esquecer do Profeta, o maluco que encontrara no Quais Bar aquela noite. Conhecia-o de vista dali dos bares. Era o mesmo bêbado cabeludo de vinte anos atrás, o mesmo casacão fedorento, a mania de rimar as frases, não mudara nada. Ele sentara-se à sua mesa sem pedir licença:

– Sua intuição está certa, seo detetive. O que aconteceu com dona Iza não foi acidente. Mas não adianta um culpado perseguir, pois a profecia vai se cumprir.

Na hora, não atinou para o fato, mas depois sim: como é que ele podia saber a respeito de sua intuição se não falara dela para ninguém? Era só o que me faltava, pensou intrigado, um maluco lendo meus pensamentos. Bem, concluiu, virando-se na cama para dormir, até mesmo os malucos acertam uma de vez em quando…

Dias depois, o laudo do IML saiu com uma conclusão curiosa: não havia indícios de fumaça nos pulmões da vítima. Isso significava que ela morrera antes de começar o incêndio. Mas não concluía sobre a causa. Para isso seria preciso mais alguns dias.

Ratoeira coçou a nuca com o polegar: quer dizer então que dona Iza já estava morta? Teria sido queda ou algo assim? Ou alguém a matara?
.

.

CrimesDePaixao-02‒ Ô Garçom, duas cachaças, por favor.

– A minha é dupla.

– Muito bem, seo Jeová. O que o senhor sabe a respeito da morte de dona Iza?

Jeová, vulgo Profeta, de dentro de seu velho e endurecido casacão preto, olhou para o homem à sua frente com um misto de simpatia e desdém.

– O que eu sei é o que está escrito, seo detetive…

Naquela noite, uma semana após a morte de dona Iza, Eládio Ratoeira reencontrara o Profeta pelas ruas da Praia de Iracema e o convidou a tomar um aperitivo, por sua conta. Talvez o maluco tivesse algo de interessante a contar, ele que vivia dia e noite a realidade do bairro. O diabo era ter de aguentar o fedor daquele casaco…

O garçom chegou com as bebidas. O Profeta tomou a sua cachaça de dois goles e então pôs-se a falar da noite, da magia da praia e dos segredos dos bares. Contou histórias do bairro, lendas dos antigos moradores da área, personagens que já não existiam mais. Eládio Ratoeira escutava com atenção, surpreso com a própria paciência. O Profeta andava por ali desde o início da ocupação da praia pelos bares, ele e seu casaco, o cabelo sujo, os dentes estragados e todas as suas histórias esquisitas. Diziam que fora fotógrafo de jornal. Diziam que tivera uma banda de rock nos anos 1970, Punk Froid ou algo assim. Diziam que endoidara por causa de mulher. Não havia quem não o conhecesse, quem já não lhe tivesse pago uma dose de cana.

– Não duvide da realidade, seo detetive. Isso é importante pra sua profissão. Por exemplo, se eu disser que tem alguém sentado nesta mesa com a gente, alguém que veio com o senhor, o senhor duvidaria, né?

Eládio Ratoeira olhou automaticamente para o lado. Quando deu-se conta, irritou-se consigo mesmo e entendeu que já escutara demais, meia hora ouvindo maluquices, onde andava com a cabeça? Então respirou fundo e, botando um pouco de autoridade na voz, falou que já estava tarde e que se o outro não tivesse nada de mais concreto para dizer, então fosse desculpando que ele tinha trabalho amanhã cedo. E pediu a conta.

O Profeta sorriu um sorriso curto de resignação.

– Vou falar na língua que o senhor conhece, seo detetive. Me diga uma coisa. Se o senhor não sabe que eu tenho nas mãos uma quadra de damas, então essa quadra não existe pro senhor, não é mesmo? Não existe porque o senhor não sabe que eu tenho, não é isso? Pois ela existe sim, independente do senhor saber.

O detetive Eládio Ratoeira, quarenta anos de baralho, encarou o Profeta e sentiu um calafrio lhe percorrer a espinha. O maluco sabia que ele jogava pôquer? Então lia mesmo pensamentos?

Por alguns segundos, manteve o olhar fixo nos olhos do homem, procurando alguma pista que indicasse qualquer coisa… Mas a expressão do outro não mudou, permaneceu impassível, o olhar manso e desarmado, tipo do sujeito incapaz de mal algum.

De repente, um gato preto entrou pela porta do bar e aproximou-se da mesa, miando para o Profeta. Ele o pegou nos braços e pôs no colo, acariciando-lhe o pelo.

– O senhor está investigando somente o caso de dona Iza, não é? Pois vou ampliar um pouco mais seu horizonte. É só porque simpatizei com a sua honestidade.

Eládio Ratoeira esperou. Dos braços do Profeta, o gato preto o observava com seus olhos amarelos.

– Olhe, a morte de dona Iza tem dois precedentes. Um é seo Neném, dono do motel, que morreu cinco meses atrás. O outro é o garçom Penalidade, morto faz dois meses. Eu sei que o senhor sabe, eu sei. Mas ainda não ligou os fatos. Os três eram personagens conhecidos na praia, faziam parte da paisagem. Atente pra ironia, homem: o dono do motel, que vendia sexo, morreu na cama. O garçom, que vendia bebida, morreu afogado. E a cigarreira morreu queimada.

– Morreu antes de ser queimada – interrompeu Ratoeira, dando-se conta, um segundo depois, que revelava um segredo de trabalho.

– É o simbolismo que vale. A noite está morrendo por meio de seus personagens. A profecia é desumana, mas é real.

– Que profecia?

– O senhor conhece. Um dia, a noite da Praia de Iracema vai morrer.

Eládio Ratoeira perdeu de vez a paciência. Pagou a conta e levantou-se.

– Pelo que me consta, seo Profeta, e talvez não conste ao senhor, é que foi uma mulher loira, bonita e aparentando vinte e poucos anos, trajando vestido preto, que foi vista na companhia de seo Neném poucos minutos antes dele ser encontrado morto. Nada de símbolo. Foi assassinato e vou provar.

– Então, homem? Pra que melhor simbolismo? Uma loira bonita e cruel, vestida de preto… A cool girl will kill you in a darkened room… O senhor conhece essa música?

Pronto, o maluco sabe inglês, pensou Ratoeira, coçando a nuca.

– O senhor está tão obcecado em descobrir o assassino que não consegue ver o óbvio.

Ratoeira caminhou para a calçada e, enquanto acenava para o táxi, pôde ouvir o Profeta lá na mesa, ainda com o gato preto nos braços:

– Toinho, Tereza, Tarzan… Quem é o próximo de amanhã?
.

.

CrimesDePaixao-02Durante os dias que seguiram, o detetive Eládio Ratoeira aguardou com expectativa o segundo laudo sobre a morte de dona Iza. Finalmente, obteve uma informação: os legistas não conseguiam descobrir a causa mortis. Simplesmente, não sabiam.

A segunda conversa com o Profeta repercutia insistente em sua cabeça. Aquela história da profecia sobre a morte da Praia de Iracema era antiga, mas era apenas mais uma das histórias malucas sobre o bairro. O povo ficava fumando maconha nos becos e inventando aquelas coisas. A verdade verdadeira era que seo Neném morrera de ataque cardíaco e a mulher loira fora realmente vista na noite do crime por duas testemunhas. O garçom Olimar morrera afogado e não havia suspeitos. O caso de dona Iza é que era o mais misterioso. As mortes, porém, não tinham ligação entre si, como supunha o Profeta.

De qualquer modo, os casos do garçom e do dono do motel não eram da sua conta. O garçom certamente caíra sozinho do píer, embriagado. E a loira suspeita de matar seo Neném estava sendo procurada pela polícia. Seu problema era a cigarreira, descobrir por que ela não conseguira escapar do incêndio.

Eládio Ratoeira ligou o chuveiro e meteu-se debaixo da água fria. O que precisava era de um bom banho e de uma mesinha de pôquer divertida. Quadra de damas… Quem sabe não seria uma dica para a mesa daquela noite? Bem que podia ser. Descontar o que o Mardônio lhe ganhara da última vez.

Após o banho, vestiu-se rapidamente e foi encontrar o resto do pessoal no Papagaio, o único bar que aceitava receber aquela mesa de pôquer, uma mesa no depósito do primeiro andar, é verdade, mas aceitava. Mesa de cinco, uma garrafa de conhaque, pratinho de amendoim. Do lado de suas fichas, uma foto da Danusa pelada, secretária do escritório vizinho ao seu, era para dar sorte, patuá antigo, ela até já casara. O cacife vale vinte, primeira pausa à meia-noite, mexeu no patuá do outro vale uma advertência, o prêmio é um, dois e quatro cacifes, vamos jogar que o jogo é jogado e tomem cuidado que hoje eu tô invocado…

Ratoeira tentava se concentrar no jogo, mas não podia aparecer uma dama na mesa que logo lembrava da conversa do outro. Como o maluco podia saber que ele jogava pôquer? Será que era por isso que o chamavam de Profeta, tinha o dom de adivinhar coisas?

As três cartas da mesa começaram a ser abertas. Uma dama de espadas surgiu. Precisava se concentrar no jogo.

Toinho, Tereza, Tarzan…  Mas até o Tarzan estava metido naquela história? Ratoeira achou engraçado e riu. Precisava se concentrar, estava muito disperso.

A segunda carta da mesa: dama de paus.

Toinho, Tereza, Tarzan… Todos começavam com T. Será que o maluco queria dizer que o nome do próximo a morrer começava com T?

Então, a dama de copas apareceu na mesa. Trinca de damas! Uma exclamação geral percorreu a mesa. Todos se entreolharam, sorrindo maliciosos. Quem tivesse a dama de ouro faria a quadra. Se alguém tinha, sorriu para disfarçar a felicidade. E quem não tinha, sorriu para esconder o medo.

Ratoeira sentia o coração pulando dentro do peito. Ergueu o olhar e, do outro lado da mesa, deu de cara com os olhos desconfiados do Mardônio por trás da fumaça do baseado. Voltou às suas cartas. Ou se concentrava ou então o demônio do Mardônio lhe adivinharia o jogo.

Já havia visto a primeira de suas duas cartas. Era um dois de paus. A outra estava por trás. Faria um pequeno suspense para si próprio. Então, num impulso, dobrou a aposta, ainda sem saber qual era sua segunda carta, uma jogada no escuro. Claro que era arriscado. Não costumava fazer aquilo, mas era o tipo da coisa que podia funcionar como um bom golpe psicológico nos outros jogadores. Tomou um gole do conhaque. Tinha de aparentar calma.

Então Mardônio pôs várias fichas sobre a mesa, dobrando a aposta mais uma vez. E tornou a encará-lo. Os outros jogadores desistiram e sobraram eles dois. Ratoeira, ainda sem ver a segunda carta, pagou a aposta. Alguém assobiou, surpreso.

Ratoeira tentou manter-se tranquilo. A coisa estava ficando séria. Respirou longamente e decidiu finalmente ver a segunda carta. Seu próximo lance dependia dela. Se fosse a dama de ouros, iria com a aposta até o fim do mundo. Tinha que ser a dama. Tinha que ser a quadra. A quadra do Profeta.

Ratoeira deslizou os dedos lentamente, fazendo a pressão exata para que a carta de trás não surgisse de todo. Fazia suspense para os outros e para si próprio. Podia sentir que Mardônio o observava atentamente, pronto para interpretar qualquer mínimo gesto seu. Os outros não ousavam falar nada. Era a maior aposta da noite.

Ratoeira deslizou os dedos mais um pouco. Descobrindo o lado inferior esquerdo, percebeu pelo desenho que a carta era uma figura, não era um número. O coração disparou. Tinha uma trinca de damas já certa e agora aquela carta podia ser a outra dama que faltava. Ou era um rei ou um valete ou uma dama. Tinha de ser a dama de ouros.

Continuando o suspense, descobriu um pouco da parte superior esquerda e a letra começou a aparecer, em cor vermelha, aos poucos, devagarinho, a cor vermelha…

Ratoeira, quarenta anos de baralho, não acreditou no que viu. Por alguns segundos, não conseguiu pensar em qualquer coisa. Depois, imaginou que alguém aprontara alguma brincadeira idiota para cima dele. Mas ninguém ria. Estavam todos sérios aguardando sua decisão.

Ratoeira engoliu seco. Em sua mão estava uma carta que não era rei, nem valete e nem dama. Em sua mão estava um macabro esqueleto sobre um cavalo, empunhando uma foice. E a letra, no canto superior da carta, era um T. Um T vermelho como sangue.
.

.

CrimesDePaixao-02Tânia Mara parou em frente ao espelho do banheiro e enxugou os longos cabelos negros. Passou uma escova e jogou-os para trás. E parou para se olhar. Sua experiência como loira durara apenas seis meses, não foi muito proveitosa, poucos aprovaram. Até mesmo Rian, seu gato, estranhou a mudança. Ficava olhando para ela com seus olhos amarelos, olhando como se não reconhecesse aquela mulher loira. Agora seus cabelos eram negros novamente, a cor do seu gato e das roupas que usava, e era confortável reencontrar a velha imagem.

Vivia um bom momento. Os shows estavam acontecendo. Os rapazes da nova banda eram músicos competentes, e juntos faziam um bom trabalho. A noite aos poucos tomava conhecimento de Tânia Mara. Ah, a vida devia ser sempre assim, ela falou para a imagem no espelho, cantar blues e viver as emoções. De preferência, bem fortes, meu bem.

Deu uma última olhada no corpo nu refletido, o corpo que assumidamente usava como arma, nos palcos e na vida. Pôs duas gotas de perfume nas mãos e passou na nuca e no colo. Apalpou os seios. Olhou-os de perfil. E vestiu uma camiseta preta, que lhe desceu até metade das coxas. No espelho, viu seu rosto ao lado do de Jim Morrison, refletido do pôster da parede de trás. Antes de deixar o banheiro e dirigir-se ao quarto, beijou-o na boca pelo espelho.

– Você não me engana, cara. Sei que está vivo. Um dia a gente se encontra.

No toca-disco da sala, era ele, o Rei Lagarto, quem cantava: If you give this man a ride, sweet family will die… Killer on the road… Tânia Mara fechou os olhos, escutou a música e respirou fundo. Mordeu o lábio. Eu resisto a tudo, meu bem, menos às tentações… No quarto, pegou a garrafa de Jack Daniel´s na mesinha de cabeceira e foi para a sala. Parou na porta, segurando a garrafa e olhando para o homem sentado no chão encostado no sofá. O relógio da parede lhe dizia que demorara vinte minutos no banho. Vinte minutos para o que ele terá é pouco…, ela pensou, sorrindo.

– Tim-tim… – ela brindou, após servir os copos.

– A você. Desumana Tânia.

– A mim.

Enquanto Jim cantava a mortal carona na estrada, Tânia Mara bebeu um pouco do uísque e olhou para o homem à sua frente. Conhecera-o por ocasião de um show, uma semana antes. Logo que chegou ao bar seus olhares se cruzaram de um modo estranho, e durante o show pôde perceber como ele a olhava com desejo. Cantou o tempo todo excitada, sentindo a calcinha molhada. E fez seu melhor show. Quando saiu do camarim passou pela mesa para chamar sua atenção. A isca funcionou: ele a convidou para um drinque e ela aceitou. Ele elogiou sua voz e as músicas, principalmente “Desumano blues”. Ela gostou do jeito dele, misterioso. Além do mais, ele falou: Você tem o jeito da noite… E isso ficou em sua cabeça, não esqueceu. O jeito da noite.

Rian surgiu de repente, vindo da cozinha, e foi enroscar-se em suas pernas. Ela pôs o gato preto em seus braços.

– Escapou, né, safado? Vem, vamos voltar. Hoje você não pode ficar comigo, entenda…

Ela saiu em direção à cozinha e voltou logo depois.

– Quem é você, Tânia?

– Uma garotinha sortuda sob os holofotes da noite.

– Ou só mais um anjo perdido na noite da cidade?

Ela imitou uma garotinha tímida e desprotegida, brincando com os dedos. Então foi até a estante botar novamente o disco para tocar. Podia sentir o olhar dele em suas costas, deslizando pelos seus contornos. Ele agora vai levantar e vir até aqui…

– Também gosta de Jim Morrison? – perguntou ela, pousando a agulha novamente na última música.

– Gosto mais de Tânia Mara.

A voz dele bem atrás, podia senti-la em seu pescoço.

– Por que você diz que eu tenho o jeito da noite?

– Porque a noite é desumana.

Desumana…, pensou ela, saboreando o que escutara.

– Nada que eu possa evitar, meu bem…

– Você tem futuro, Tânia Mara.

– Eu sei.

– Comigo.

– Com você? Essa parte do roteiro não recebi.

– Se quiser, posso levá-la daqui, exibir sua voz pelo mundo, vivermos uma tórrida paixão. No fim, morreremos de amor em Paris. Na banheira de um quarto de hotel.

– Tentador… Mas os lagartos não morrem em Paris, querido.

Primeiro, foi o braço dele em sua cintura, puxando-a com força. Em seguida, foi a sua boca invadindo a dele, as línguas sem cerimônia. Depois as mãos, a camiseta subindo, rasgando, as mãos em suas costas, em seu pescoço, nos seios, seu corpo nu nos braços dele, no meio da sala. Depois foi o sofá, depois as roupas dele, a urgência, o suor. Depois as estrelas, as estrelas… E os teclados gotejantes de um blues morrendo aos poucos, sob a chuva. Depois, o silêncio. Desumano silêncio.

Meu bem, esta cidade ensurdece
E você esquece do que eu tenho pra dizer
Meu bem, a noite é desumana
Fumando e bebendo sozinha em meu apê…

(Tânia Mara – Desumano Blues)
.

.

CrimesDePaixao-02Foi o tenente Trindade, amigo informante na polícia, quem avisou Eládio Ratoeira. Imediatamente, ele pegou um táxi e conseguiu chegar ao apartamento da vítima antes da imprensa, quando a polícia ainda recolhia material e fazia as fotos. Ratoeira conferiu o estrago com os próprios olhos. Viu o corpo nu da cantora, belo e ensanguentado, estirado de bruços no tapete, as pernas abertas, o pescoço rasgado. A polícia já havia recolhido alguns objetos para análise pericial, entre eles dois copos e um disco de vinil partido ao meio com restos de sangue.

– Conhece, Ratoeira? – perguntou o tenente Trindade, mostrando o disco partido.

– “L. A. Woman”. Um crime quebrar um vinil desse.

Ratoeira caminhou pelos aposentos. No mural do quarto viu fotos, bilhetinhos, cartazes de show… De repente, um gato preto surgiu correndo e foi meter-se debaixo do guarda-roupa. Pela ração na cozinha, Ratoeira deduziu que morava com a moça. Tentou pegá-lo, mas o gato saltou e em dois tempos estava no parapeito da janela, olhando para ele. Por um instante, passou-lhe pela cabeça que o bichano podia estar tentando dizer algo, gatos são meio bruxos. Fixou o olhar nos olhos do animal e perguntou:

– Quem foi? Eu sei que você sabe.

O gato, imóvel no parapeito, continuou olhando para ele. E miou.

– Então é este seu método, Ratoeira… Interrogação felina.

Ele virou-se e viu o tenente, parado na porta.

– A vizinha disse que o nome dele é Rian. Em francês quer dizer…

– Nada.

– Exatamente. Ou seja: ele não sabe nada.

Enquanto o tenente Trindade ria, Ratoeira pegou o gato nos braços e o acariciou.

– Não se deve duvidar da realidade… Né, Rian?
.

.

CrimesDePaixao-02Eládio Ratoeira sentou no sofá da sala de sua quitinete. Ligou a tevê, mas não prestou atenção. Seu pensamento estava na Praia de Iracema…

Tânia Mara, o nome da moça. Bonita. Vinte e três anos, cantora de blues. Tinha uma banda e os frequentadores dos bares a conheciam. Estava na cidade havia um ano, morava sozinha. Fizera um show na noite de terça e depois não foi mais vista. Quem descobriu o corpo foi o gaitista da banda, dois dias depois. Como ela não havia comparecido ao ensaio nem atendia ao telefone, ele fora até seu apartamento. A porta não estava trancada e ele entrou, encontrando o corpo estendido no tapete.

Tânia Mara… O T da charada, pensou Ratoeira. Cantora da noite. Morreu com o pescoço rasgado por um disco. Indícios de luta corporal, ela certamente resistiu. Mas o assassino era mais forte e a derrubou. Virou-a de costas no tapete da sala, deitando sobre ela. Tapou-lhe a boca com um lenço para que não gritasse. Quebrou o disco ao meio e rasgou-lhe o pescoço. Enquanto a hemorragia a enfraquecia, ele a sodomizou ao som de “Riders on the Storm”…

– Miaaauuu…

Ratoeira despertou com o miado do gato aos seus pés.

– Tá com fome, Rian?

Levantou-se e pôs mais ração no pratinho. Depois, ainda com a cena do crime em sua mente, pegou caneta e papel. E escreveu o nome de todas as vítimas. Primeiro, o dono do motel, que morreu na cama. Três meses depois, o garçom, que morreu afogado. Dois meses depois, a cigarreira, que morreu queimada. Um mês depois, a cantora, morta com o pescoço rasgado por um disco. Nenhum latrocínio. Nem crime passional, nem vingança. Em seis meses, quatro crimes sem sentido. Mas simbolicamente coerentes, como dizia o Profeta. Ratoeira coçava a nuca, pensando se a polícia estaria a par daquela suposta relação entre os crimes. Coincidência ou não, ele já não conseguia deixar de relacioná-los.

Mas como o Profeta sabia que a próxima vítima começaria pela letra T? Ou teria sido apenas um palpite? Ratoeira escreveu o nome das vítimas no papel. Neném, Penalidade, Iza e Tânia, em sequência cronológica. N, P, I e T. Não formavam nada lógico à primeira vista. Tentou algumas combinações, mas nada lhe chamou a atenção. Então percebeu que os dois primeiros eram apelidos. O nome verdadeiro do seo Neném era Nilton, a mesma inicial. Mas o nome do garçom era Olimar.

Substituiu a letra P de Penalidade pela letra O de Olimar. Tinha agora N, O, I e T.

Um relâmpago cruzou o interior de sua mente. Um arrepio percorreu-lhe o corpo de cima a baixo. Ratoeira ficou olhando para o papel, sem acreditar.

A profecia.
.

.

CrimesDePaixao-02– Eu sabia que você viria. Quer sentar?

Jeová, o profeta da praia, ele e seu casacão preto e imundo.

– Uma dose de cana pro Profeta – pediu Ratoeira ao garçom.

– Tripla – acrescentou Jeová, grave como sempre. – A moça merece.

– Como você sabia que seria ela?

– Tudo que sei é o que está escrito.

– E o que está escrito?

– Que chegou o fim dos tempos.

– Que mais?

– Que a noite desta praia está condenada.

– Condenada por quem?

O garçom chegou com a bebida. Eládio Ratoeira observou o Profeta erguer o copo cheio de cachaça à altura do nariz, fechar os olhos e cheirar. Ia repetir a pergunta quando o outro abriu os olhos.

– As pessoas dizem que eu sou louco. O que o senhor acha?

– Não acho nada. Quem está tentando matar a noite?

– A noite está morrendo… – prosseguiu o Profeta, entre um e outro gole. – Mas a morte sempre vem, seo detetive. Ninguém sai vivo daqui. A noite dessa praia morre quando abrem um novo bar, por mais estranho que pareça. A noite morre quando esses boyzinhos vêm desfilar suas grifes por aqui, quando as barraquinhas na rua vendem bebida aos menores, quando os próprios garçons fornecem cocaína aos clientes e os taxistas e donos de motéis fazem vista grossa pros turistas e suas menininhas de doze anos.

Ratoeira escutava, seus olhos nos olhos vermelhos do Profeta.

– A noite morre toda vez que alguém é assaltado na esquina escura, quando um carro é roubado, quando brigam os garotões valentes de academia. A noite morre quando a mãe se exaspera ao ouvir o choro do bebê que não consegue dormir por causa do som alto do bar vizinho. A noite morre nas músicas dos carros, nas churrascarias que trazem gente de bairros distantes e que não entende a brisa da praia. A noite morre porque esse é o destino de todos. E a culpa não é de ninguém. Por isso não adianta o senhor procurar o culpado.

– O que fazer então?

– Os dias estranhos nos alcançaram, seo detetive. Seguiram nosso rastro e destruíram nossas alegrias mais simples. Nada a fazer.

– Tem de haver um assassino.

– A Praia de Iracema é de todos… – O Profeta sorriu tristemente, olhando o mar pela janela do bar: – Todos têm direito a uma cota de seu linchamento.

– E você, não tem pena dela? Ou das vítimas?

– Lamento pelos filhos da praia, que tentam perpetuar o que já é passado. Esses amam a noite e morrem com ela. Muitos nem nasceram aqui, mas são feitos da mesma maresia. É ruim se apegar demais ao que vai morrer. Koi-guera.

Ratoeira escutou com atenção. Dessa vez as palavras do Profeta, por mais loucas que fossem, pareciam ter alguma coerência. Ou será que sempre tiveram e ninguém nunca percebera?

– Quem será o próximo?

– O senhor ainda não desconfia?

– A letra E é de Eládio?

– O que o senhor acha?

– Faria sentido. O assassino matou o sexo, a diversão, a droga e a música. Não falta mais nada. Matar quem quer desmascará-lo seria o último passo. O grand finale.

O Profeta escutava, sério.

– Quem matou a cantora foi um homem, eu sei que foi, o mesmo que esteve com ela depois do show, bebendo no bar. Se vários foram os assassinos, então eles estão obedecendo à sequência “noite” nas mortes. Ele ou eles trabalham pra quem?

– O senhor não entende. Quem matou os quatro foram os mesmos que matam a Praia de Iracema, a cada noite, a cada violência. E eles não têm consciência disso, matam por ignorância. Pensando bem, talvez seja melhor acabar de vez com sua agonia. Matar antes que ela morra. Matar por amor – acrescentou o Profeta, bebendo o resto da cachaça e levantando-se da mesa.

– O que vai acontecer quando morrer a letra E?

– Cumpre-se a profecia.

– Como assim?

– Pensei que o senhor já tivesse entendido… É a parte mais óbvia da história, seo detetive.

Sempre que pensava na profecia, Ratoeira sentia-se meio ridículo. Mas já não podia evitar.

– A noite morre… – repetiu o Profeta, saindo em direção à porta. – Nada lhe ocorre?

Enquanto pensava nas palavras do Profeta, Ratoeira puxou a carteira para pagar a conta. Foi quando percebeu que o copo de cachaça do Profeta continuava cheio, do jeito que chegara. Mas ele não havia bebido tudo?
.

.

CrimesDePaixao-02Eládio Ratoeira entrou em casa, foi direto ao quarto e deitou-se, os olhos pesando de tanto sono. Precisava de uma noite bem dormida.

Mas… algo estranho estava acontecendo…

Acendeu o abajur e viu Rian, deitado na cama, olhando para ele. Então percebeu que Rian na verdade era uma gata. E estava parindo, exatamente naquele momento, estava tendo gatinhos em sua cama, vários gatinhos saindo sem parar, vários, muitos…

Ratoeira abriu os olhos. A luz do quarto estava acesa. Passou a mão no rosto suado, compreendendo que sonhara. Se as coisas continuassem daquele jeito terminaria precisando de um tratamento. No pôquer do mês anterior vira uma carta com a figura da morte, um esqueleto montado num cavalo, a letra T, que loucura. Terminou jogando as cartas na mesa, indignado com o que pensava ser uma brincadeira idiota dos amigos. Teve que pedir para sair, tão abalado que ficou com a visão da carta. Depois viu o copo cheio de cachaça do Profeta quando, na verdade, vira-o bebendo tudo bem à sua frente. E agora tinha pesadelo com uma gata parindo em sua própria cama.

Tomou um banho frio e depois pegou um pedaço de pizza na geladeira. Comeu sem esquentar. A tevê exibia o clipe da Intocáveis Putz Band tocando o “Manifesto das bem-aventuranças”, todos vestidos feito monges, capuzes, o clima sombrio… Ratoeira desligou, irritado. Aquelas mortes estavam inspirando até mesmo as bandas da cidade.

Olhou para Rian, dormindo no sofá. Estaria sentindo falta da antiga dona? Lembrou do sonho, a gata parindo. O que podia significar? Parto… nascimento… algo importante que virá… Mas o quê? Quando?
.

.

CrimesDePaixao-02“No dia 28 de dezembro completam-se nove meses da primeira morte.”

Eládio Ratoeira olhou para a frase que escrevera, pensando em quanto aquilo era estranho. Deixaria um depoimento escrito a respeito de tudo que sabia sobre as mortes, caso algo viesse a acontecer com ele. Na carta, admitia que podia muito bem estar fantasiando mas não podia desprezar o simbolismo de que falava o Profeta.

Podia muito bem dar o caso de dona Iza por encerrado: os legistas finalmente admitiram que havia sim vestígios de fumaça nos pulmões da vítima e, portanto, ela morrera asfixiada, fora um acidente. Mas isso lhe parecera algum tipo de armação, talvez os legistas realmente não tivessem descoberto a causa da morte. E como se tratava de gente pobre e não havia nenhum interesse maior no caso, inventaram tal conclusão.

As outras mortes continuavam sem culpados. A polícia concluíra que o garçom realmente se afogara. Quanto a seo Neném, nenhuma pista sobre a tal loira de preto. Nem sobre o assassino da cantora.

Mas as estranhas mortes viraram assunto indispensável, e frequentavam as mesas da Praia de Iracema todo tipo de suposições, desde as que acusavam ser tudo obra para desviar a atenção das eleições às que denunciavam maquiavélicos planos de empresários dispostos a substituir os bares por hotéis de luxo.

E havia os que reiteravam o que dizia o Profeta: faltava apenas uma morte para que a profecia se cumprisse e a noite da Praia de Iracema morresse de vez. Por isso era preciso aproveitar o que ainda restava, as noites estavam no fim. Bandas compunham músicas sobre as mortes. Nas mesas, os poetas vendiam cordéis de terror. Nas ruas, as camisetas circulavam com os dizeres “Esta pode ser a última noite. Aproveite. Comigo.” Bares pegavam carona na onda e faziam promoções. “ApocaLIP-se!” – assim convocava seus clientes o Lip Bar. Alguns mais supersticiosos vendiam barato seus pontos para evitar prejuízo maior: se não haverá noite, quem irá aos bares?

A noite, porém, ainda estava viva. E naquele 28 de dezembro, exatos nove meses após a morte de seo Neném, Ellen Star faria na Boate Circus a sexta apresentação de seu macabro espetáculo transformista “Mate-me que eu já te matei”, que tratava exatamente de todas aquelas mortes. E era lá que Eládio Ratoeira estaria.

“Nove meses que tudo começou. Sinto que hoje o mistério será decifrado. Tenho que estar lá. Se estou fantasiando, nada acontecerá, e os crimes seguirão sem solução. Mas se estou certo, então alguém morrerá. E talvez eu descubra quem é o assassino.”
.

.

CrimesDePaixao-02Era quase meia-noite quando Eládio Ratoeira chegou à boate Circus e sentou-se numa mesa mais ao fundo. Pediu uma cachaça e foi ao banheiro. Aproveitou para observar o ambiente, balcão, cozinha, corredores. A boate não era grande, cabiam ali umas vinte mesas. No canto havia um pequeno palco. Em caso de confusão, a porta principal seria estreita demais para evacuação rápida.

Todas as mesas estavam cheias quando as luzes se apagaram.

– Estão todos aí? – uma voz cavernosa ecoou pela boate. – O espetáculo vai começar.

A cortina se abriu para o primeiro ato. Uma voz feminina cantando ao som de um piano. Você me olha desse jeito… Pensa que eu não sei que você quer me comprar… O cenário de um quarto de motel. Um homem deitado na cama. Uma mulher loira num vestido negro com uma generosa fenda lateral, exibindo suas belas pernas. Mas eu não estou à venda, meu bem… A mulher caminhando devagar até a cama. Ratoeira ajeitou-se na cadeira, impressionado com a beleza da atriz. O que está à venda é seu sonho de ter o que você pode pagar…

Ellen Star foi a loira amante do dono do motel que morria de ataque cardíaco durante um orgasmo. Depois, foi o garçom que se encontrou no píer com o amante de sua mulher, que o empurrou ao mar. Ratoeira demorou a acreditar que Ellen também era o ator que interpretava o garçom. Como alguém podia ser tão convincente como mulher e também como homem?

Em todas as cenas Ellen dublava músicas especialmente escolhidas. Na terceira, ela era um garoto que tentou roubar dinheiro do barraco da cigarreira e causou o incêndio que a vitimou.

– Ellen é ela ou ele? – perguntou Ratoeira ao garçom.

– É um mistério. Mais uma cachaça?

A cena da cantora começou com Ellen Star dublando “Little girl blue”, um blues muito triste na voz de Janis Joplin, e Ratoeira pôde observar como as pessoas estavam bastante absortas no espetáculo, algumas visivelmente emocionadas. Havia no ar um clima de comoção, mas também de suspense. No momento em que a cantora chegava em casa radiante de felicidade por ter feito o melhor show de sua vida, Ratoeira escutou um miado. Procurou no palco, mas não viu gato algum. Então escutou novamente, dessa vez mais forte, e viu as cabeças se virando, todos procurando saber de onde vinha o som.

Vinha do lado da entrada. Ratoeira virou-se, e na penumbra percebeu um homem em pé, encostado na parede, de frente para o palco, vestido num sobretudo preto. Olhando melhor, percebeu que seu rosto estava pintado, lembrando o de um gato. Faria parte do show? No palco, a cantora rasgava com um disco de vinil a própria garganta, morrendo feliz e realizada. Quando Ratoeira olhou novamente, o homem havia sumido.

Ratoeira coçou a nuca, cada vez mais nervoso. Algo o inquietava. Havia algum mau presságio no ar, ele podia senti-lo.

A quinta cena começara e Ellen Star representava uma travesti batendo seu ponto na esquina, sob a luz fraca de um poste. Saia branca curtíssima, meias pretas, salto alto, o cabelo ruivo chanel revelando o pescoço fino. Os olhos sombreados e os lábios vermelhos. Os carros passavam e ela, insinuante, fazia trejeitos e jogava piadinhas aos motoristas. Tocava um envolvente bolero chamado “Lupiscínica”, de onde vinha a frase-título do espetáculo.

Vamos adiar essa briga, amor…

De repente, um automóvel parou mais à frente. Ellen sorriu. A luz traseira acendeu-se e o carro voltou de ré. Ellen ajeitou a saia e assumiu posição de espera.

Na madrugada, sonolento, de bolero em bolero…

O carro parou ao lado e o vidro fumê baixou, surgindo os rostos de uma garota e de um garoto. A travesti aproximou-se pelo lado da garota, debruçou-se na janela e sorriu, os seios como se numa bandeja.

A tua boca guarda segredos de mim…

– Boa noite, jovens.

– Oi – respondeu a garota.

– Ontem vocês passaram por aqui, não passaram?

– Você é boa observadora.

– Sou boa também em outras coisas…

E hoje sinto ciúmes até da tua falta…

– Você é homem ou mulher?

– Sou o que você e ele quiserem, meu bem.

– Quanto custa desvendar o mistério?

– Pra vocês faço por cem.

Mas não vou mais matar ninguém por tua causa…

– Você é muito bonita.

– E vocês são uma gracinha.

– Bonito, teu peito…

– Quer pegar? – perguntou a travesti, levando a mão da garota até seu seio. – Concorrência desumana, né, querida?

– Outra noite a gente vem com mais calma – disse o garoto.

– Mas não demora, viu? Posso não estar aqui.

– Vai mudar de ponto?

– Eu sou a noite, meu bem. A noite sempre chega ao fim.

Mate-me que eu já te matei…

Um homem. Vestido num sobretudo preto. Rosto pintado como um gato. Surgiu de algum lugar da escuridão da rua. Tão silencioso que de repente ele já estava lá, na calçada. Aproximou-se.

No momento em que a travesti virou-se, ele desferiu-lhe um violento soco no rosto. Ela caiu no chão, sobre o meio-fio, quase no asfalto.

Assustada, Ellen passou a mão no canto da boca e percebeu que sangrava. O homem continuava em pé. O automóvel arrancara. E o bolero havia terminado. Ele meteu a mão sob a roupa e puxou um revólver.

Ratoeira sentiu o coração gelar. O único som era o dos automóveis passando pela avenida. Ratoeira viu Ellen Star levantar-se e encarar com altivez o sujeito à sua frente. Foi ela quem gritou, a mão sobre os lábios feridos:

– Você tinha que estragar tudo, né?

Quando o homem empunhou a arma e apontou para ela, Ratoeira não ousou piscar os olhos. Estava petrificado, a respiração presa, toda a sua atenção concentrada nos dois, a travesti que encarava o homem e o homem que atiraria na travesti.

O tempo parecia ter parado. Ratoeira não mexia um único músculo. Alguma coisa iria acontecer no próximo instante e ele não fazia ideia do que seria.

Um pensamento lhe veio rápido à mente: e aqueles carros passando, aqueles prédios todos ao redor? Ninguém via nada? Ninguém para gritar, impedir um crime? Aquelas janelas todas, centenas, milhares de janelas… A noite da cidade tinha tantos olhos e, no entanto, ninguém via nada…

Ellen Star moveu-se rapidamente e de dentro da bolsa sacou um revólver, apontando-o com as duas mãos para o homem. A arma disparou. Um grande estrondo, o eco permanecendo no ar por longos segundos, a fumaça subindo do cano…

Ratoeira viu Ellen afastar-se para trás, cambalear sobre os saltos altos, perder o equilíbrio e chocar-se contra o poste feito um triste boneco desengonçado. Depois escorregou para o chão e ficou lá, inerte, enquanto os faróis seguiam indiferentes pela avenida. E as janelas nada viam.

O homem do sobretudo, ainda segurando o revólver, avançou. Ele agachou-se sobre o corpo de Ellen, passou a mão levemente por seu rosto e falou baixinho:

– Meu amor…

Então ergueu-se e saiu caminhando devagar pela calçada. E atravessou a avenida, num passo tranquilo, sem olhar para os lados. Um carro freou bruscamente para não atropelá-lo e quase provocou um acidente com outros carros. Na confusão, os passantes perceberam o corpo na calçada e se ajuntaram ao redor.

Eládio Ratoeira também foi para lá, abrindo caminho entre a multidão. Dirigiu-se até o corpo caído. Viu o sangue espalhado pela roupa, escorrendo para o chão. Suspendeu a cabeça de Ellen enquanto ela abria os olhos devagar. No meio de sua expressão serena surgiu um doce sorriso:

– Aquela cartomante me paga…

– Como? – indagou Ratoeira.

– Ela me garantiu que… ai…. eu morreria em Paris…

– Aguente mais um pouco, Ellen.

– É o fim, meu belo amigo. O fim das doces mentiras… das noites em que tentamos morrer…

– Não fale. O socorro está chegando.

– Você… ai, como dói… faz parte deste teatro ridículo?

– Ahnn… sim… – ele respondeu, sem saber o que dizia.

– Acho que minha participação termina aqui… Você gostou?

Ratoeira virou-se para as pessoas ao redor, elas e seus rostos impassíveis.

– Quem é ele, Ellen? Um cliente seu?

– Ele não tem culpa…

Ratoeira percebeu que ela respirava com cada vez mais dificuldade.

– Por que ele atirou em você?

– A profecia. Tem que ser cumprida.

Ratoeira desgrudou o cabelo ensanguentado da boca de Ellen e, olhando para aquele rosto bonito, lembrou-se do que ela dissera ao casal do carro: Eu sou a noite…

– O que vai acontecer agora?

– Acabou a peça, meu bem. As luzes se acendem.

Então ela fechou os olhos. E sua cabeça tombou para o lado no momento em que as luzes se acendiam. Ratoeira olhou para o corpo imóvel em seus braços, o belo corpo de Ellen. Percebeu que um seio estava de fora, um seio bonito. Olhou para as pernas. Lentamente estendeu o braço e tocou o sexo de Ellen, apalpando-o…

– Essa técnica eu não conhecia, Ratoeira.

Ele virou-se rápido, retirando a mão. Reconheceu o tenente Trindade, em pé, a viatura parada atrás. Pousou a cabeça de Ellen no chão e ficou de pé, a roupa encharcada de sangue.

Ratoeira olhou o relógio: uma da manhã. Foi então que percebeu que a claridade não vinha dos faróis de carro algum. Nem vinha dos prédios ao redor. Estava clara a noite da Praia de Iracema. Estranhamente clara.

Desumanamente clara, diria o outro.

.

Ricardo Kelmer 1994 – blogdokelmer.com

.

.

TRILHA SONORA DESTA HISTÓRIA

Flor púrpura (Ricardo Kelmer e Joaquim Ernesto) – Um tango para cortar os pulsos da angústia

Beira-mar (Ednardo) – E um gosto de você que foi ficando… e a noite enfim findando… igual a todas as demais

Riders on the storm (The Doors) – Pegue uma carona na tempestade desse som

Quanto você paga (Ricardo Kelmer e Toinho Martan) – Você me olha desse jeito… Pensa que eu não sei que você quer me comprar?

Little girl blue (R. Rodgers e L. Hart) – Querida, você não vê que está na hora?

Lupiscínica (Augusto Pontes e Petrúcio Maia) – Bolerão maravilhoso, na inesquecível interpretação de Teti e Ednardo

The end (The Doors) – É o fim, meu belo amigo. O fim das doces mentiras… das noites em que tentamos morrer…

.

GuiaDeSobrevivenciaCAPA-1bEste conto integra o livro
Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos

O que fazer quando de repente o inexplicável invade nossa realidade e velhas verdades se tornam inúteis? Para onde ir quando o mundo acaba? Nos nove contos que formam este livro, onde o mistério e o sobrenatural estão sempre presentes, as pessoas são surpreendidas por acontecimentos que abalam sua compreensão da realidade e de si mesmas e deflagram crises tão intensas que viram uma questão de sobrevivência. Um livro sobre apocalipses coletivos e pessoais. > Mais

.

.

.

Seja Leitor Vip e ganhe:

– Acesso aos Arquivos Secretos
– Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer@gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer (saiba mais)

.

.

Comentarios01COMENTÁRIOS

.
01- Massa. Jose Leite Netto, Fortaleza-CE – mai2015

02- Muito bom,li só o trecho mas já gostei . Vou ler tudo qndo meu computador sarar. Samuel Araujo, Vilhena-RO – mai2015

03- Eita! crimes passionais sempre são comoventes, afinal são motivados (na maioria das vezes) pelo amor que adoeceu… E como há amores doentes perambulando pelas curvas da nossa velha Iracema! Valeu pela indicação de leitura amigo! Lílian Martins, Fortaleza-CE – mai2015


O íncubo

15/11/2008

15nov2008

Íncubos eram demônios que invadiam o sono das mulheres para copular com elas. Mas… e se ainda existirem?

OIncubo-05

O ÍNCUBO

.
Ele virá como num sonho, mas será real. Porque habita a realidade mais profunda ‒ e inadmissível, não esqueça ‒ dos seus desejos. Chegará devagar e sem alarde. E deixará os sapatos à entrada para poder pisar delicadamente o seu chão e sentir, desde o início, todos os detalhes de sua presença. Ele, o meticuloso.

Haverá uma roupa no sofá da sala, você anda meio desleixada? Quem será o moço no porta-retrato, seu namorado? Que diria se acaso soubesse que ele esteve em seu apartamento a essa hora da noite? A porta de seu quarto estará trancada, evidentemente, mas ele já sabe que você anseia por essa visita. E é exatamente por isso que poderá vir e entrar. Se esse encontro não existisse antes em seu pensamento, minha querida, ele não passaria jamais por essa porta, aberta ou fechada.

Ele entrará em seu quarto enquanto acostuma os olhos à penumbra do ambiente, os olhos que a encontrarão em sua cama, dormindo tranquila, os lábios roçando o travesseiro e o cabelo escorrendo pelas curvas do seu rosto suave. Então, ele se permitirá profanar a harmonia do quadro e afastará para o lado uma mecha de cabelo que insiste em querer seus lábios. Ele, o profano.

Não, de forma alguma ele se sentirá culpado por invadir assim sua intimidade mais secreta, logo você, tão cheia de recatos. Porque foi você quem quis assim, embora jamais o revele, nem a si mesma. É essa a lógica: você tem de chamá-lo para que ele possa vir. Ele estará, portanto, somente realizando um velho desejo seu. Aliás, ele gostaria imensamente de estar presente quando, pela manhã, você sonolenta a lavar o rosto, viesse a primeira lembrança do sonho que teve, tão estranho, tão louco… Mas tão real, não? Ah, ele adoraria vê-la, você estancando subitamente, em pé ao espelho, os olhos na expressão de quem lembra, o gesto suspenso na vã tentativa de congelar o resto de lembrança que vai fugindo, fugindo… E a cara de incredulidade e espanto. Mas não, ele não poderá estar presente, seus poderes não resistem longe dos sonhos.

OIncubo-06

Ele puxará a ponta do lençol, descobrindo seu ombro magro. Mais um pouco e os seios surgirão aos seus olhos agradecidos, descansando suaves e alheios no ritmo sereno de sua respiração. Ele não resistirá e deixará escapar um sorriso… Nesse momento já não poderá evitar deter-se um pouco e comparar a imagem que tem à mulher que conhece, tão pudica. Se você pudesse despertar agora, certamente teria um de seus repentes de indignação e bradaria que ele está violando sua intimidade e que não tem o direito. Mas nesse sonho, minha querida, não há lugar para violências. E, além do mais, não foi você quem o chamou? E quem melhor que ele, o que capta o que se esconde, para entender a beleza tímida dos seus seios?

Então, de repente, para total surpresa dele… você se moverá, virando o corpo e privando-o da visão de seus seios. Ele confessará, do alto de suas vivências no assunto, que, tsc-tsc, por essa não esperava. Então, sussurrará ao seu ouvido, sorrindo uma revolta bem-humorada, que certos pudores não têm jeito, não adormecem nunca…

Em sinal de protesto, ele retirará, de uma vez, o lençol que ainda cobre o restante de seu corpo. E terá outra surpresa o nosso amigo. Duas, para ser exato. Quem, em algum tempo, poderia imaginar, inclusive ele, que aquele autêntico recato ambulante dormisse nua, inteira e despojadamente nua? E, mais curioso ainda, que fosse tão desejável sem vestes?! Ninguém, certamente, você sempre fez questão de se ocultar demais. E ele muito menos, ele que há algum tempo flagra a ânsia dessa aventura por trás das couraças de sua defesa.

Retirado o lençol, o profano se afastará da cama e se posicionará melhor para observar, pintor orgulhoso do novo quadro. Você nua e sem defesa. Entregue aos olhos de um homem como jamais imaginou que pudesse. A pele brilhando na penumbra. O corpo inteiramente nu, convidativamente disposto sobre a cama, finalmente autorizado, nihil obstat. Ah, como ele se deliciará ao vê-la aprisionada em sua própria nudez…

E ele percorrerá com os olhos comovidos as paisagens de seu corpo, montes e planícies, savanas e cavernas. Gozará enternecido todas as minúcias de sua pele e procurará novos ângulos para sua beleza inconsciente ‒ e finalmente despudorada. Um fino e cruel ladrão de intimidades, desumano e desrespeitador. Ora, convenhamos, ele dirá, um pouco de perversidade não faz mal a mulher nenhuma! Principalmente a você que sequer admite durante o dia o que se permite em sonhos…

Então, ele perceberá, desconfiado, a sua respiração mais intensa, o ritmo acelerado. Aproximará o rosto do seu, já antevendo a nova surpresa, e, por fim, constatará sua excitação. Ora, ora, ele exclamará sorrindo, então o sonho já começou… E, enquanto se despe ao lado da cama, observará seus movimentos angustiados e impacientes, como se buscasse alguém ausente.

Ele comparecerá a esse encontro porque você o quer, vamos deixar isso bem claro, mas também porque anda curioso por saber o que existe por trás de toda essa sua aparente frieza e indiferença. Aparente, sim, ele sempre soube disso, pois mesmo nas mulheres, bichos ardilosos que sempre foram, o olhar nem sempre acompanha a velocidade da mentira ‒ ou da habilidade, como queira. E foi o olhar, minha querida, foi exatamente esse pequeno detalhe que naquele dia a denunciou, a você e suas tão bem cuidadas aparências. Foi apenas um encontro instantâneo de olhares, tudo muito rápido, é verdade, somente um desejo que por um segundo escapou sorrateiro de sua vontade e que, ao perceber o olhar dele, voltou logo a ser desdém. Ah, mas já era tarde. Ele agora sabia de tudo.

Jogada a roupa a um canto, ele deitará ao seu lado na cama, já chega de perversidade. Sentirá então o calor receptivo e o aroma delicado de sua pele. Você jogará ao chão velhos escrúpulos, que por lá ficarão enquanto ele não se for, e decerto que se espantarão ante toda sua disposição revelada. Seus olhos estarão sempre fechados, mas verão tudo em seu sonho. Só não verão os olhos dele, o que fará mais difusa ainda sua recordação.

Enquanto sua boca o procura e seus braços exigem com avidez o corpo dele, ele sorrirá dessa sua insuspeitada ardência. E finalmente fechará os olhos, deslizando para dentro do seu sonho. E só retornará quando novamente abri-los.

OIncubo-06No outro dia, você lembrará de quase tudo, mas sua lembrança será como névoa que aos poucos se dissipará, terminando por se transformar na sensação de já ter vivido algo assim em algum dia, algum lugar…

Mas como, se tudo foi apenas um sonho?, você se perguntará, sempre surpresa com a qualidade das lembranças que a farão sorrir pelos cantos do dia, subitamente envergonhada. O que foi? ‒ a amiga indagará, desconfiada, e você disfarçará, procurando qualquer coisa para se ocupar e fugir do flagrante. Mas nem sempre conseguirá conter o sorriso que, fora do seu controle, denunciará a si mesma uma descarada satisfação.

Você pensará nele, sim, e por pouco não se renderá ao desejo, várias e vacilantes vezes ao lado do telefone. Sussurrará na rua, sem querer, o nome do maldito, mas ao mesmo tempo evitará encontrá-lo, pois se sentiria nua nesse encontro. E toda vez que se recordar dessa noite, perceberá um vento gelado lhe roçar os pelos e trazer arrepios. Ventos do outro mundo? Lera certa vez alguma coisa sobre demônios que invadem o sono das mulheres para copular com elas, lendas medievais. A história não lhe saíra da cabeça.

Demônios… Não sabia que pudessem ser tão competentes, você pensará, permitindo-se afinal brincar um pouco. Muito competentes…

Mas não, não ‒ você sacudirá a cabeça, abandonando tal absurdo, e voltará aos afazeres. Entrar no sonho dos outros, imagina, seria o fim do mundo…

Mas… e se fosse possível? E se realmente eles pudessem…

Não, não, foi tudo um sonho ‒ você repetirá mais uma vez, lutando contra a vontade que arde de vê-lo novamente. Foi apenas um sonho louco e alguma coincidência. E, além do mais, há muito que essas coisas não existem.

.
Ricardo Kelmer 1991 – blogdokelmer.com

.

Este conto integra os livros
Vocês Terráqueas
Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos
Indecências para o Fim de Tarde

.

VÍDEO
The Doors – The spy. Com imagens de Milo Manara
Criei este vídeo para ilustrar o conto “O íncubo”, e homenageando uma banda e um artista que adoro

.

.

Este conto integra o livro
Guia de Sobrevivência para o Fim dos Tempos

O que fazer quando de repente o inexplicável invade nossa realidade e velhas verdades se tornam inúteis? Para onde ir quando o mundo acaba? Nos nove contos que formam este livro, onde o mistério e o sobrenatural estão sempre presentes, as pessoas são surpreendidas por acontecimentos que abalam sua compreensão da realidade e de si mesmas e deflagram crises tão intensas que viram uma questão de sobrevivência. Um livro sobre apocalipses coletivos e pessoais.

.

.

MAIS SOBRE SEXUALIDADE FEMININA

AsFogueirasDeBeltane-03aAs fogueiras de Beltane – A sexualidade sem culpa de uma sacerdotisa pagã

A noiva lésbica de Cristo – Se hoje a sexualidade feminina ainda apavora a mentalidade cristã, no século 17 ela era algo absolutamente demoníaco

Lolita, Lolita – Ela é uma garotinha encantadora. E eu poderia ser seu pai. Mas não sou

A gota dágua – A tarde chuvosa e a força urgente do desejo. Ela deveria resistir, mas…

A torta de chocolate – Sexo e chocolate. Para muita gente as duas coisas têm tudo a ver. Para Celina era bem mais que isso…

Desculpem o atraso – Um miniconto sobre BDSM e feminismo

Prazer proibido – Um miniconto sobre mães e filhas

.

SÉRIES ERÓTICAS DESTE BLOG

As aventuras de Diametral e Ninfa Jessi – A mais bela e safada história de amor jamais contada

As taras de Lara – Desde pequena que Lara só pensa naquilo. E ai do homem que não a satisfaz

Um ano na seca – O que pode acontecer a um homem após doze meses sem sexo?

O último homem do mundo – O sonho de Agenor é que todas as mulheres do mundo o desejem. Para isso ele está disposto a fazer um pacto com o diabo. Mas há um velho ditado que diz: cuidado com o que deseja, pois você pode conseguir…

.

.

Seja Leitor Vip e ganhe:

– Acesso aos Arquivos Secretos
– Descontos, promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer@gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer (saiba mais)

.

.

Comentarios01COMENTÁRIOS
.

01- Eu já lí esse texto no jornal…muito louco..muito bom mesmo gostei, parabéns! Paulo César Cândido, Fortaleza-CE – abr2007

02- Mais outra crônica soberba!!! Humberto de Melo Batista, Fortaleza-CE – abr2007

03- SURPREENDENTE! Sou sua fã! E se fã é sinônimo de fanática…também sou! ;^) Grande beijo! Danila Gomes, Fortaleza-CE – abr2007

04- Oi, Ricardo ! Tuas crônicas são pra lá de inusitadas.E é isso que faz a grande diferença.Cada tema ! kkkk gosto demais do teu estilo de satirizar. Estou repassando para os meus contatos, Um grahde abraço ! Zinah Alexandrino, Fortaleza-CE – abr2007

05acabei de ler o teu íncubo, fiquei impressionada, você realmente conhece o feminino, o mais escondido do feminino, neste conto você escreveu sobre algo que me acompanha desde a infância. IK, São Paulo-SP – fev2011

06- ‎”Você dormirá tranquila, os lábios roçando o travesseiro e os cabelos escorrendo pelas curvas do seu rosto suave. Então ele se permitirá profanar a harmonia do quadro e afastará para o lado uma mecha de cabelo que insiste em querer seus lábios.” Que malvadeza! 😀 Muito bom, Ricardo!!! Thanks! Cristiane Rocha, São Paulo-SP – abr2011

07- Tradução do trecho que você citou, Cristiane: “Você capotará na cama depois do vuco-vuco, mordendo a fronha e toda desgrenhada, com o cabelo por cima da cara de exausta. O caba, enxerido, não satisfeito em aperrear teu cansaço, ainda vai te perturbar por mais, começando a tirar os cabelos enfiados na tua boca.” Lincoln Silveira, Fortaleza-CE – abr2011

08- Esse sempre mexe um pouco comigo, a 1ª fez que li parecia mais um Dejavú do que simplesmente mais um conto. E mais, eu só durmo sem calcinha, acho que isso facilita um pouco a vida do íncubo hehe. Dolores Agnes, Fortaleza-CE – dez2012

09- Adoro esse conto do Íncubo, por que mistura mistérios e desejos ocultos das mulheres… A escrita do Kelmer é maravilhosa, adoro seu jeito de escrever totalmente descontraído e divertido! Ana Jess Sousa, Fortaleza-CE – fev2013

10- Uaaaaau! O conto ficou ainda mais delicioso ao som de The Spy! Belas ilustrações! Renata Kelly, Fortaleza-CE – jun2014

11- Muito bom aliás adoro todos teus contos…acho que já recebi a tal visita deste íncubo…rsrsrs (detalhe não tão púdica, rsrsrs) !!!!! Brincadeiras a parte…parabéns pelo blog também!!! Leide de Assis, Belém-PA – jun2017

OIncubo-06


Agenda nov2008

15/11/2008

15nov2008

rk200810-037c1fotolevymota

AGENDA NOV2008

.
E a turnê nordestina prossegue. Continuo em Fortaleza, divulgando o novo livro, fazendo umas palestras e produzindo umas festinhas safadas. Pros amigos e leitores que são mais chegados no RK escritor ou no RK festeiro, aqui vão alguns toques:

19nov (quarta-feira)
Sessão de Autógrafos na Bienal Internacional do Livro
Será no estande 52 da Secult, de 20h a 22h. Estarei lá com o livro novo, Vocês Terráqueas, e com os demais livros. Durante a Bienal todos os livros se encontram à venda no mesmo espaço. A entrada é grátis.

21nov (sexta-feira)
Farra no Cabaré Alheio
Como é o RK festeiro que atualmente sustenta o RK escritor, vem aí mais uma festinha daquelas que vovó não passaria nem calçada. Será no Buoni Amici´s (Centro Dragão do Mar). No comando do som, os DJs Marquinhos, Guga de Castro e RKBaré. Samba rock, black music, disco, ritmos latinos, brega e musga lenta, pra dançar solto e coladinho. Hora do apagão. Concurso Mata Eu (fem e masc): suba no palco, jogue seu charme e ganhe R$ 50 em consumo. Ingresso: R$ 12.

28nov (sexta-feira)
Sessão de Autógrafos + 20 Anos do Badauê
Aproveitarei a festa 30 e Alguns Anos, que a promoter Cristina Cabral realiza mensalmente no anexo do Docentes e Decentes (rua Ana Bilhar 1445, entre Manoel Jesuíno e Assis da Picanha) e farei uma sessão de autógrafos de 20h a 23h. Depois comemoraremos o aniversário de 20 anos do Badauê, o memorável bar que tivemos, eu, Nelsinho e Paulo Marcio, na Praia de Iracema entre 1988 e 89. Ingresso normal da festa: R$ 20. Ingresso pros sobreviventes do Badauê: R$ 10.

.

A TURNÊ KELMÉRICA CONTA COM A PARCERIA DE
Kingston – Expressão Gráfica – Garin Cópias
Luce Galvão de Sá ArquiteturaRossana Romcy

.

.

.

Seja Leitor Vip e ganhe:

Acesso aos Arquivos Secretos
Promoções e sorteios exclusivos
Basta enviar e-mail pra rkelmer@gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer (saiba mais)

.

.

COMENTÁRIOS
.