21ago2008
O pior pesadelo para um escritor é ser psicografado. Ou melhor: ser mal psicografado
Nada pode ser mais aterrorizante para um escritor que a seguinte situação: dia do lançamento de seu novíssimo livro, ele sentado na mesinha, o lugar todo preparado, a pilha de livros em espiral, o fotógrafo ao lado para registrar as presenças ilustres… e ninguém aparece. Putz, que horror.
Acabo de descobrir, porém, que existe um pesadelo bem pior. Não, não falo desses textos com falsa autoria que analfabetos literários repassam aí pela internet, matando o escritor de vergonha por ver que milhares de pessoas acham mesmo que ele escreveu aquele texto horroroso. Isso é de lascar, mas nesse caso pelo menos podemos ir à tevê e nos defender.
O pior pesadelo para um escritor é ser psicografado. Ou melhor: ser mal psicografado. Putz, me dá uma fininha de nervoso só de imaginar essa possibilidade… Não acredito em Deus, mas se um troço desse me acontecer, juro que entrarei com um processo contra ele por permitir tal barbaridade. Espíritos, reencarnação, psicografias, todo mundo é livre para acreditar no que quiser, até em promessa de político. Mas fazer isso com a pessoa depois que ela já bateu as botas, aí é muita covardia.
Foi dia desses. Alguém me enviou uma letra musical que teria sido escrita por John Lennon depois de morto. A letra era tão cheia de beatitudes e bem-aventuranças, uma pieguice espiritual tão grande, que das duas, uma: ou John de repente virara coroinha ou então onde ele estava só rolava fumo da pior espécie. Putz! Só alguém que não conhece porra nenhuma de John Lennon poderia supor que aquela coisa horrenda seria obra dele. Poisbem. Depois desse dia o alerta vermelho foi acionado e percebi a gravidade da situação: e se eu morresse e alguém psicografasse uma crônica minha que falasse de seres de luz, jardins celestiais e coisitais? Argh!
Mania horrorosa a desse povo, de converter a gente depois que a gente morre. Magali, por exemplo. Além de ateia, Magali sempre foi uma grande escrota e nunca nem botou os pés numa igreja. Aí um dia Magali morre, e uma semana depois, no centro espírita, recebem uma mensagem dela: Queridos paizinhos, amada irmãzinha, que a graça de Deus e Nosso Senhor Jesus Cristo ilumine vossos corações e… Como é? Amada irmãzinha?! Mas um dia antes de morrer ela queria decapitar a irmã e jogar a cabeça no lixão! Vossos corações?! Mas Magali não tinha nem primeiro grau completo! Então ela, além de se converter e virar santa assim que morreu, ainda fez um superintensivo de português?
Imagino que nesse ponto do texto haja algum espírita indignado comigo. Paciência. Particularmente, para mim até faz sentido que após a morte haja algum tipo de continuação da vida tipo Matrix ou que, após morrer, o cidadão desperte e entenda que tudo foi uma viagem de LSD mucho loca, sei lá. Mas, psicografia? Bem, isso até poderia ser interessante caso a vida pós-morte fosse tão tediosa que a única diversão de um escritor como eu se resumisse a ditar contos de sacanagem para seu público encarnado. Mas acho que ainda não existe centro espírita moderninho assim para topar receber esse tipo de cartinha.
Então, quero desde já deixar claro, claríssimo, que eu, Ricardo Kelmer, terráqueo nascido em 1964 na província de Fortaleza Desmiolada de Sol, atribuído da autoridade a mim concedida por eu ser eu mesmo, e de plena posse de minhas faculdades mentais, não, melhor tirar essa última parte, eu não autorizo ninguém, absolutamente ninguém, a psicografar, psicoaudializar ou canalizar ou receber, seja como for, quaisquer textos de minha autoria, na íntegra ou em parte. Heim? Não, nem mesmo se o texto for de sacanagem, não dá para confiar. Ninguém está autorizado e pronto. E quem disser que recebeu, meus representantes legais poderão processar o engraçadinho.
Ufa. Agora já posso partir em paz. Mas… e se um dia eu, lá dos cafundós do Além, sentir uma vontade danada de escrever um novo livro? Como farei se ninguém estará autorizado a psicografar? Não tem problema: escreverei o livro e darei um jeito de publicar no Além mesmo, não se preocupem, até porque por essa época certamente alguns leitores meus já estarão por lá. Mas novos leitores desencarnados serão sempre bem-vindos, claro. Afinal, já pensou eu, sentado na mesinha do Além, a pilha de livros toda linda em espiral, a equipe de tevê do CulturAlém a postos… e nenhuma alma aparece? Que horror.
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Ricardo Kelmer 2008 – blogdokelmer.com
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Basta enviar e-mail pra rkelmer@gmail.com com seu nome e cidade e dizendo como conheceu o Blog do Kelmer (saiba mais)
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01- Adorei, Ricardo! Denise Santiago, São Paulo-SP – jan2012
02- genial… Glaucia Costa, Fortaleza-CE – jan2012
03- Ai ai, ai, essa Jurema te fez um belo estrago! kkkkkkkk, tô aqui rolando de rir! Lindão, se você for primeiro do que eu pode sussurrar seus textos no meu ouvido que eu prometo ser fiel às suas sacanagens, será um imenso prazer psicografar suas criações! E desde já te prometo ser fiel nas insanidades e nas filosofias! Maria do Carmo Antunes, São Paulo-SP – jan2012
04- De fato, Kelmer. Quero inclusive te informar que dentre o próprio meio espírita se reconhece que muita abobrinha foi e vem sendo escrita na área da psicografia. Hoje ando afastado do movimento, mas mesmo quando fui parte integrante dele questionava esses absurdos. Só vejo um contra-senso em teu texto. Se você não crê nessa possibilidade comunicativa, não deveria, teoricamente, incomodar-se em nada quanto à fidedignidade das mesmas num futuro batimento de botas. rsrsrsrs A não ser é claro, que você tenha se utilizado da licença poética. Brennand de Sousa Bandeira, Fortaleza-CE – jan2012
05- O escritor transmite as ideias q lhe vem à cabeça. Cabe ao leitor optar pela interpretação que mais lhe agrade… ou mesmo discordar de tudo q está escrito. Denise Santiago, São Paulo-SP – jan2012


Escrito por ricardokelmer 














